sábado, julho 15, 2006

pensar-teatro.

LADO C
3.ª parte da trilogia Vou A Tua Casa


por Natacha Paulino, DIF, Outubro 2005


Como já aconteceu, é inevitável falar de Vou A Tua Casa sem recorrer à minha experiência (tão) pessoal. No entanto, e numa distância a esforço, Lado C permite-se ser analisável por conter o global deste projecto, tornando-se instintivo o balanço. Rogério Nuno Costa cria Vou A Tua Casa, um projecto em três fases, que não é mais do que a sua jornada criativa pessoal, a seu contento por cursos dúbios e nevoentos, a caminho e de frente para a dúvida. Definidas as fronteiras como fios de navalha, resta deslindar a “fórmula ideal” de dar contorno à grande dúvida: a vida (a sua) e o teatro (o de todos), ambos desconstruídos, onde se distinguem? O “autor” desmonta estas duas estruturas, e a braços com uma caranguejola desconexa, cola tudo num só quadro. Com muito pouca inocência, mas de facto inerente por definição aos dois conceitos, todos quantos se abeirem do criador, sujeitam-se a com ele tornarem-se personagens desta montagem. O equilíbrio necessário a esta tarefa traz consigo o imponderável das emoções, que por sua vez implica a consciência do risco. Neste Lado C, de uma forma mais incisiva, mas também mais flutuante, Rogério utiliza-as, como meio de comunicação tácito. O acto de abrir a sua casa ao público, torna-a em si o paradigma da sua vida. Acesso directo às emoções. Mas quais, as reais ou as encenadas? Se ambos, vida e teatro, as contêm, como destrinçá-los nesta casa? (fio da navalha) Como que num processo de aglutinação, Lado C exige de Rogério um poder de distanciamento muito mais acutilante derivado à conjuntura — o seu domínio. Separar-se do seu “eu-caseiro” e ser outro(?). Por sua vez, do público é urgente que saiba ser “público profissional” na tal destrinça. Ou quem sabe, todos estes sejam papéis e premissas equivocados. Pois aí talvez resida a mais premente questão: Rogério faz “teatro” ou faz “pensar-teatro”? No estranho papel de “público-profissional/ex-cobaia”, revisito Rogério “ele-mesmo/personagem”. Acompanham-me uma outra “ex-cobaia” e um “público”. Encontro-me num serão de novela, chá e bolo (faltaram-me as pantufas). Aguardo pela superação de Rogério (?!) ao poder alienatório da novela — falamos. Pensamos juntos. Nova incursão pela casa. E então sim, a estranheza do papel veste-me, quando me é possível escutar o outro lado do jogo. Desconcertante será em palavras e gestos o sentimento predominante, face a uma casa falante. Os pensamentos correm a mil. Sou súbita espia de dois lados, no meio de uma cadeia de uso/abuso-sem-autorização de “cobaias”. Apanhada na rede.


[texto de Natacha Paulino sobre No Caminho aqui.]