quinta-feira, outubro 27, 2011

projecto de documentação.

VOU A TUA CASA
PROJECTO DE DOCUMENTAÇÃO



Um concept book de Rogério Nuno Costa

Coordenação editorial de Mónica Guerreiro

Direcção gráfica de Nuno Coelho

Pré-publicação online: http://vouatuacasa.wordpress.com






Cinco anos após o início do processo documental que compilou o arquivo de um projecto performativo, assim como produziu materiais novos (textuais e visuais) sobre e à volta desse mesmo projecto, chega finalmente a oportunidade do espectador/leitor apropriar-se de uma selecção especial dos melhores conteúdos do livro e do vídeo-documentário Vou A Tua Casa. Da selecção agora tornada disponível constam alguns textos integrais, outros em formato teaser, outros em processo/plano de intenções, todos ilustrados com imagens que fazem parte do arquivo Vou A Tua Casa. Colaboram um grupo vasto e heterogéneo de artistas e teóricos portugueses e estrangeiros oriundos das mais diversas áreas: curadoria, história da arte, escrita, artes plásticas, design, ilustração, joalharia, jornalismo, crítica, teatro, música, cinema, antropologia, geografia, arquitectura, filosofia... Mais informações:


Blog: www.vouatuacasa.blogspot.com [etiqueta: projecto de documentação]



©José Luís Neves, excerto de trabalho fotográfico incluído no livro, Lisboa, 2006.



VOU A TUA CASA
Uma trilogia teatral em forma de mapa-percurso: o ponto 'A' é a tua casa, o ponto 'C' é a minha, o ponto 'B' é aquele sítio impossível onde por ti sou apanhado no meio.


Vou A Tua Casa — Projecto de Documentação é um projecto transdisciplinar que compila uma panóplia de materiais documentais oriundos da trilogia Vou A Tua Casa (2003/2006), conjunto de três performances (a primeira na casa dos espectadores, a segunda em espaços públicos à escolha do espectador, a terceira na casa do criador) num catálogo e num vídeo-documentário. Mais do que uma prospecção sobre materiais residuais de uma performance circunscrita a um tempo e um espaço específicos, o projecto alicerça-se numa reflexão sobre a própria prática documental quando aplicada às artes performativas, operando criticamente em conceitos como os da efemeridade, memória, intimidade/privacidade e discurso autobiográfico. À distância de 5 anos, o catálogo revê o trajecto geo-emocional e performativo percorrido por um artista, uma peça e os seus espectadores, visitando Lisboa, Torres Vedras, Londres, Porto, Hamburgo, Covilhã, Berlim, Braga, Caldas da Rainha, Évora, Arnhem e Amares.


Autoria & Concepção
Rogério Nuno Costa

Direcção Gráfica
Nuno Coelho

Coordenação Editorial
Mónica Guerreiro 

Colaboradores
Ana Cardim, Ana Pais, André e. Teodósio, André Guedes, Beatriz Cantinho, Carlos Bunga, Cláudia Jardim, Cláudia Madeira, DJ Next Track, Franz Anton Cramer, Jeremy Xido, João Carneiro, José Luís Neves, Luís Firmo, Luísa Casella, Maria de Assis, Maria Lemos, Natacha Paulino, Nelson Guerreiro, Pierre von Kleist Editions (André Príncipe & José Pedro Cortes), Ramiro Guerreiro, Rui Ribeiro, Teresa Prima, Verónica Metello & um grupo vasto de ex-espectadores.

Financiamento
Presidência do Conselho de Ministros/Direcção-Geral das Artes

Apoios
Transforma AC, Artinsite, Câmara Municipal de Amares, Advancing Performing Arts Project, Prado/espaço ruminante, Teatro Académico Gil Vicente, Andar Filmes, DIF, Censura Prévia AC, Núcleo de Experimentação Coreográfica, Companhia de Danca Contemporânea de Évora, Dance Kiosk, Tanzfabrik, ArtEZ/Hogeschool voor de Kunsten, [msdm], Ninho de Víboras, Forum Dança, Centro em Movimento, Festival Sonda, Festival Alkantara, Lupa Festival, Circular/Festival de Artes Performativas de Vila do Conde, Festival Encontrarte, A Sala, Geraldine, Atelier Re.Al, Nomad Dance Academy, O Espaço do Tempo, Quarta Parede, Teatro Universitário do Minho, Universidade Católica do Porto, Escola Superior de Comunicação Social, Escola Superior de Artes e Design/Caldas da Rainha, Galeria ZDB, Teatro Praga.

sábado, outubro 22, 2011

projecto de documentação.

TEASER #13


CRONOLOGIA
A história verdadeira




[...]

No final de Outubro de 2007, conto um total de 132 espectáculos realizados em 9 cidades de 3 países. Desses, 71 pertencem ao Lado A, 26 ao Lado B e 35 ao Lado C. Número total de espectadores: 449. Destes, 259 são mulheres, 189 são homens, 1 é transsexual; 128 são amigos e conhecidos, 111 são conhecidos de vista ou de nome, 210 são totalmente desconhecidos; 358 são portugueses, 32 alemães, 20 ingleses, 5 brasileiros, 4 franceses, 3 escoceses, 2 suecos, 2 brasileiros, 2 turcos, 2 espanhóis, 2 austríacos, 1 polaco, 1 italiano, 1 holandês, 1 belga, 1 arménio e 1 iraniano; 11 têm nacionalidade indefinida. 235 são artistas; 47 jornalistas ou críticos; 17 crianças; 12 animais. Destes, 8 são gatos, 2 são tartarugas, 1 é hamster e 1 é cão. Dos 210 totalmente desconhecidos, 40 nunca mais os vi, 141 encontrei-os por diversas vezes em contextos sociais e/ou mantive contacto com eles por e-mail/MSN, 29 tornaram-se meus amigos para sempre e é como se ainda estivéssemos “em performance” de cada vez que nos encontramos. Apaixonei-me por 6. 12 apaixonaram-se por mim. Dos 449, lembro-me da cara de todos. Objectivo cumprido.


©Vou A Tua Casa/Lado A (espectáculo), Braga, 2006.



Mais um teaser que sucede a pré-publicação online e parcial de Vou A Tua Casa/Projecto de Documentação [livro e vídeo-documentário] num website que foi disponibilizado no passado dia 21 de Outubro de 2011. A seguir também aqui!

projecto de documentação.

TEASER #12


DIÁLOGO
Cut, copy and paste

Uma conversa escrita entre Nelson Guerreiro e DJ Next Track.


©Nuno Patinho, mashup de Nelson Guerreiro com Virgílio Castelo, para o espectáculo Vaivém/A história verdadeira de um projecto transdisciplinar, Montemor-o-Velho, 2005.



[...]

Nelson Guerreiro — É curioso, isso tem muito a ver com o trabalho do Rogério. Ele também dá muita importância à leitura individual, à escala microscópica das emoções de cada um e, por inerência, à responsabilização do espectador. Neste projecto, ele trabalha sempre para poucas pessoas e a partir da partilha da sua escuta. Para além disso, os seus trabalhos não estão encriptados. São transparentes. Faz da forma conteúdo, mostrando como faz. As suas intervenções são como os programas de culinária na TV em que o chef, ora numa sofisticada cozinha indoor cenográfica, ora numa cozinha realista, ora numa cozinha improvisada em fundo natural numa qualquer parte do mundo, nos encaminha desde a preparação até ao toque final. Produz pequenos gestos que fazem toda a diferença: mostra um cartaz que diz Ne me quitte pas, abre a porta da sua casa, dá a provar um bolo que fez, diz adeus e olha duas ou três vezes para trás, tal como o chef, quando põe a erva decorativa na borda do prato, faz cair uma chuva de vários queijos, ou quando pulveriza o seu cozinhado com essências pouco calóricas! If you know what I mean… Mostrando como se faz, tem tudo à vista, não esquecendo, claro, a partilha dos ingredientes, à excepção do tempo de cozedura, o que no caso do Rogério diz respeito ao funcionamento do seu pensamento e ao modo como ele produz as acções, num tempo condensado. Pois, tal como em televisão o tempo é sempre pouco e tão precioso, também na performance o tempo é ouro, tem de ser eficaz, numa exigência paradoxal e inadvertidamente capitalista.

[...]

DJ Next Track — O que me estás a dizer é que ele não procura controlar totalmente o seu trabalho. Como se procurasse instaurar uma espécie de relativismo, cujo enunciado não se prende com isso, mas com o facto de o seu trabalho se destinar a poucas pessoas e haver esse reconhecimento de que cada leitura é individual, que cada pessoa fará dos espectáculos o que bem entender. Isso também me faz lembrar uma piada sobre um tipo que vai ao psiquiatra e diz: “Senhor doutor, estou muito preocupado porque só penso em sexo!” O psiquiatra mostra-lhe uma foto de uma vaca e pergunta: “O que é que isto lhe faz lembrar?”. “Um homem e uma mulher a fazer amor”, responde o paciente. De seguida, o psiquiatra mostra-lhe uma foto de uma caixa de papelão. “E agora, o que é que isto lhe faz lembrar?”. Resposta: “Um homem e uma mulher a fazer amor”. Depois, mostra-lhe uma foto com uma caixa de uma dúzia de ovos e diz: “Muito bem. E isto, faz-lhe pensar nalguma coisa?”. “Um homem e uma mulher a fazer amor”. “Bem”, diz o doutor, “tenho de lhe dizer que está mesmo obcecado com sexo”. “Eu?”, responde o paciente. “O doutor é que ainda não parou de me mostrar essas fotografias porcas!”. O Edgar Degas também dizia que a arte não é o que se vê, mas o que se dá a ver aos outros.

[...]

Mais um teaser que sucede a pré-publicação online e parcial de Vou A Tua Casa/Projecto de Documentação [livro e vídeo-documentário] num website que foi disponibilizado no passado dia 21 de Outubro de 2011. A seguir também aqui!

projecto de documentação.

TEASER #11


DIALOGUE
UTTER OPENNESS: what happens after is “our” task
A chain letter between Franz Anton Cramer and Mónica Guerreiro.


I asked the German critic Franz Anton Cramer to me by guest star. We first met in a book he was publishing in, which I organised (and co-translated); we afterwards swapped places when he asked me to contribute to a book he organised (and co-translated). So are both editors and translators of each other. But that is just one of many features we have in common: the interest in art, and performance in particular, being another important one. We are also both critics. So I couldn’t think of a better company for this trip around Going To Your Place [Vou A Tua Casa]. Hopefully, he accepted this unorthodox challenge: he had never come into contact with the project. I sent him some information and photographic material about it. He had a poor online access, so he was unable to look up most of that. Still, we kept our discussion. And speaking with Franz was, as always, enlightening.

[Mónica Guerreiro, 2006/2007]






[...]

Dear Mónica,

Your letter arrived just when I was starting to wonder whether our exchange had maybe come to an end — in which case I had already been thinking about how to find a good reason to continue. It came also, as you rightly supposed, after some days of distance: of rest, of no phone calls, of long walks and some deep breath, also in the light of the habitual process of assessing the past year and its highs and lows, and of trying to figure out what the issues will be for the upcoming year. The professional doubts and turmoil will most certainly stay with us, whether we like it or not. Me, too, I have had some unpleasant experiences, probably similar to what you have been alluding to. The peak was reached just recently, in December, when a local artist had printed postcards with a text in which he insulted me and expressed his disgust over my work, the intellectualism in all of dance in general and my despicable role in it in particular. The postcard was distributed to all visitors of a major dance festival here in Berlin. And as usual with this kind of initiative you find out who actually has been waiting for this and is relieved that “somebody” “finally did it”. It is not an encouraging attitude. But it speaks a lot about the contexts in which dance and performance are taking place, the complexities of the discourse produced, and the issues raised by the very fact that performance does happen and is contained in a certain frame. I am not implying that critical action, discord of views, and difference in appreciation should not occur nor that there would be one side good, another deficient. However, I do believe that certain forms and interests may be reclaimed: what you hinted at with “ostracism” and the lack of exchange is probably what we both experience, and what seems to be inevitable. It all depends, in the end, of how powerful you are yourself, and who is backing you, if need be. My experience is that there is very little support once a true conflict breaks open. And more often than not your own power base is quite limited. This seems to be part of the game. But I didn’t want to insist that much on these issues. In fact, I have been trying to read the title of the project we are setting up our exchange on. With my rudimentary notions of the Portuguese language I come to understand Vou A Tua Casa as “I come to your place” or maybe “I go to your place”, in the sense of home, of house. Or maybe even Your House, with majuscule letters? In German this would be “Wohnung”, wohnung being the apartment, but etymologically the place were you live, in German “wohnen”, to dwell, to inhabit. Inhabit refers in some way to habit, so the situation of routine, of where you “are”, where you stay, where you go and come back to, regularly, always, where you don’t have to think or to decide, where you “just are”, until you decide to change place. During the vacation days I have been to Ikea’s in order to buy bookshelves so as to reorganise my papers and intellectual storage-systems. And the German advertisement slogan currently reads “Wohnst du noch oder lebst du schon”, Are you still dwelling or already alive; probably in Portugal you have a similar campaign. Now, Ikea is implying that the routine part of your flat, the things you have had since long, the ways and steps that you perform in it blindly, the automatically felt distances between door and table and from bathroom to living room, the spots on the floor that make funny noises when you step on them, all that which is familiar in your habitation would be something other than that what you live, or what would be your life. Of course this is an advertisement trying to stimulate people’s desire to consume and to continue consumption. The TV spot that goes with it shows “dwelling (heterosexual) couples” throwing their “old”, their “habitual” furniture out of the window in order to reinvest their space with Ikea items. It is about the strive to never be content with what is, it is about the capitalist calling for eating up resources and for creating market structures in realms of life that were sort of exempt from mercantilisation and commoditisation. Adding the different languages and their ambiguities, this campaign of Ikea’s basically states that the fact of living somewhere is not life but needs a commercial input to become “full”. By inhabiting a space and filling it in with all your habitual behaviour, knowledge, and furniture, you remain in a state cut off from life, from the real thing, from the life you can buy, obtain, purchase, receive, take — in short, from a life that would never be yours unless you make an effort and go grab it, preferably in a special offer campaign, as “saldos” (Ikea claims to be “cheap”, so the life you go buy there is supposed to be at a good price). And what would this mean to a performing arts project that goes out there in “your home”, in that place were according to Ikea’s capitalist logic life is not taking place, in order to materialise its essence (or its scope — you rightfully said you weren’t sure to have understood completely the methods, intentions, ends Going To Your Place aspires to achieve) and insist on some kind of condensed moment of life, or action to be taken, or experience to be made: the step from sheer habitual dwelling to replenished conceptual life. In this sense, there might be a subversive and “resist!” aspect to a show that is not really one and that trespasses the commoditisation-borders of common spectacle. It steps out of the spatial organisation usually (habitually) inhabited by performance, the place where the viewer’s locus is excluded (but in this very distinction of course setting up also a specific dialectics that instates the two realms as being one, as being dependent one of the other), in order to unfold an intimately artificial situation there where life would be — I am still paraphrasing Ikea — in a more authentic, or less heightened state of being. (That dance would be a “heightened state of mind” is a commonplace among early 20th century dance authors and dance discourse.) Going To Your Place, then, inscribes itself by its sheer strategy, and just by deducing from what knowledge I have gathered, into the field of the performative as political consciousness. Not in the sense of ideology, but in the sense of set-up: a place, or situation, were certain parameters have been deactivated in order to enhance others, and where there is neither/nor, not yet and not quite, in and out, life and art. Of course the relationship between both is never easy and always ambiguous. Nothing but trying to draw a distinction already presupposes so much. But what you say about Rogério’s own views, his distrust towards certain arts attitudes and the constant thrive for surprise and innovation is striking in the entire presentation, I would hold. For the newness in the idea seems proportional to the smallness of its scope, that is its public visibility, thence its spectacular value. It is innovative in not trying to be innovative; it is inhabiting and alive at the same time, to come back to Ikea; it is constructive and deconstructive without shrieking out loud all of its content. Maybe this shrieking out loud is our task — if we find terms more calm, like “speaking out loud”, for instance. Dear Mónica, as I am writing this I keep thinking about how far (maybe) our respective lives are intertwined with art, art making, art discourse, and the reality of artistic production. Maybe it is a fiction we nurture that we would be somehow “outside” the arts, the fact that it is “them” who do art and “us” who communicate about it. True, in these times there is some kind of a stagnation in this exchange, and my own professional contact to artists and their concerns is reduced; you seem to have similar difficulties, also stemming from your activity in funding bodies, commissions, juries etc., me as a critical mind too little involved in local affairs in order to be accepted there (that is: here, in Berlin, where people distribute nasty postcards and colleagues won’t let me publish any longer). But all of this is just one aspect, the commercial one maybe (we are trying to make a living). Otherwise, our form of work, of inspiration, of resignation, of combat (sometimes it is combat, don’t you think?) and of production seems in a way much more related to the artistic instabilities than to the fixations of career and commerce. I don’t know at all whether this is good or bad; sometimes I feel overwhelmed and hate what I do, sometimes I sense it’s the only thing that really inspires me in life. Not necessarily watching a show (as this is a public act malgré tout), but later on trying to understand what has been going on and what all this is about. Understanding never comes to an end; which is why I believe this dialogue on Going To Your Place never will have a solid result with respect to the original question (do we know what the original question was? Was there one at all? Or was it not rather a wish to communicate?). But this is maybe what will be worthwhile. At least I feel this debate by correspondence has opened a lot of doors in my thinking and perceiving, and it is in this way that Rogério, whom I don’t even know, has visited my house too. This is maybe the fundamental difference between “true” artists and commenting staff as we are: the first step, the coming into being is performed by “them”, what happens after is “our” task. It is not the worst thing that could have happened to us, don’t you think? Wishing you a rewarding New Year, with lots of possibilities to do what you would really like to do. I thank you again for your utter openness.

All my very best, Franz


©Miguel Melo, remodelação e re-decoração da sala onde se realizou a 3.ª parte da trilogia Vou A Tua Casa (Lado C), com base em artigos do IKEA. Festival Alkantara, (Lisboa, 2006).



Mais um teaser que sucede a pré-publicação online e parcial de Vou A Tua Casa/Projecto de Documentação [livro e vídeo-documentário] num website que foi disponibilizado no passado dia 21 de Outubro de 2011. A seguir também aqui!