sábado, outubro 07, 2006

diário-residente.

PRIMEIRA SEMANA,
afinal a "minha" casa não está pronta ainda,


esta semana fico no hotel do costume, deixo as coisas no 301 e vou para o T0, primeiro embate com o espaço da instalação, já lá está a mesa, não gosto das cadeiras, a parede-extra será construída dentro em breve, gosto do cheiro, gosto do amarelo da outra parede, preciso de ficar aqui a respirar isto durante um dia, tenho uma reunião de fim de tarde com o Luís no bar do hotel e depois janto no restaurante do hotel e depois volto para o bar do hotel e encontro-me com o André, que foi meu assistente em 2004, no dia seguinte tento pôr-me em ordem, o cheiro é muito forte e leva-me para outros sítios, fotografo as obras e observo os homens que as fazem, envio uma mensagem à Teresa com a morada da Transforma, vamos retomar a nossa correspondência, tenciono responder à primeira carta dela enviada há cerca de uma semana, tenho muitas coisas para fazer e então decido fazer uma lista de coisas para fazer, retiro do caderno uma página para cada dia desta semana e escrevo em cima a data, há uma folha de papel com a data de hoje, nela escrevo cerca de 15 items, 15 tarefas para fazer hoje, já passa das seis da tarde e tenho 15 items para riscar da lista, quando acabo a planificação semanal já são horas de jantar, adio os 15 items de hoje para depois do jantar, depois do jantar vejo as novelas todas da TVI e já estou muito cansado para atacar o item número 1, passo então os 15 items do dia de hoje para o dia de amanhã, no dia seguinte reúno com o Tiago, falamos de planos-b, adoro planos-b, são sempre melhores que os planos-a, há um grupo de teatro composto por adolescentes que está a ensaiar uma peça chamada "Rotinas", e que vai ser apresentada no espaço da Transforma este fim-de-semana, há uma cena em que eles gritam todos ao mesmo tempo as coisas que fazem todos os dias desde que acordam até que se deitam e depois fazem uma dança ao som de um free jazz piroso, e eu então lembro-me das primeiras peças que fiz quando andava na Faculdade, sobretudo porque fiz uma em que todos dizíamos ao mesmo tempo as coisas que fazemos todos os dias desde que acordamos até que nos deitamos, mas sem free fazz piroso, volto para o piso de baixo, a minha instalação está pendurada no cheiro do espaço e pela impossibilidade de misturar fotografias com pó, por isso vejo-me obrigado a fazer outras coisas, continuo a minha cuidada planificação, com sub-items a espraiarem-se por debaixo de cada item principal, despacho uns mails e começo a pensar na primeira aula de "Seminário" que vou dar aos alunos do 3.º ano de teatro da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, é já na sexta-feira, hoje é quarta, e amanhã queria ir a Lisboa buscar os DVD's, os livros, o rolo de papel de cenário e os candeeiros do IKEA, no final do dia, em frente a um capuccino no bar do hotel que agora já tem wireless, falo com um amigo que me diz que eu sou um bom partido porque sou bonito e trabalhador, falo-lhe dos items acumulados de dia para dia e decido naquele preciso instante que já não vou a Lisboa amanhã, durmo e acordo, não está ninguém no espaço, o ar condicionado incomoda-me mas tem que estar ligado por causa do problema da humidade, preparo a aula de amanhã em 10 minutos e fico muito estúpido a olhar para o restante trabalho acumulado, risco items que não interessam para nada e volto para o quarto para me concentrar na carta-resposta que quero enviar hoje à Teresa, despacho a carta-resposta em 10 minutos, desço até ao bar com wireless e envio a carta por mail, volto para o quarto e durmo, acordo muito mal disposto, apanho o comboio para as Caldas da Rainha e fico bem-disposto porque gosto muito de comboios e porque nunca tinha feito aquele percurso e porque comprei uma embalagem de rebuçados coloridos e porque de repente fiquei cheio de esperança por causa do verde da paisagem, apanho um táxi da estação até à escola, tenho uma hora para me ambientar, a senhora da recepção ajuda-me, dão-me uma lista de alunos, confundem-me com um aluno (vezes mil), pedem "desculpe, sr. professor" e levam-me até aos sítios solicitados, os alunos chegam, a aula começa, a Daniela diz que não gosta nada do meu projecto porque acha que é promíscuo, intervalo, a segunda parte corre melhor, alguém fala em "armazém de ideias" e eu sorrio, tenho duas ideias para a apresentação final (que obrigatoriamente terei que fazer), vou plagiar os Forced Entertainment (é para isso que eles servem) e usar a lista de perguntas que os alunos fizeram na primeira parte, e vou plagiar o Nelson Guerreiro/Patrícia da Silva (eles estavam a pedi-las) para usar a lista de projectos que os alunos vão fazer nas duas próximas sessões, volto para Torres Vedras muito satisfeito, chego ao espaço e despacho uma folha de items numa hora, sinto as lentes de contacto a saltarem-me pelos olhos fora e então vou para o bar do hotel falar com o amigo que se casava comigo, durmo, acordo e é hoje, oiço o barulho de uma fanfarra, espreito pela janela e está instalada na cidade uma feira rural que ocupa praticamente todas as ruas sem trânsito, tomo banho e saio todo contente, há uma rua cheia de flores, há outra cheia de senhoras que vendem alhos, cebolas, tomates e pepinos, depois vejo senhoras a venderem potes de mel, marmelada e doces de chila, e senhoras que vendem artesanato local, e bibes com os nomes dos bebés escritos em cima, e senhoras que vendem arranjos florais, e alfaces, e chego à transforma muito saltitante, percebo que o salão de chá que pertence a familiares da Guta Moura Guedes já abriu, entro e peço uma meia de leite e um pão com manteiga, vou para o espaço, está frio, despacho em 15 minutos um mapa do espaço da instalação, faço uma lista de todos os objectos e das imagens a editar, fico feliz e vou enviar mails, o Luís chega, as senhoras da limpeza também, eu saio a meio da tarde, não posso fazer mais nada por causa do pó que vai piorar nos próximos dias, nos próximos dias eu vou a Lisboa, depois ao Porto, depois a Braga, depois a Lisboa, depois a Torres Vedras, depois às Caldas da Rainha, depois a Torres Vedras e depois a Lisboa e depois a Torres Vedras outra vez, apago as luzes, fecho a porta à chave, lancho no café do hotel e vou até ao terminal de autocarros apanhar o dito até Lisboa, cheguei agora.