quarta-feira, setembro 09, 2009

o espectáculo continua.

AFTER HOURS
Pós-Lado C

25.02.2009
E-mail

Querido Rogério, a tua amabilidade dá-me um enorme contentamento. Mas sobretudo queria dizer o quanto admiro o teu amor pelos outros (...). Fiquei a perceber isso muito bem na última conversa que tivemos. Também fiquei a perceber melhor um bocadinho daquilo que me disseste (...), aquilo do meta-meta-Dogma. Eu acho que no teu trabalho é muito importante essa coisa do "Estás comigo? Estás a seguir-me?", mas na viagem e na simultaneidade de níveis discursivos divergentes eu queria dizer "Tu pensas que me estás a seguir, mas as regras do jogo não são as que eu te disse que eram." Na realidade, isto é também um acto de amor da minha parte, na medida em que eu te estou a alertar para as minhas mentiras... Eu acho que tu percebeste isto muito bem, eu é que ainda não sabia o que era um meta-meta-Dogma... E essa coisa das regras invisíveis é algo que me preocupa muito e com o qual eu sinto uma responsabilidade como artista, valha isso o que valer. Anyway, resolvi trabalhar mais sobre este projecto e apresentar um novo desenvolvimento brevemente. Com um bocadinho de sorte estarás cá (...). Fiquei ainda a perceber o quanto é importante para ti a tua liberdade de dizeres aquilo que pensas, da forma que pensas. Na realidade, não te acho tão subversivo quanto te acho fiel a ti mesmo. És muito centrado, apesar de Gémeos... Por isto ser inspirador e refrescante, só te posso agradecer. (...) És mais do que bem vindo (...) sempre que quiseres, e a nossa cidade, como sabes, está sempre de braços abertos para pessoas honestas com a arte... Acho... Eu sempre pensei que o Porto é uma cidade de excelência, que não se deixa enganar com meia dúzia de truques como às vezes em Lisboa eu penso que acontece. Aqui chove muito e faz mais frio, as pessoas estão mais atentas e sorriem apenas quando há mesmo razão para isso. Tu sabes isso, és um homem do Norte. (...) Tudo de bom! M.


©Carla Valquaresma [at LUPA Festival, Porto, Fevereiro 2009]

segunda-feira, julho 20, 2009

lado c.

VERSÃO 2009
—regresso a casa—


[terceira parte da trilogia Vou A Tua Casa]
[uma performance/conferência/jantar]




LADO C está na TERCEIRA VIA™ porque não nega o passado, mas também não aceita o passado. Agradece que existe e segue. Não é um espectáculo sobre. É um espectáculo. E é, portanto, "sobre" ele que se fala: para que serve, quem o legitima, quem o analisa, quem o cataloga, quem o contextualiza, quem o ignora, quem lhe cospe em cima, quem o faz, quem o vê, quem o compra, quem o programa, quem o documenta, para quem é dirigido, porque é que existe, porque é que existe assim, que outras formas teria ele para poder existir? Ou seja: estratégias de marketing e relações públicas adaptadas ao ambiente doméstico, compra e venda de materiais de escritório, nouvelle cuisine minhota, cura de enxaquecas, pesquisas Google, conspirações ultra-secretas, candidatura a apoios pontuais do Ministério da Cultura, troca de bilhetinhos debaixo da mesa e postais ilustrados. Tudo misturado num espectáculo simultaneamente ergonómico, nutricional, esotérico, medicinal e muito politicamente cultural. Para espectadores desconfortáveis com a sua condição de espectadores. Espectadores que não acreditam, mas que discutem. E para espectadores que gostam de comer.

No evento participam Rogério Nuno Costa [simultaneamente cozinheiro, mestre de cerimónias, orador, pensador, professor, DJ e trolha], dois assistentes [de mesa e de cozinha], oito espectadores [que serão também criadores, alunos, assistentes, amigos íntimos e aprendizes de feiticeiro] e ainda um artista convidado por cada sessão. LADO C é uma promessa de felicidade. Um momento de partilha que se deseja eterno. Um regresso às origens.



24 e 25 de Julho, 20:00
Lugar da Granja Velha [casa particular]
Amares, Braga 

reservas: amarense@gmail.com

sexta-feira, junho 05, 2009

o espírito do tempo.

FACEBOOK
=
WORLD WIDE NAZISM


Já fui banido pela sociedade, pela comunidade artística, pela academia, por vários grupos de "amigos", pela economia, pelas relações internacionais, pela crítica, pelo jornalismo cultural, pelo sistema de saúde, pela banca, pela família, pela filosofia, pela poesia, pelos mais velhos, pelos mais novos, pelos pares, pela minha cadela e por mim próprio. Faltava-me ser banido pelo Facebook. Pois bem, já fui. E estou a adorar! Ao ler os termos de uso (aquela coisa que nunca ninguém lê), cheguei à conclusão que há neo-fascismo ético-estético na net de fazer envergonhar o Dogma 2005! Os meus fãs (que só não me "banem" porque não têm mesmo noção), entretanto já começaram a tratar do assunto. AQUI.


©Artur Félix

sábado, maio 09, 2009

lado b.

MAIO 2004
[ou: ainda encontro páginas por riscar no caderno de notas, com coisas destas:]



"There is nothing more abstract than reality."


  1. Colocar as pessoas no sítio certo, que é como quem diz, pô-las na "linha". Na de trabalho ou noutra qualquer. Chega de "margens".
  2. Não fazer rigorosamente nada, que é como quem diz, fazer rigorosamente tudo. Chega de tensões.
  3. Não conceder papéis, que é como quem diz, revelar papéis existentes e riscá-los da "lista". Pô-los na "linha", "alinhá-los". Chega de poéticas do espaço.
  4. Fechar todos os campos de possibilidades, que é como quem diz, abrir todos os campos de impossibilidades. É-se feliz nos becos sem saída. São quentinhos, protegidos, e são "lugares onde", não são "não-lugares". Não.
  5. Partilhar um lanche. Porque é bonito. Chega de poéticas do espaço.
  6. Dizer que se faz e que se acontece, assim fazendo e acontecendo. Parar. Queremos performatividades linguísticas, não queremos "linguagens" espectaculares. Quem não sabe é como quem não vê. Mas quem vê, nem sempre sabe.
  7. Escrever num cartaz "PODIAS TER SIDO TU A FAZER". E depois dizer: "ENTÃO FAZ!". E depois ver, sabendo.
  8. Fotografar e revelar, que é como quem diz: ver (sabendo...) o negativo. E depois suspender. Chega de clímaxes. O melhor show off é o tântrico.
  9. Destruir todas as máquinas de cena, que é como quem diz: inventar máquinas para sair de cena, ou então inventar máquinas para lá ficar o maior tempo possível. Pode ser drogas, já estamos por tudo...
  10. Correspondermo-nos por carta, evidentemente. E sempre.
  11. Escrever "sempre" ou "para sempre" no final de todas as cartas que escrevermos.
  12. Escrever cartas a pessoas que estão espetadas à frente do nosso nariz, à mão de semear e à mão de escrever, dizendo-lhes constantemente que é mentira. Porque "é mentira".
  13. Não fazer de conta que se sabe, mas também não fazer de conta que não se sabe. Queremos mesmo saber. Por exemplo: "Como te chamas?".
  14. Escrever no caderno de notas: "Isto não é sobre eu ir ter contigo e conhecer-te, isto sou eu a ir ter contigo e a conhecer-te". Mesmo. Ou em inglês: "For real!". Ou seja, "para o Real". 'Bora pró Real? Chega de poéticas. Do espaço ou doutros sítios platónicos quaisquer.

©Luísa Casella [2004]

sábado, maio 02, 2009

press.

PONTO DE FUGA
o texto integral



1. Que projectos para breve?
Depois de um 2008 ocupado essencialmente com o projecto curatorial A Oportunidade do Espectador e a peça Espectáculo de Teatro, estou neste momento em fase de pesquisa e investigação para o projecto que se segue, a criação de um dispositivo virtual e interrelacional de educação trans-artística ao qual chamarei Universidade. Conto que o ano zero arranque lá para o fim de 2010. Até lá, tenho dois catálogos de projectos anteriores para editar, algumas reposições do Vou A Tua Casa (dentro e fora de portas) e ainda um filme sobre Amares, a minha terra natal.

2. O que interessa divulgar neste momento do seu trabalho?
A peça infantil que vou co-criar e interpretar a meias com a Sónia Baptista e o Miguel Bonneville, com base nas "Histórias em verso para meninos perversos", de Roald Dahl. Estreia no Teatro do Campo Alegre, no Porto, em Outubro.

3. Qual a banda sonora dos seus dias? Ou seja, que discos e temas anda a ouvir em casa, no carro, na rádio, no leitor mp3? E para que momentos?
Em loops infinitos, o novo dos Pet Shop Boys ("Yes"), que oiço em todo o lado enquanto sonho com férias de verão na Riviera Francesa. Em loops mais contidos, os novos da Peaches (na rua) e dos Grizzly Bear (na cama). Em loops normais, as 42 músicas do Festival Eurovisão da Canção 2009. E depois oiço sempre, e em todo o lado, dois dos meus mais insistentes guilty pleasures: Scooter e Jean-Michel Jarre (discografias completas, remisturas, b-sides, colaborações e raridades); uma aliança franco-germânica que é não só a banda sonora dos meus dias, mas também a cara chapada da minha persona criativa.

4. Qual o último filme a arrebatar-lhe os sentidos e porquê?
Não vou muito ao cinema. O último filme que me arrebatou os sentidos (entre outras coisas arrebatáveis) vi-o em casa e foi o "The 5 Obstructions", do Lars von Trier vs. Jørgen Leth. É de 2003, mas só o vi em 2007; desde então, a obsessão já me fez revê-lo umas boas 20 vezes.

5. A que político aconselharia? E porquê?
Honestamente, a nenhum. Os políticos (portugueses) já são exímios em desenvencilhar-se criativamente de obstáculos duros de roer. Mas aconselharia vivamente o filme a todos os soit disant "programadores culturais" (portugueses), que são mais "políticos" que os políticos todos juntos.

6. Que espectáculos de palco pensa ver? Porquê?
Sou daquelas pessoas velhas e execráveis que praticamente já só vê os espectáculos dos amigos e não tem paciência para os restantes. Estou em pulgas para me sentar na primeira fila do renovado S. Luiz para ver "Demo", o musical do Teatro Praga. Acho que é em Julho.

7. E quanto a literatura? Está a ler algum livro de momento? Se sim, qual e porquê? O que está a achar?
Deixei de ler poesia em 2002. Deixei de ler romances em 2005. E deixei de ler ensaios (sobretudo filosóficos) em 2008. Já só leio livros de cozinha, e leio-os como quem lê poesia, romance e ensaio. Basta-me. Recomendo o magnânime "A Day at elBulli", sobre e à volta do chef catalão Ferran Adrià, uma edição de luxo da Phaidon.

8. Qual o último livro que abandonou a meio? Porquê?
Que me lembre, nenhum. Sou um emo-conceptual insistente e de pendor assumidamente masoquista: vou até ao fim, mesmo quando não estou a gostar. Gostaria de ter a coragem de um dia poder abandonar a meio qualquer coisa que me estivesse a agradar imenso.

9. Qual a sua arte da fuga predilecta? (ou seja, quanto está de folga ou férias, disponível para ócio, o que prefere fazer na cidade?)
Prefiro a casa à cidade. Nesse sentido, a minha arte e a minha fuga encontram-se plasmadas aqui: www.vouatuamesa.blogspot.com. Sonho com o dia em que a cozinha será o meu ponto de fuga estruturante, e já não um mero amor das horas vagas.


[in "Actual", jornal EXPRESSO, por Bernardo Mendonça]


©Espectáculo do Teatro, 2008