quinta-feira, janeiro 22, 2009

lado b.

ENCONTRO NO CAMINHO
Ou quando comer é a melhor vingança



[Artista e espectadora sentados ao balcão. Faixa 1 no mini-disc.]

SANDRA — Já está a filmar?
ROGÉRIO — Sim.
SANDRA — Boa tarde. Eu gostava de filmar aqui dentro. A quem devo pedir autorização?
VOZ OFF — Estamos fechados, desculpe.
SANDRA — Para obras?
VOZ OFF — Não. Agora paramos 6 meses por ano para pesquisa gastronómica. Estamos a iniciar um laboratório de culinária molecular. Com 8 camas. Água quente. Estúdio de gravação. Projector de vídeo. Alcatifas. E duas moças de recados a quem podem pedir tudo menos envio de correspondência registada.
ROGÉRIO — Corta.

[Artista e espectadora sentados ao balcão. Faixa 2 no mini-disc.]

SANDRA — Já está a gravar?
ROGÉRIO — Sim.
VOZ OFF — Não pode gravar aqui, desculpe...
ROGÉRIO — É a brincar!
VOZ OFF — A brincar??
ROGÉRIO — Sim.
SANDRA — Já está a gravar a brincar?
ROGÉRIO — Sim, a brincar.
SANDRA — ...
VOZ OFF — ...
ROGÉRIO — Corta.

[Artista e espectadora sentados ao balcão. Faixa 3 no mini-disc.]

SANDRA — Porque escreves?
ROGÉRIO — Corta.

[Artista e espectadora sentados ao balcão. Faixa 4 no mini-disc.]

VOZ OFF — (ruído de restaurante) ...e eles não sabem que podem continuar assim e encontrar a metodologia apenas no fim; para um, a cozinha de fusão é ainda uma fugaz vista d'olhos nas revistas da especialidade, para a outra... (ruído de restaurante) ...pois é assim que se brinca aos teatrinhos nesta cidade: nada se faz e faz-se tudo ao contrário. Essa coisa do Dogma 2005 é tão... 2005! Ainda não existe, mas já existe em modo de apuramento molecular. Vai ser... (ruído de restaurante) ...e por isso é que esta performance não é sobre os encontros entre as pessoas. Esta performance é mesmo um encontro entre as pessoas... (ruído de restaurante)

[Artista e espectadora levantam-se do balcão e vão embora, rindo e sorrindo. Faixa 5 no mini-disc.]

Restaurante Galeto, Lisboa
Setembro 2004



sábado, dezembro 27, 2008

lado b.

ENCONTRO NO CAMINHO
Adamastor, Setembro 2004


ELA—Devias ter sido tu a chegar primeiro.
EU—Para quê?
ELA—Para ensaiares. Para te preparares. Para conheceres o espaço e preparares algo para mim. uma surpresa, por exemplo.
EU—Isso dá muito trabalho...
ELA—Não é para isso que te pagam?
EU—Surprise shows? É para isso que não me pagam...
ELA—Ainda assim, se o fizesses, estarias a valorizar o que fazes. Tempo é dinheiro. Trabalho também.
EU—Dinheiro é perda de tempo. Perda de dinheiro é tempo a mais.
ELA—Não há estrutura?
EU—Isso são cavernas que não desvendo...
ELA—Tens medo dos tectos negros do fim do mundo?
EU—Tenho medo de ti.
ELA—Eu sou imunda e grossa?
EU—Tu és o vazio. E eu não curto o vazio, 'tás a ver? Não curto...
ELA—'Tá-se bem...
EU—Não 'tá-se, não... Porque é que estás aqui?
ELA—Isso não te diz respeito. Quando compro um pacote de leite, não preciso de dizer à senhora do supermercado o que vou fazer com o leite. Desde que o pague...
EU—Quero o mar que é teu. Quero.
ELA—Então não faças esta peça. Faz outra. Há tantas peças para fazer. Há tantas peças por fazer.
EU—Eu não "quero fazer" esta peça. Eu "faço" esta peça. É diferente.
ELA—Tu e as ontotecnologias desse teu corpo cyber-pensante...
EU—Como é que gostavas que fosse?
ELA—Olha, agora gostava de poder levantar o cu da cadeira que estou aqui que não posso...
EU—Tu e as ergonomias desse teu corpo que pensa mais que a cabecinha e não devia... Não te vou dizer para abanares as mamas, porque já usei a piadinha num texto anterior.

[ELA põe as mamas de fora e abana-as freneticamente.]

ELA—...esta vontade que me agarra ao leme.
EU—Começas a tomar-lhe o gosto...
ELA—Qual?
EU—És tu quem conduz.
ELA—Agora.
EU—Não. Desde o início.
ELA—Puseste-me o leme nas mãos! Não tive outro remédio... De outra forma, isto afundava...
EU—E porque é que não pode afundar? Porque é que a poesia tem que ser em linha recta?
ELA — E ascendente...
EU—E ascendente!
ELA—E flutuante...
EU—E flutuante!
ELA—E vitoriosa...
EU—E vitoriosa!
ELA—Este som que me puseste a correr nos ouvidos protege-me do exterior. Foi como se me tivesses construído um teatrinho à volta da cabeça, uma coisa ontotecnologicamente arquitectónica, remota, ancestral e megalo-dramática...
EU—E umas guelras artificiais, não?
ELA—Sou alérgica ao plástico. Gosto de carne.
EU—E de pedra?
ELA—De pedra gosto. Por exemplo: podias ter espalhado pelas calçadas de Lisboa que percorro desde que saio de casa até que chego a este miradouro e te encontro aqueles papelinhos amarelos que tu tanto gostas e que colas e onde escreves aquelas mensagens de amor que tu tanto gostas e que colas e que dás de presente. Um pedi-paper geo-emocional. Em Lisboa.
EU—Não quero. Não quero. Não quero! Lamento, mas isto não existe para te "encantar". Nem de paixão, nem de medo. Isto não é o castelo da princesa, mas também não é a passagem do terror. Isto é outra coisa. Terceira via. Empate técnico. Blá blá blá...
ELA—Só falta dizer que assim sendo vais improvisar todos os dias um espectáculo diferente...
EU—Não. "Improvisação de um espectáculo diferente" são as duas coisas anteriores. Isto é outra coisa. Terceira via. Empate técnico. Blá blá blá...
ELA—Isto, isso, merecia um prémio!
EU—Também não. Isto é impremiável. E impermeável também. Essa coisa arquitectónica que eu erigi nos teus ouvidos não é um teatrinho, minha querida. É mesmo um guarda-chuva.
ELA—Mas tu és um rapaz tão sensível, tão aberto à envolvente... Não devias dizer essas coisas.
EU—Digo e faço. Não se pode só dizer, não se pode só fazer. Não se pode só dizer que se faz e fazer-se a seguir. Há que dizer, fazer, explicar porque se disse e se fez e a seguir desdizer tudo e nunca mais fazer. Parar. Queremos outra coisa! Terceira via. Empate técnico. Blá blá blá.
ELA—Devias ser mais portátil.
EU—Isso é plástico. E tu não gostas disso. Disseste-o há umas linhas atrás.
ELA—És um monstro.
EU—Mostrengo, se faz favor...
ELA—És um mostrengo!
EU—...que habito no fundo do mar.
ELA—Que habitas no fundo do mar!
EU—...e quero o mar que é teu.
ELA—E queres o mar que é meu!
EU—...ontológico sim, antológico não.
ELA—Isso não digo!
EU—Oh... diz lá... Estava a ser tão divertido...
ELA—Vou-me embora.
EU—Começou o espectáculo.

domingo, dezembro 14, 2008

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MSN — A HISTÓRIA COMPLETA
em 97 segundos


1 — O que é a "responsabilidade máxima do espectador"?
2 — Uma coisa de 2005. Queres mesmo saber?
1 — Quero.
2 — Não é um sinal de cena. É um sinal dos tempos em que não se dizia texto.
1 — Agora diz-se?
2 — Não.
1 — Então qual é a diferença?
2 — Nenhuma. Simplesmente continuam a existir muitos actores interessantes, que fazem muitas coisas interessantes, em muitas peças interessantes, montadas em muitos sítios interessantes, e que versam muitos temas interessantes. E eu achava que 3 anos era tempo suficiente para acabar com isso tudo. Enganei-me...
1 — Então qual é a diferença?
2 — Em 2005 havia esperança.
1 — Continua a ser importante?
2 — Continuo farto. Estou farto desde 2005, desde 2003, desde 2001, desde 1999, desde 1996, desde 1994, desde 1990, desde 1984, desde 1978.
1 — Estás farto de mim?
2 — Tu fazes o trabalho de casa. És pontual. Estudas a lição do dia. Participas na aula. És uma aluna crítica, opinativa, dinâmica, bem educada, informada, culta, criativa. És uma boa aluna. Tu vês. Não "vês". E "fazes" espectáculo. Tu não "dás" espectáculo.
1 — Mas eu só quero é divertir-me!
2 — Então pede à Câmara Municipal de Lisboa que reabra a Feira Popular.
1 — Dá trabalho. E nem sempre me apetece fazê-lo. Muito menos em casa. O teatro é o sítio onde se vai, não é o sítio onde se fica.
2 — Temos pena. Temos muita pena. Muita muita pena. Temos muita pena mesmo!
1 — Eu não quero ser "responsável".
2 — Então tu não queres nada. Não queres ver. Não queres fazer. Não queres ir. Não queres estar. Não queres! Não queres, reabre a Feira Popular. Fica em casa a jogar Trivial Pursuit. Abana as mamas.
1 — Demito-me.
2 — Pois demites.
1 — É por deixares que isto aconteça que tu falhas. É por isso que tu estás velho. É por isso que tu não prestas para nada. É por isso que tu te suicidas em público.
2 — É por isso, é.
1 — Está tudo mal. Isso está tudo mal. Tu fazes tudo mal. Está tudo mal. Está tudo mal. Mal. Mal. Mal.
2 — Pois está.
1 — Então corrige.
2 — Não.
1 — Então desiste.
2 — Pois desisto. Nem on, nem off. Out! Gratidão. Terceira Via. Empate técnico.
1 — Porque fazes?
2 — Fizeste...
1 — Porque fizeste?
2 — Nostalgia. Folhas de papel escritas. Declarações de amor. Jogos sem fronteiras. Festivais da canção. Playbacks. Gincanas minhotas. Papas de sarrabulho. Material de escritório. Poemas conceptuais. Comunicação social. Fita-cola. Paredes. Objectos enferrujados. Pessoas de estimação. Casas. Portas. Transportes públicos. Comboios intercidades. Livros de cozinha. Muito amor. Cartas de tarot. Astro-psico-socio-filosofia. Meta-óptica. Semiótica. Se-me-amas...
1 — Porque nos chamas?
2 — Para vos conhecer melhor.
1 — Porquê?
2 — Para me lembrar da vossa cara em 2010, 2012, 2018, 2023, 2035...
1 — E se nós não quisermos?
2 — Ninguém quer, ninguém quis, desisto.
1 — E vais fazer o quê? O que vais fazer a seguir? Qual é o teu próximo espectáculo?
2 — Quero fazer um espectáculo cujo cenário é um tabuleiro de Trivial Pursuit, com luzes tecnotrónicas e muito electro-indie-pop-rock da modixa, várias cenas a acontecer ao mesmo tempo, caos, party people, actrizes a abanar as mamas e actores a abanar os caralhos, a história do teatro a passar em rodapé e a minha história a passar em rodacabeça, muitos confettis, máquinas de cena, coisas que sobem e descem, participações especiais, disc jockeys, artistas plásticos, antropólogos, cineastas, vozes off distorcidas, bombeiros voluntários, escuteiros, tunas académicas, ranchos folclóricos, inter-media, inter-actions, inter-galactic planetary planetary inter-galactic, beijos na boca, neve artificial, um prólogo, vários meios e um epílogo. Vai-se chamar "Bem-vindos ao mundo encantado dos brinquedos onde há reis, princesas, dragões, heróis de banda desenhada, muitos saltos e muitos trambolhões, o mundo dos brinquedos é no (nome do teatro onde o espectáculo será apresentado), onde tudo tem mais fantasia, brinquedos, brinquedos, eles são a nossa maior alegria!" e o cartaz são só os logotipos de todos os apoios, patrocínios, parcerias, co-produções, mecenas, residências e festivais, com o título, companhia e actores num rodapé pequenino, no fundo.
1 — Vais fazer audições?
2 — Claro. Quero um grupo coeso, mas heterogéneo, de intérpretes que dominem a arte de bem se digladiarem nos ensaios para conseguir boas cenas no fim.
1 — Eu não vou ao teu casting. Para competir, prefiro ficar em casa a jogar Trivial Pursuit.
2 — Pois. Acabou-se a Oportunidade do Espectador.
1 — Eu pensava que tu não querias pessoas que cantem, que dancem, que esperneiem, que estrebuchem, que façam rir, que sejam giras e bem-dispostas, com um forte sentido de improvisação, intuitivas e carismáticas, físicas, loucas, pessoas loucas, pessoas giras e loucas... Eu pensava que tu querias pessoas que... Eu gostava tanto de ser uma...
2 — Cala-te! Só dizes disparates. Odeio-te.
1 — Eu também te odeio. Não és um artista, és um arpista, um artolas, um artimanhoso, um artpobre, um cromo!
2 — E tu não és uma espectadora. És uma espectaburra, uma espectaculosa, uma expecturada, uma croma!
1 — É tudo mentira. Tu nunca te foste embora. Tu nunca vais embora. Tu só enuncias. Tu não fazes. E nós só queremos que nos façam. E por isso nos rimos agora. Porque é sempre o espectador que ri por último. E quem ri por último, ri melhor.
2 — O melhor não é necessariamente bom. O que fazes não interessa pra nada; interessa como fazes o que fazes. Energy: yes! Quality: no!
1 — 2005!
2 — 2005.

[...]



sábado, dezembro 13, 2008

lado a.

EXTENDED VERSION

Já estou preparado. Não espero. Vou eu. Nunca me tinha apercebido. Apercebi-me agora. É urgente. Precisaram de mim mas não se mexeram. Ninguém me foi buscar. Ninguém impediu que eu fosse. Não gritaram o meu nome para que voltasse. Deixaram que acontecesse. Telefonaram-me depois. Marcaram-me uma hora. Confirmaram-me o nome de uma rua. O número de uma porta. O andar. Eu fui a tua casa. Fui sozinho. Levei na mala apenas a vontade preguiçosa de ter voltado. Isto é tudo muito literal. Eu tinha o condão de assustar uns quantos. Como deixaram que eu fosse deixei de o ter. Não é isso. Isto é tudo muito literal. É tudo uma questão de realidade. Eu vou a tua casa e tu deixas. Deixas-me pintar-te a parede. Eu a seguir fujo e tu nem dás por isso. Eu vou. Fui. E já não estou. Não doeu. Não tossiu. Não mugiu. Pronto. O resto não é para aqui chamado. Eu não trabalho assim. É tudo mentira. Mentira. Ando à procura da mentira perdida. A principal. A primordial. A mais mentirosa de todas. Deixa-me entrar. Eu não faço barulho. Não causo impressão. Tenho boa imagem. Dou-me bem com. Sou feliz. Sou alguém muito feliz. Deixa. Deixa lá. Não te preocupes porque é mentira. É a brincar. Já não me lembro do que é ir a tua casa. Lá fora está tudo em desordem. Cá dentro há mais ar. Respira-se mais. Há mais cidade cá dentro do que lá fora. E por isso é que é mentira. É tudo mentira. Tem que ser mentira. Aliás, tem que ser. Se não for, não é. Não é nada. Deixas-me entrar? É completamente indolor. Sem efeitos secundários nem sintomas bizarros em caso de sobre-dosagem. Eu não sou de agora nem pertenço a tempos que já lá vão ou a outros que estão por vir. Acabo de chegar de um qualquer sítio esfumado no próprio tempo. Entro em tua casa como se regressasse à minha terra natal depois de um quarto de século perdido em viagens. Está tudo tão diferente e simultaneamente parece que nada mudou. As casas são todas iguais. E isto é tudo mentira. Agora que entrei não vais dizer nada. Eu sou boa pessoa. Não faço mal nem a ti nem às moscas. Tenho bom ar. Boa luz. Vou deixar-te coisas como que perdidas debaixo dos tapetes. Para quando as encontrares. É delicioso saber que vou ficar aqui para sempre. Implacavelmente para sempre. É delicioso saber que me vais encontrar debaixo dos tapetes. Nos parapeitos das janelas. No pó dos móveis. Nas manchas de humidade do tecto. Nas ranhuras do soalho. E dentro dos vasos. Nas escadas. Na fachada do prédio. Nos buracos das fechaduras. E nas campainhas que oiço quando alucino, e me lembro, de ter mexido nas tuas coisas, de ter respirado o cheiro do teu quarto, de te ter visitado.

[2003]



quinta-feira, dezembro 11, 2008

lado a.

não esperei | vim | nunca me tinha apercebido | apercebi-me entretanto | foi urgente | sozinho | vim sozinho | trouxe na mala apenas a vontade preguiçosa de ter voltado | foi tudo muito literal | muito literal | foi tudo | foi muito | uma questão de realidade | não achas | não achaste | tu deixaste | eu pintei-te a parede, a seguir fugi | deste por isso | deste conta | já não estou | doeu | tossiu | mugiu | pronto | foi tudo mentira | mentira | mentira, mentira, mentira, mentira | parece-me que já encontrei | a mentira perdida | a principal | a primordial | a mais mentirosa de todas | eras tu que a tinhas | não te preocupes porque foi mentira | foi a brincar | já não me lembro do que é ir a tua casa | lá fora continua tudo em desordem | cá dentro continua a haver mais ar | respira-se mais | por isso é que é mentira | é tudo mentira | tem que ser mentira | aliás, tem que ser mentira | se não for não é | não é nada | mentira | deixaste-me entrar | eu fui boa pessoa | deixei-te coisas como que perdidas, debaixo dos tapetes | para quando as encontrares | é delicioso saber que vou ficar aqui para sempre | implacavelmente para sempre | é delicioso saber que me vais encontrar debaixo dos tapetes | nos parapeitos das janelas | no pó dos móveis | nas manchas de humidade do tecto | nas ranhuras do soalho | e dentro dos vasos | nas escadas | na fachada do prédio | nos buracos das fechaduras | e nas campainhas que oiço quando alucino | e me lembro | de ter mexido nas tuas coisas | de ter respirado o cheiro do teu quarto | de te ter visitado...