não esperei | vim | nunca me tinha apercebido | apercebi-me entretanto | foi urgente | sozinho | vim sozinho | trouxe na mala apenas a vontade preguiçosa de ter voltado | foi tudo muito literal | muito literal | foi tudo | foi muito | uma questão de realidade | não achas | não achaste | tu deixaste | eu pintei-te a parede, a seguir fugi | deste por isso | deste conta | já não estou | doeu | tossiu | mugiu | pronto | foi tudo mentira | mentira | mentira, mentira, mentira, mentira | parece-me que já encontrei | a mentira perdida | a principal | a primordial | a mais mentirosa de todas | eras tu que a tinhas | não te preocupes porque foi mentira | foi a brincar | já não me lembro do que é ir a tua casa | lá fora continua tudo em desordem | cá dentro continua a haver mais ar | respira-se mais | por isso é que é mentira | é tudo mentira | tem que ser mentira | aliás, tem que ser mentira | se não for não é | não é nada | mentira | deixaste-me entrar | eu fui boa pessoa | deixei-te coisas como que perdidas, debaixo dos tapetes | para quando as encontrares | é delicioso saber que vou ficar aqui para sempre | implacavelmente para sempre | é delicioso saber que me vais encontrar debaixo dos tapetes | nos parapeitos das janelas | no pó dos móveis | nas manchas de humidade do tecto | nas ranhuras do soalho | e dentro dos vasos | nas escadas | na fachada do prédio | nos buracos das fechaduras | e nas campainhas que oiço quando alucino | e me lembro | de ter mexido nas tuas coisas | de ter respirado o cheiro do teu quarto | de te ter visitado...
quinta-feira, dezembro 11, 2008
lado a.
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Rogério Nuno Costa
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quinta-feira, dezembro 11, 2008
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quinta-feira, outubro 30, 2008
lado c.
REMEMBERING 2005
[before Dogma]
A seguinte declaração foi entregue a todos os espectadores que comigo construíram a primeira versão do Lado C, tornada disponível em Maio de 2005 e abortada em Outubro do mesmo ano devido a contingências financeiras. Quando regressou, em 2006 [after Dogma], já vinha com outra cara. O antes, foi mais ou menos assim:
DECLARAÇÃO
Para os devidos efeitos, declara-se que (nome), portador do bilhete de identidade número (número), emitido em (cidade) a (data), colaborou artisticamente, na condição de (riscar o que não interessa: ESPECTADOR, ESPECTADOR-CRIADOR), no projecto Vou A Tua Casa — Lado C, da autoria de Rogério Nuno Costa. A performance aconteceu no passado dia (data), em casa do autor, sita na Rua Amadeo de Souza Cardoso, n.º 24, 1.º andar, em Lisboa, entre as (hora) e as (hora). Para efeitos curriculares, declara-se portanto ser verdade que o (riscar o que não interessa: ESPECTADOR, ESPECTADOR-CRIADOR) em questão trabalhou com o criador português Rogério Nuno Costa, portador do bilhete de identidade número 11362056, emitido em Lisboa a 10 de Novembro de 2000, e inscrito na repartição de finanças de Amares (Braga) como Artista de Teatro.
Lisboa, (data) de 2005
(assinatura)
[Rogério Nuno Costa]
©José Luís Neves
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Rogério Nuno Costa
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quinta-feira, outubro 30, 2008
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sexta-feira, agosto 08, 2008
segunda-feira, julho 28, 2008
o espectáculo continua.
MSN
ELE— ...não me venham dizer que a alienação não existe. EU— A alienação não existe! Simplesmente porque o seu contrário também não. Só existe alienação. Por isso, mais vale nem falarmos dela... ELE— Acho que se percebêssemos realmente de música, acabava-se a pop. EU— A pop não pode acabar. É o melhor Xanax. E é como a alienação. Só existe pop. O resto não existe. ELE— Eu, como sou do cinema, tenho uma distância muito crítica em relação a isso tudo. Porque sou meio arte, meio indústria. Porque não sou nem uma coisa nem outra. E sofro porque nem sou artista nem sou funcionário. EU— És tu e os designers. Se bem que os designers são pessoas muito felizes. Não sofrem. ELE— O design é o fim da arte... EU— Isso excita-me. ELE— É um bocado como o Fausto a tentar comprar a alma de volta. Com o dinheiro da venda da mesma, claro... O que eu sei é que o branding come tudo. Aliás, o Régis Debray explica isso bem, ou não? EU— Estou a ler... ELE— Eu esqueço-me de 98% das coisas que leio. EU— ...e estou a gostar muito. O homem começa a contar a história da imagem pela sua morte. É como se a arte, ao nascer, já tivesse assinada a sua certidão de óbito. Mais uma coisa que me excita sobremaneira... ELE— Mas ele associa isso ao sistema social/político/económico, não? Ou seja, quem é que precisa da arte? EU— Ainda estou na parte dos sarcófagos... ELE— Fiquei espantado com o Debray. Da guerrilha para a academia... EU— Acontece aos melhores. ELE— Já que aos piores não acontece nada... EU— "Be open to whatever comes next", John Cage. ELE— Não podemos ser tão sérios. E não nos podemos levar a sério. EU— O sério tira-me do sério. ELE— Também a mim! Apesar dos meus humores fúnebres. Mas isso é pessoal, não é público. Em público, é sempre a partir pedra... EU— Seja. Agora vou sair; já partimos mais...
[Julho 2007]
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Rogério Nuno Costa
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sexta-feira, julho 25, 2008
"lo-fi" - sophy.
APOCALYPSE NOW
Google Talk
00:41
ELE: Já decoraste A Voz Humana? EU: Já decorei, sim senhor. Tal como manda a tradição... Decoro o texto primeiro e faço depois. Este espectáculo tem que ser tudo como manda a tradição. Quero fazer um readymade da tradição. ELE: Eu sei, eu sei. Muito rogeriano, de resto... EU: Isso é que eu ainda não sei. A ver... ELE: Não paras! EU: Páro. Para mim acabou. Estou farto. Findo este ano, vou dedicar-me à minha carreira de cozinheiro. Vou "deixar tudo" para ser cozinheiro. Não é bonito? ELE: 'tás sempre a dizer que acabou, mas nunca mais acaba!!! [...] Quando se é artista, é sempre a acumular funções... EU: ...onde é que isso está escrito, que eu sou "artista"? Um "artista" que trabalha no McDonald's para ganhar dinheiro é "artista" quando está a trabalhar no McDonald's? Os hamburgers que vende são "arte"? "Artista" não é uma profissão... ELE: Depende. EU: "Artista" não é coisa que se seja. Não se é artista. Ninguém "é" artista. O artista não existe. Já o cozinheiro "existe". Cozinheiro é-se. ELE: Hummm... Tanto como artista, parece-me... EU: ...ando sempre a dizer que as coisas que faço são o que são, e que aquilo que são é o nome que têm... ELE: Pois, eu sei... EU: Pronto, a Universidade vai ser isso mesmo: uma universidade. Sem metáforas. ELE: A arte não tem que ser metafórica!!! EU: É sempre vista como tal. Eu tenho muita pena. Para mim, acabou-se a dialéctica do real/ficcional. Quero continuar a fazer coisas sem ter que estar dentro dessa dialéctica, e ao mesmo tempo sem ter que fazer de conta que ela não existe. Nem que para tal tenha que sair da construção artística. Vai ter que ser. Fazer o caminho inverso ao do Godard, que diz ter deixado de fazer cinema para passar a fazer arte. ELE: Hummm... Pois, já tinha percebido. EU: Não quero mais "fazer de conta" que sou curador, mesmo que o seja, de facto. É divertido, mas não passa disso... Quero ser mesmo. Mesmo que esse mesmo seja, ainda assim, "a brincar" (uma das minhas expressões preferidas...) ELE: Eu gostava mais quando eras artista, de facto, e sem metáforas nem ficções. EU: ...ou faço mesmo dentro da construção artística (como vai acontecer no Espectáculo de Teatro), ou faço mesmo fora dela, como vai acontecer na Universidade. (resumi grosseiramente, mas acho que bem...) Farto de ter um pé dentro, outro fora. ELE: ...ou pelo menos sem mais ficção do que aquela que a vida já tem, n'est-ce pas? EU: Isso foram os últimos 6 anos da minha vida, não quero mais... Que venham outros e façam por mim. EU: Compreendo, mas sou melancólico, o que é que queres? EU: Eu acho isso bem e até acho bonito, mas, honestamente, estou-me a cagar para o que já fiz. Não sinto qualquer nostalgia mais ou menos melancólica. Sinto que tenho que desrespeitar o meu trabalho na mesma medida em que desrespeito os dos outros antes de mim. Jamais me poderei levar a sério. Morro só de pensar nisso. ELE: Melancolia não tem a ver com isso... EU: A tua melancolia é a do espectador. É a mesma melancolia que eu sinto quando penso nas coisas que a Sigalho fazia em 1999, que eram maravilhosas e me influenciaram imenso. Mas é passado. ELE: ...mas agora não fiques igual a ela só porque fizeste 30, please! EU: Não. Porque eu recuso-me a fazer Vou A Tua Casa's para o resto dos meus dias. Ainda que, na verdade, seja isso que toda a gente espera de mim. Eu só quero ser cozinheiro. E dos bons! Abro um restaurante maravilhoso e as pessoas vão lá como se fossem ver um espectáculo melancólico do Rogério. Cada um vê o que quer. Isso já não é da minha responsabilidade. Acabou-se a Oportunidade do Espectador. Quero uma "oportunidade do criador". Preciso. ELE: ...uma melancolia niilista pós-espectacular rogeriana... Não gosto muito. Gosto mais do artista que faz comida verdadeira que se come mesmo e ainda assim é ficcional...
01:10
ELE: Eu gosto de poesia. EU: Eu abomino poesia. ELE: Pois, eu sei... EU: Eu já só leio livros de cozinha. São os melhores livros de filosofia do mundo. Estética pura. Estética no seu estado mais elevado. Físico-químico. Humano. ELE: Isso já não concordo. A metáfora culinária é uma metáfora para o artesanato e não para a arte. EU: Primeiras: ninguém falou em arte aqui. Segundas: eu disse "livros de cozinha", não disse "culinária". Estou a falar-te de estética, não te estou a falar de antropossociologia alimentar! ELE: Não... EU: ...e depois a Oprah é outra lição sublime de estética. A Oprah é a representante máxima do triunfo filosófico da estética. Mais importante que qualquer rizomada publicada em livro. Mais importante que a própria filosofia. Mais importante que a Madonna. Primeiro: porque é preta. Segundo: porque é americana. Três: porque jamais irá cometer suicídio. Ela é o futuro da filosofia na sua máxima expressão. Sem ela, não existiria Zizek. ELE: ...temos dúvidas. EU: Hahahaah. Acho maravilhoso que me continues a levar a sério. Isso é bonito. Acredito mesmo que a cultura popular é a mais sublime das culturas. Na verdade, só existe cultura popular. As outras não existem. A cultura popular é a única cultura físico-química. É a única cultura verdadeiramente "humana". ELE: ...tu afinal és o Stanislavski. Eu sempre disse isso! Vou guardar o catálogo do Vou A Tua Casa e ler o texto do Lado C todos os dias... EU: Porquê? ELE: Protesto melancólico...
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Rogério Nuno Costa
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sexta-feira, julho 25, 2008
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