segunda-feira, julho 28, 2008

o espectáculo continua.

MSN


ELE— ...não me venham dizer que a alienação não existe. EU— A alienação não existe! Simplesmente porque o seu contrário também não. Só existe alienação. Por isso, mais vale nem falarmos dela... ELE— Acho que se percebêssemos realmente de música, acabava-se a pop. EU— A pop não pode acabar. É o melhor Xanax. E é como a alienação. Só existe pop. O resto não existe. ELE— Eu, como sou do cinema, tenho uma distância muito crítica em relação a isso tudo. Porque sou meio arte, meio indústria. Porque não sou nem uma coisa nem outra. E sofro porque nem sou artista nem sou funcionário. EU— És tu e os designers. Se bem que os designers são pessoas muito felizes. Não sofrem. ELE— O design é o fim da arte... EU— Isso excita-me. ELE— É um bocado como o Fausto a tentar comprar a alma de volta. Com o dinheiro da venda da mesma, claro... O que eu sei é que o branding come tudo. Aliás, o Régis Debray explica isso bem, ou não? EU— Estou a ler... ELE— Eu esqueço-me de 98% das coisas que leio. EU— ...e estou a gostar muito. O homem começa a contar a história da imagem pela sua morte. É como se a arte, ao nascer, já tivesse assinada a sua certidão de óbito. Mais uma coisa que me excita sobremaneira... ELE— Mas ele associa isso ao sistema social/político/económico, não? Ou seja, quem é que precisa da arte? EU— Ainda estou na parte dos sarcófagos... ELE— Fiquei espantado com o Debray. Da guerrilha para a academia... EU— Acontece aos melhores. ELE— Já que aos piores não acontece nada... EU— "Be open to whatever comes next", John Cage. ELE— Não podemos ser tão sérios. E não nos podemos levar a sério. EU— O sério tira-me do sério. ELE— Também a mim! Apesar dos meus humores fúnebres. Mas isso é pessoal, não é público. Em público, é sempre a partir pedra... EU— Seja. Agora vou sair; já partimos mais...

[Julho 2007]



sexta-feira, julho 25, 2008

"lo-fi" - sophy.

APOCALYPSE NOW
Google Talk


00:41

ELE: Já decoraste A Voz Humana? EU: Já decorei, sim senhor. Tal como manda a tradição... Decoro o texto primeiro e faço depois. Este espectáculo tem que ser tudo como manda a tradição. Quero fazer um readymade da tradição. ELE: Eu sei, eu sei. Muito rogeriano, de resto... EU: Isso é que eu ainda não sei. A ver... ELE: Não paras! EU: Páro. Para mim acabou. Estou farto. Findo este ano, vou dedicar-me à minha carreira de cozinheiro. Vou "deixar tudo" para ser cozinheiro. Não é bonito? ELE: 'tás sempre a dizer que acabou, mas nunca mais acaba!!! [...] Quando se é artista, é sempre a acumular funções... EU: ...onde é que isso está escrito, que eu sou "artista"? Um "artista" que trabalha no McDonald's para ganhar dinheiro é "artista" quando está a trabalhar no McDonald's? Os hamburgers que vende são "arte"? "Artista" não é uma profissão... ELE: Depende. EU: "Artista" não é coisa que se seja. Não se é artista. Ninguém "é" artista. O artista não existe. Já o cozinheiro "existe". Cozinheiro é-se. ELE: Hummm... Tanto como artista, parece-me... EU: ...ando sempre a dizer que as coisas que faço são o que são, e que aquilo que são é o nome que têm... ELE: Pois, eu sei... EU: Pronto, a Universidade vai ser isso mesmo: uma universidade. Sem metáforas. ELE: A arte não tem que ser metafórica!!! EU: É sempre vista como tal. Eu tenho muita pena. Para mim, acabou-se a dialéctica do real/ficcional. Quero continuar a fazer coisas sem ter que estar dentro dessa dialéctica, e ao mesmo tempo sem ter que fazer de conta que ela não existe. Nem que para tal tenha que sair da construção artística. Vai ter que ser. Fazer o caminho inverso ao do Godard, que diz ter deixado de fazer cinema para passar a fazer arte. ELE: Hummm... Pois, já tinha percebido. EU: Não quero mais "fazer de conta" que sou curador, mesmo que o seja, de facto. É divertido, mas não passa disso... Quero ser mesmo. Mesmo que esse mesmo seja, ainda assim, "a brincar" (uma das minhas expressões preferidas...) ELE: Eu gostava mais quando eras artista, de facto, e sem metáforas nem ficções. EU: ...ou faço mesmo dentro da construção artística (como vai acontecer no Espectáculo de Teatro), ou faço mesmo fora dela, como vai acontecer na Universidade. (resumi grosseiramente, mas acho que bem...) Farto de ter um pé dentro, outro fora. ELE: ...ou pelo menos sem mais ficção do que aquela que a vida já tem, n'est-ce pas? EU: Isso foram os últimos 6 anos da minha vida, não quero mais... Que venham outros e façam por mim. EU: Compreendo, mas sou melancólico, o que é que queres? EU: Eu acho isso bem e até acho bonito, mas, honestamente, estou-me a cagar para o que já fiz. Não sinto qualquer nostalgia mais ou menos melancólica. Sinto que tenho que desrespeitar o meu trabalho na mesma medida em que desrespeito os dos outros antes de mim. Jamais me poderei levar a sério. Morro só de pensar nisso. ELE: Melancolia não tem a ver com isso... EU: A tua melancolia é a do espectador. É a mesma melancolia que eu sinto quando penso nas coisas que a Sigalho fazia em 1999, que eram maravilhosas e me influenciaram imenso. Mas é passado. ELE: ...mas agora não fiques igual a ela só porque fizeste 30, please! EU: Não. Porque eu recuso-me a fazer Vou A Tua Casa's para o resto dos meus dias. Ainda que, na verdade, seja isso que toda a gente espera de mim. Eu só quero ser cozinheiro. E dos bons! Abro um restaurante maravilhoso e as pessoas vão lá como se fossem ver um espectáculo melancólico do Rogério. Cada um vê o que quer. Isso já não é da minha responsabilidade. Acabou-se a Oportunidade do Espectador. Quero uma "oportunidade do criador". Preciso. ELE: ...uma melancolia niilista pós-espectacular rogeriana... Não gosto muito. Gosto mais do artista que faz comida verdadeira que se come mesmo e ainda assim é ficcional...

01:10

ELE: Eu gosto de poesia. EU: Eu abomino poesia. ELE: Pois, eu sei... EU: Eu já só leio livros de cozinha. São os melhores livros de filosofia do mundo. Estética pura. Estética no seu estado mais elevado. Físico-químico. Humano. ELE: Isso já não concordo. A metáfora culinária é uma metáfora para o artesanato e não para a arte. EU: Primeiras: ninguém falou em arte aqui. Segundas: eu disse "livros de cozinha", não disse "culinária". Estou a falar-te de estética, não te estou a falar de antropossociologia alimentar! ELE: Não... EU: ...e depois a Oprah é outra lição sublime de estética. A Oprah é a representante máxima do triunfo filosófico da estética. Mais importante que qualquer rizomada publicada em livro. Mais importante que a própria filosofia. Mais importante que a Madonna. Primeiro: porque é preta. Segundo: porque é americana. Três: porque jamais irá cometer suicídio. Ela é o futuro da filosofia na sua máxima expressão. Sem ela, não existiria Zizek. ELE: ...temos dúvidas. EU: Hahahaah. Acho maravilhoso que me continues a levar a sério. Isso é bonito. Acredito mesmo que a cultura popular é a mais sublime das culturas. Na verdade, só existe cultura popular. As outras não existem. A cultura popular é a única cultura físico-química. É a única cultura verdadeiramente "humana". ELE: ...tu afinal és o Stanislavski. Eu sempre disse isso! Vou guardar o catálogo do Vou A Tua Casa e ler o texto do Lado C todos os dias... EU: Porquê? ELE: Protesto melancólico...

sábado, julho 19, 2008

a oportunidade do espectador.

THE CURATOR'S HOUSE
[último diário]


Saiu tudo bem. Saiu tudo mal. Os tempos todos trocados. Um ritmo insuportável. Apaga. Acende. Retoma. Recomeça. Desiste. Muito calor. Pessoas cansadas. As luzes eram más. Os vídeos eram maus. A banda sonora era uma punheta (do curador). Tudo muito mal mastigado. Incoerente. Contraditório. Poucas ideias. Muitas ideias. Ideias a mais. Anos 90 mal resolvidos. Anos 80 em impasse. Anos de agora muito pouco fáceis de olhar. De frente. Ou então de pé. Muito tempo de pé. Se isto já fosse a Curator's School, 2/3 da plateia levava falta a vermelho. Farto de preparar aulas para alunos que não fazem os trabalhos de casa. Não sei se quero viver na era do empate técnico. Construí as minhas paredes, quero viver dentro delas, recuso-me a deitá-las abaixo. De resto, tudo bem. Disseram-me que o meu trabalho era sobre a crise da contemporaneidade — não se pode fazer mais; não há nada para fazer. Disseram-me que a A Oportunidade do Espectador devia ser o modelo de toda a ficção nacional — pode-se fazer? Disseram-me que havia quem quisesse fazer parte da "minha" comunidade; disseram-me que havia quem já estava a congeminar uma contra-corrente. Que fazer? A grande conquista da noite: nenhum crítico lá pôs os pés. Nada se perde, tudo se transformou: estavam lá os meus. No fim, aconteceu uma gay pride party. Juro que não fui eu que a encomendei. Nunca mais faço disto. Nada a fazer. Acabaram-se os conteúdos (diz-me o André); venham os formatos (digo eu). Isto foi o início do fim. Bem-vindos à realidade? Não, we'll be right back...



sábado, maio 24, 2008

london diaries.

FINAL REVIEW



Paula Roush set up a new exhibition at the [SPACE]. This time for her project, she took on the role of a producer bringing together with co-curator Tiago Neves a selection of Portuguese performance artists to articulate ideas of transcription at the stage, which works as a platform for representation of scripted reality. The [SPACE] is re-constructed to form corridors leading to stages enclosed and enveloped for the act of deconstructing, reconstructing and constructing scripts that alarm us of the coming events. Yet this activity is found not in scripts and scenarios alone, but in post-scripts, supplements, which proliferate the hidden moments in the performance, hidden because of the secretivity of the performer, the carrier of knowledge, who knows the best how to lead the audience. Instead, these hidden moments in between lines are made prominent to provoke the audience to become part of the secretive metamorphosis alluding to the playful. In this reconstruction, space becomes multiplied in the form of a reception leading to the corridor, corridor leading to the stage, actors linked with the audience, mirrors reflecting actors, and performer going to peoples’ houses to link the public space with private homes. The long corridor through which an actress ("a bureaucratic secretary") leads you to the end of the L-shaped space and places you in front of computer, asking you to go through the application form to realize the Moment of Being. The performance based on Noël Coward's play starting with the bidding to choose which actor-actress should play whom. The distracted vision represented in mirrors and pulp fiction in the performance Obscurity. And instead of performing at the stage, coming to people's homes to perform for them in their kitchen, sitting room, or sometimes in their bedroom... These are the main features of this discursive project of deconstructive performance. An interesting moment is the choice to reconstruct not only the space but also the classical view of the performance, playing and being perceived as a player as it is today part of our days of global transformation. In Moments of Being by Beatriz Cantinho and Valério Romão, because of the proliferation of means and ideas, performativity itself became a provocative activity for one to realize as a strategy, and the confusion for another: "Why do you think I am a unique person. I am not really! I have to pay my mortgage and to go to work every day. Virginia Woolf of course is unique, since she was a creative individual”. Bringing peoples’ non-confidence into the stage displayed in a white cube at the end of the corridor and trying to link them to the self-productivity, it is supposed to release the pressure of this social disfunctioning, this silent performance literally clinical and critical at the same time. It carries a diagnosis like the medicine: you are unique and the symptom -you are unique- because you are not someone who is trapped in paying mortgages, but someone who can go beyond the conventions of this pressure, is imposed by the society of puritan conformability. The same message is read in the work of Rogério Nuno Costa, Going To Your Place. He is visiting people’s homes in order to perform for them. He appears on people’s doorsteps to ask not for the unpaid water bill, but politely articulating his own desire: I would like to perform for you! And you can get free access to my next performance! Again, his performance specifies elements of space articulated according to a private address, the telephone number, the doorbell, the number of the house, that become the index to his performance. The performance based on Noël Coward’s play Private Lives is astonishing for it's becoming a postscript to the contemporary holidaymaking some 50 years later of the original date of this play. Performed by the Teatro Praga it consists of six actors, but also involves the audience choosing the actors and actresses. The play starts with the bidding for an actor: like gamblers the audience throw the dice and the winning actors and actresses will go on to play the roles, while the losers stay on the side, reading the lines which are normally hidden away from the public. This kind of reading reveals what is missing from an experience of performing, namely the position of an author, the technical moments becoming inseparable part of the work. Obscurity holds our attention as a philosophical postscript to the encoding of popular vision: mirrors in the stage show something which you cannot follow: everything is distracted, although references made to very well known artistic, cinematic, musical, artistic and theatrical pieces joins us to suggest something which is known to us, yet posing the question: do we really know all this? This project continues an original relationship Paula Roush has been exercising in her previous exhibitions. Always engaging an audience without putting any pressure on them, Roush manages to visualize an attitude crucial to the understanding of contemporary art: that in a way or another audience provides enormous support, which by itself can be described as a postscript. It is during the live performance that the audience enters into the dialogue. It does not necessarily happen in the critical moment during the break or after the performance. It is expressed during the performance, when they laugh or cry, getting excited or simply falling asleep. This project is of course about the scripting of reality in its literal sense. Our daily reality is nothing else than performance, based upon the knowledge gathered by centuries of struggle to make these knowledge structures to work for us. In this sense this project can be described in terms of the Derridean statement representing any action as a text: there is nothing outside the text. Words referring to the web of texts and the world as wall-to-wall text made for being readable, performable and visible only because it coincides with our knowledge of culture, yet seen as postscript it creates the chance to elaborate missing dimensions of this knowledge.

sábado, maio 17, 2008

lado a.

CLAUDINE
12 de Maio de 2003

[9.ª e última casa]


I.
Amares + bibicleta + Claudine = felicidade. Recorrência: fazer coisas juntos. O Vou A Tua Casa, em casa das pessoas, será sobre fazer coisas juntos.

II.
O Tigre é o espertalhão: consegue abrir os portões com os dentes e a língua. O Mike é o preguiçoso: só sabe comer e dormir. O Leão é o ciumento, talvez por ser o mais velho. A Claudine apresenta-me os cães como quem introduz as personagens de uma peça de teatro, no início de um texto que não se sabe onde começou (o livro não tem capa, nem contra-capa, e pode ser lido de trás para a frente e de frente para trás), e não se sabe onde vai acabar. Mas as personagens existem. Mexem-se. Estão vivas. Ladram. Mas são-me apresentadas como se vivessem na bidimensionalidade de uma folha de papel. O Vou A Tua Casa, em casa das pessoas, será sobre o achatamento das mesmas numa folha fina de sentido. Pessoas "importantes" comprimidas em folhas finas de papel. Pessoas "importantes" tão bidimensionais quanto as personagens dos ballets do Luís XIV, para que se vejam bem ao longe, e ao perto como se fossem microorganismos vistos através de uma lupa. Realidades míopes. Pessoas "importantes" que se transformam em personagens porque eu lhes colo um papel na testa com a palavra "importante" escrita em cima. Míopes.

III.
A Claudine, a mais desconcertante "não-actriz" que conheço, mostra-me que o Vou A Tua Casa, em casa das pessoas, será, indubitavelmente, um "espectáculo" de "teatro".

IV.
Quando lhe explico o que quero fazer, ela diz que o mais importante serão os cheiros das casas. Tem tanta certeza do que está a dizer, que passo automaticamente a acreditar que o resto que anotei não interessa (não vai interessar) para nada. E colo um papel na minha própria testa com a palavra "cão" escrita em cima. Agora só terei que escolher se quero ser o Tigre, o Leão ou o Mike.

V.
[Sim, a Claudine apodera-se das coisas que lhe dão como se fossem suas desde sempre, e devolve-as depois com uma marca inextinguível. Esta é a última casa que visito. Aqui se revelam (não se criam) toda a panóplia de cheiros que esta peça vai ter. O Vou A Tua Casa não é sobre "fazer amigos". O Vou A Tua Casa é sobre "ter amigos".]

VI.
Espectáculo de teatro um: a Claudine conta-me a história de uma pequena tragédia doméstica, real, mas com espectadores. Serve. Espectáculo de teatro dois: a Claudine indica-me num pequeno mapa o local exacto onde dá explicações de Francês, e serve-se dessa pequena geografia atrofiada para me dizer que gostava de ver ampliado o mapa, em papel e em ideia. Serve. Espectáculo de teatro três: a Claudine mostra-me o quarto dela, como se eu nunca lá tivesse estado: um quarto que conheço desde que a conheço, quando juntos começámos a aprender a ler: um quarto que está igual ao que era em 1995; a Claudine relembra-me o significado de cada poster, de cada elemento da sua colecção de latas, de cada frasco de perfume, de cada brinquedo antigo; eu já sabia; ela fez de conta que não, rematando: "Não gosto de mudanças”. Serve. O Vou A Tua Casa não é sobre fazer diferente; o Vou A Tua Casa é sobre ser igual. E se ele é "subversivo", é por isso.

VII.
A Claudine é a mais desconcertante "não-actriz" que eu conheço. Bis.

VIII.
A Claudine termina o seu espectáculo de teatro dedicando-me uma música que põe a correr no seu leitor de 1995: You're so pretty, the way you are... Ouvimo-la até ao fim. E no fim, oferece-me uma amêndoa. Doce. Da Páscoa. Regresso a casa com a certeza que tinha acabado de ter o meu primeiro (e único) ensaio possível para um possível espectáculo chamado Vou A Tua Casa. Um espectáculo feito por ela, para os dois. Ou um espectáculo feito pelos dois, para ela. O Vou A Tua Casa é/foi isto. Serve. Serviu.


sexta-feira, maio 16, 2008

london diaries.

PRESS RELEASED


Portugal is finally making itself heard these days as a powerful voice in live art and performance, as we've understood from recent visits from key groups such as Bomba Suicida. This intriguing programme at East London's SPACE triangle gallery compiles work by four lesser-known groups, and is a chance to get intimate; the pieces seem united by an attempt to involve the public and absorb their reactions into the work. For example Cantinho and Romão's Moments of Being depend on us filling in a questionnaire, which is subsequently analysed by a computer to determine "a moment of a singular experience that embodies a maximum revelation of our existence". Perhaps rather less complicated, Teatro Praga's production of Noel Coward's Private Lives requires the audience to decide which actors should play which roles. But perhaps the most instantly appealing is Rogério Nuno Costa's Going To Your Place. From this page here you have all you need to bring him over to your own place, whereupon he will perform in your living room. The connotations of the yellow pages dial-a-magician are too wonderful to resist — book now to avoid disappointment!

[London, November 2004 ]


sábado, maio 10, 2008

lado a.

SANDRA ANDRADE
12 de Maio de 2003

[oitava casa]


I.
Uma casa cujos cantos conheço tão bem, não como a palma da mão (cuja quirologia, quantas vezes!, me tira o tapete do pé), mas como a história dos meus amores e desamores, por exemplo. Essa tenho-a escrita em sítios mais ou menos recônditos, em post-its colados em paredes de casas onde vou em dias de celebração. A casa da Sandra, por exemplo. Existe para mim nesta forma de inventário: todos os acontecimentos marcantes marcados a papel em sítios recônditos que se espalham desde as escadas de madeira às janelas curtas no cimo das paredes do quarto, cuja vista para ser vista exige um esforço hercúleo de ampliação do pescoço. E depois gosto sempre de pensar que estou numa casa que se encontra literalmente colada a um monumento histórico: o Arco da Porta Velha. Isto em Braga, claro, porque se fosse Paris, era o mesmo que viver numa casa que fica colada ao Arco de Triunfo. Tal e qual como a casa da minha tia Augusta, concièrge desde os anos 70, onde fico quando lá vou. E o Vou A Tua Casa é sobre isto: histórias de amor, histórias de desamor, cantigas de amor, cantigas de amigo e, claro, sobre lógicas forçadas, mais ou menos históricas, mais ou menos historiais, mais ou menos. A Sandra, essa, conta (conta-me) histórias como ninguém.

II.
Também já falei desta casa (e da Sandra) neste espectáculo. Anoto: o Vou A Tua Casa é sobre tudo o que já fiz. O Vou A Tua Casa é uma vontade de voltar atrás.

III.
A Sandra oferece-me um chupa-chupa.

IV.
Eu fico muito contente e revelo a evidência anotada após a última visita — este "espectáculo", que é de "teatro", vai acontecer nas casas das pessoas que o quiserem ver, não por uma questão de criação (ai é giro e tal...) mas por uma questão de revelação. A Sandra primeiro diz que eu sou louco. Depois diz que também quer. Depois diz que imagina que quando eu entrar nas casas dos espectadores, vou desatar a partir tudo ao pontapé. Eu digo-lhe que sim. A tudo.

V.
Saímos. Eu vou à farmácia comprar comprimidos para as minhas enxaquecas. A Sandra vai à padaria comprar pão para o nosso lanche.

VI.
Regresso. Temas de/da conversa: o sabor a Bailey's do chá; o amor; a teoria do fascínio; a lista das pessoas que já passaram por aquela casa; os pães que já vêm com queijo e fiambre dentro; os desenhos freaks na parede; as galinhas da vizinha que são (sempre) melhores que a minha; mitos; provérbios; frases bombásticas; todas as peças de teatro que eu podia representar em casa das pessoas; lista de filmes que se passam dentro de apartamentos; lista de imagens-ícone da história da performance adaptadas ao ambiente caseiro; todas as listas possíveis [estamos em 2003, vá lá!...]; e, claro, a minha história com a Sandra e a dela comigo. O Vou A Tua Casa é sobre pessoas importantes.

VII.
Enquanto a Sandra se dirige à casa-de-banho, olho de soslaio as notas que tirei: vejo ali qualquer coisa "estrutural", um corpus qualquer ainda sem órgãos, uma grelha a preencher. Baralho-me. Queria ter mais certezas. Eu gosto muito delas, de as ter, mas parece que elas, as certezas, não gostam muito de mim. A Sandra acompanha-me ao autocarro que me vai levar de regresso a Amares: o último do dia. Abraçamo-nos. Depois: “Eu depois telefono-te!”. Digo. E anoto. No caminho, prevejo nessa promessa adiada (despedida) a solução para alguns dos problemas. Meses depois, em todos os espectáculos de teatro chamados Vou A Tua Casa que fiz, fi-la sempre, essa promessa despedida, em substituição da destruição das casas ao pontapé. É certo que não a cumpri, a promessa despedida, enunciei-a apenas, e deixei 415 pessoas à minha espera para sempre. Era assim que eu gostava que todos os espectáculos, sobretudo os "de teatro", fossem. À Sandra, essa, ligo muitas vezes.


quinta-feira, maio 08, 2008

lado a.

11 DE MAIO DE 2003
The name of my best friend is Clara

[sétima casa]



[do Lat. "brilhante, luzente, ilustre", Clara revela uma pessoa com forte sentido crítico e muita racionalidade. Nem sempre os outros entendem o seu auto-controle e perfeccionismo, mas é essa a sua forma de lutar pelo sucesso. Geralmente, progride muito na vida.]


I.
Cinco anos depois, traslado palavras grosseiramente do bloco de notas para aqui. Mudo algumas (poucas) coisas: pontuo, virgulo, arranjo. Ponho tudo em minúsculas, um dos meus fetiches cosméticos mais antigos. Digo, porém, que continuo a usar maiúsculas nos nomes das pessoas. Só. Os nomes das pessoas levam sempre letra grande: Clara, por exemplo: e Rogério, por exemplo. Ela tem 24 anos, faz 25 daqui a dois meses. Eu tenho 24 anos. Faço 25 daqui a um mês. Somos de Amares. É lá que estamos agora. Eu estou em casa. Está sol. Combinei lanche em casa dela; com ela e com os pais dela. Os pais chamam-se Manuela e Augusto. Vou a casa da Clara de bicicleta. É a melhor maneira de saber (sentindo na pele e no estômago) que estou na terra onde nasci; o vento é sempre gelado, os pedais levam-me sempre aos sítios mais rápido que o próprio curso dos rios (que amainam quando se encontram, por fim), e há sempre insectos que se homicidam na minha cara. Chego a casa da Clara (diz-se "a casa da Clara" ou "à casa da Clara"?) e o pai Augusto conduz-me ao lago, onde vivem uns peixes gordíssimos chamados "pimpões". Nunca tinha reparado no lago. Não conhecia os peixes da Clara, mas que são do senhor Augusto, mas que é a senhora Manuela que os alimenta. Parece que comem os ovos que as peixas põem, mas não são canibais, não se comem uns aos outros, como no sermão do padre António Vieira. Paro. Ando depois pelo jardim, vou até ao penedo, sento-me à mesa de pedra, olho as laranjeiras da casa ao lado e relembro uma chuva de estrelas falhada, anos antes, com óculos especiais e vento quente na cara. Há qualquer coisa aqui que pertence indubitavelmente ao ritual da celebração; ir a casa ("à casa"?) da Clara não é uma banalidade, é uma ritualidade: a mãe Manuela recebe-me com um lanche que ocupa o espaço quase total de uma mesa, e um sorriso com a mesma luz que se avista do cimo do penedo, e um chá revigorante que trouxe dos Açores ("porque a Clara me disse que gostavas muito de beber chá!"). E a performance começa: primeira nota no caderno das notas — estou dentro de um Vou A Tua Casa tal e qual como os sonhos que tenho o imaginam, e só agora me apercebo. Paro. Sorrio. Continuo.

II.
Temas de/da conversa: parapente no Gerês & outros desportos radicais, cidades visitadas, viagens de avião, as vistas quando vistas de cima, a ria de Aveiro e as nuvens, os Açores, o estreito de Gibraltar, Paris, Casablanca, Rabat, Londres, taras e manias associadas aos artistas num grosso modo genericamente grosseiro (por exemplo: todos os artistas vestem roupas excêntricas), a antropologia (ou será semiótica?) do vestuário — ou sobre "os que vestem o hábito para se fazerem passar por monge...”, diz a mãe Manuela —, ou os porquês da "bengala do maestro Vitorino d’Almeida não servir rigorosamente para nada a não ser para dar o ar..." (diz a Clara). Anoto: este Vou A Tua Casa é, indubitavelmente, um "espectáculo" de "teatro". Tema final: no nosso tempo é que era (Manuela vs. Augusto). Anoto: trasladar estas notas para o folder Saudades Do Tempo Em Que Se Dizia Texto [para Novembro do mesmo ano]. Continuo.

III.
A mãe da Clara sonha muitas vezes que a encarregam de dar de comer aos animais (os pimpões?), mas ela desmazela-se e acaba por deixá-los morrer à fome. Acorda sempre muito aflita. Anoto: "sonhos" [na altura queria dizer qualquer coisa como "realidades demasiado reais", "canções de embalar", "poemas visuais", "segredos", "fairy tales"]. Sei hoje que o Vou A Tua Casa é/foi tudo isso e o contrário de tudo isso também, mas ao mesmo tempo... Sim. E depois todos tentam interpretar o sonho da mãe Manuela à luz daquele outro que toda a gente tem, que é sair à rua nu e ficar cheio de vergonha. Mas o sonho da mãe Manuela é diferente, parece-me. O sonho da mãe Manuela é sobre pessoas e é sobre matar pessoas. Não é desmazelo, é purificação. Não é eliminar todas as pessoas que saem à rua despidas, ou despenteadas, ou sem sapatos; é o contrário. Recordo, conto e anoto: o meu sonho planado, em viagem, serpenteando por ruas e ruas de casas esventradas, casas de pessoas desconhecidas. pessoas despidas. E isto não são os peixes que se comem uns aos outros do padre António Vieira; isto não é intimidade, isto é exposição; isto não é criação, isto é revelação. E é a Clara que agora faz de Freud: Vou A Tua Casa é sobre despir pessoas. Tal como aquele prédio sem fachada que um dia vi, quando descia a rua do alecrim: os vestígios gráficos do que outrora foi a divisão arquitectónica dos andares e das divisões, e o trabalho do Carlos Bunga, que é isto tudo, mas em "fairy tale": e isto não é/foi inspiração, isto é/foi intuição.

IV.
Ideias: correspondência entre artistas, cartas, recortes de jornal, listas de compras, listas de coisas a fazer, outras listas de outras coisas [estamos em 2003, OK?], frases bombásticas, textos ditos como se estivessem a ser escritos (no momento em que se escrevem). Vou A Tua Casa é, indubitavelmente, uma vontade de voltar atrás.

V.
Beijos. Despedidas. Promessas de regresso. Daqui a dois meses, a Clara faz 30 anos. Daqui a um mês, eu também.


segunda-feira, março 31, 2008

projecto de documentação.

ANA CARDIM
Convidado #8



©Ana Cardim

Nasce em 1975, em Lisboa. Realiza um percurso simultâneo entre o estudo teórico da arte actual e a sua expressão como artista na área da joalharia contemporânea. Licenciada em História da Arte pela Universidade Nova de Lisboa, frequentou entre 1996 e 2007 diversos cursos de joalharia contemporânea em Lisboa, Saragoça, São Francisco e Barcelona. No presente momento, cursa o Mestrado em Estética e Teoria das Artes Contemporâneas, na Universidade Autónoma de Barcelona y Fundación Joan Miró (Barcelona) e integra ainda a residência artística de pós-graduação Off-Massana, em Barcelona. Tem participado como joalheira em exposições, das quais destaca: "Joalharia Portuguesa em Roma", Galeria Alternatives (Roma, Itália); "Joyeria Contemporánea y su Significación", Escola Massana; "Impressions on Portuguese Contemporary Jewellery", Galeria Landskronschneidzik, (Nuremberga, Alemanha); "Gold 2007" (Berlim, Alemanha); "Touching Warms the Art", Museum of Contemporary Craft (Portland, EUA); "Inhorgenta Europe 2008" (Munique, Alemanha), entre outras. O seu trabalho está representado em diversas galerias de joalharia e arte contemporânea em Lisboa e Barcelona.


[Ana Cardim é convidada da colaboradora Verónica Metello; brevemente, no livro.]

domingo, março 23, 2008

(parêntesis)

R E S P O S T A S

A partir de Fischli & Weiss a partir de André e. Teodósio a partir de Mim a partir do Salon des Réfusés a partir de Ingres a partir de Hesíodo a partir Forced Entertainment a partir de António Variações a partir de Mim


porque sou rico, porque sou feio, porque leio, porque brinco com sinais mass-mediáticos, porque me estou a cagar para o poder, porque quero poder, porque defendo liberdade criativa, porque tenho as minhas ideias artísticas, porque sou giro, porque sou pobre, porque quando morrer o mundo vai cantar canções sobre mim, porque tenho uma linha de trabalho, porque tenho muitas linhas de trabalho, porque demoro semanas até encontrar tempo para cortar as unhas, porque sou vanguarda, ou porque sou retaguarda, por moda, porque leste num jornal, porque é lei, porque existe um site com esse nome, porque é formal, porque é conceptual, porque é a letra da canção que mais gostas, porque ensinam isso na escola, porque não te emprestei um projector, porque não tenho projectores, porque não recebo prémios, porque não tenho um prédio, porque os cartazes são feios, porque prometo mais (ou melhor) do que depois faço, porque já fodeste comigo, porque nunca fodeste comigo, porque fodeste comigo e não te lembras, porque não te dei um pin, porque usei um texto teu indevidamente, porque não sou estruturalista, porque não sou desconstrutivista, porque crio os seus próprios -ismos, porque os bilhetes são baratos, porque faço espectáculos de graça, porque sou pretensioso, porque faço manifestações, porque escrevi um dogma, porque nunca se sabe se o que digo é a sério ou a brincar, porque te deixei a casa suja, porque sou ingénuo, porque ainda não tenho 30 anos, porque sou velho, porque estou velho, porque estou morto, porque sou português, porque servi comida num espectáculo quando toda a gente anda a fazer o mesmo, porque mesmo com dinheiro, continuo a fazer espectáculos 'sem dinheiro nenhum', porque não fiz o conservatório, porque nunca vi um único espectáculo da cornucópia, porque recuso mestres, porque recuso referências incontornáveis, porque odeio 'festivais enciclopédicos', porque abomino toda e qualquer ideia de 'reportório contemporâneo', porque tive mais dinheiro que tu no último concurso, porque faço espectáculos privados com dinheiros públicos, porque uso meias com bonecos, porque viajo, porque odeio banda desenhada, porque odeio jazz, porque adoro os scooter, porque não engordo, porque tenho ídolos, porque tenho fãs, porque sou fã, porque me chamo rogério, porque sou de amares, porque (ainda) tenho sotaque, porque não tenho respeito nenhum pelo métier, porque brinco com o fogo, porque assino petições, porque desconfio de “toda a gente”, porque digo mal dos críticos, porque digo mal dos artistas, porque digo mal, porque tenho amigos, porque não jogo o jogo, porque vivo na praia, porque não tenho carro, porque uso perfume, porque sou branco, porque tenho uma pila grande, porque estou a ficar careca, porque compro roupa na h&m, porque tenho pinta de escandinavo, porque tomo banho todos os dias, porque não tenho pêlos no peito, porque não tenho medo, porque faço finca-pé, porque acho mesmo que sou mais inteligente do que as pessoas razoavelmente inteligentes, porque os meus antepassados são bárbaros, porque tenho a mania que é bom, porque tem muitos blogs e nenhum site, porque sou má pessoa, porque não leio jornais, porque me contradigo, porque amo becos sem saída, porque ando a fazer a mesma peça desde 2003, porque alguém soit disant "importante" te disse que o meu trabalho era irrelevante, porque tu és uma pessoa soit disant "importante" e eu acho que tu és irrelevante, porque sou arrogante, porque sou maníaco, porque sou ridículo, porque me ponho a ridículo, porque escrevi este texto, porque não tenho jeito nenhum, porque detesto lisboa, porque te disseram que não gosto de ti, porque o teu melhor amigo foi ver um espectáculo meu e gostou, porque não me leva a sério, porque pareço de direita, porque pareço de esquerda, porque vou publicar um livro, porque faço listas, porque acredito em (boas) perguntas e desautorizo as respostas (mesmo quando "boas"), porque te roubei a 'ideia', porque afinal até existo.




segunda-feira, fevereiro 25, 2008

encontros no caminho.

J.M.
Sé de Lisboa

6 de Março de 2005, 15:00


Ou como tudo o que acontece antes da performance acontecer é mais importante/interessante que a própria da performance no momento exacto em que acontece.


1
Olá Rogério. Peço desculpa por não ter voltado a contactar-te, mas [censurado] ...e tive de [censurado]. Espero não ter posto em causa a realização da performance. Gostaria, então, com este mail, de replanear as coisas. Não gosto, como aliás é costume e só fica bem, de falar de mim, portanto decidi sistematizar traços de carácter que poderão revelar-se absolutamente inúteis:

  • Sou um céptico global, um maníaco-depreciativo incurável e um observador impiedoso;
  • Tais traços traduzem-se, normalmente, em comentários e observações que oscilam entre o azedo, o acutilante, o violento, o xistoso e o mais gratuito nonsense;
  • Não consigo levar nada nem ninguém a sério, começando por mim próprio (este acrescento revela, no entanto, uma auto-estima elevada);
  • Acredito piamente na efemeridade, artística, amorosa e mística, mas não confio em performers, em performances, em dança contemporânea, em música experimental e em convenções modernaças inventadas à pressa por cérebros iluminados de 22 anos que promovem mostras de design, criatividade e artes performativas que ninguém quer ver. Se é efémero, que valha o momento;
  • Sou consideravelmente mais inteligente do que as pessoas consideravelmente inteligentes, mas como acho o ego um acessório risível, não o manifesto;
  • Não gosto de manifestos;
  • Simpatizo com os comunistas pela perseverança porosa e pelos casacos de lã que insistem em manter como fashion statement;
  • Não diria que tenho ideias de esquerda. Diria que tenho ideias. Vagas;
  • Não tenho grande consciência política. Na verdade, pergunto-me se tenho consciência, ponto;
  • Confio plenamente nas capacidades regeneradoras dos produtos Vichy — sou vaidoso e tenho um problema com os 30. Pronto, já o disse. Nunca o tinha admitido;
  • Comer enfada-me;
  • Escrever mails enfada-me;
  • Sou espartano por opção e perdulário por vocação;
  • Tenho uma capacidade de concentração de 13 minutos mas consigo prestar a mesma atenção a duas coisas ao mesmo tempo, o que dá uma boa margem de opção;
  • Não, não tenho a mania que sou engraçado, mas tenho muitas outras manias que poderiam dar uma performance curiosa;
  • Chamo-me J., 31 anos, solteiro, amigo do seu amigo, trabalhador incansável, homem do circo, provocador passivo, generoso e desconfiado, amante de chocolate e sexo, saúde frágil e inquietação crónica.

2
Sistematizei os meus, a partir dos teus; há diferenças (muitas) e semelhanças (muito poucas); descobre tu o que quiseres, ou risca o que (não) interessa:

  • Sou um crente global, um maníaco-positivista incurável e um observador desleixado;
  • Tais traços traduzem-se, normalmente, em comentários e observações que oscilam entre o fascinado, o ingénuo, o totó, o demasiado queridinho e o mais gratuito bajulador;
  • Levo quase tudo e quase todos a sério, começando por mim próprio (este acrescento revela uma auto-estima elevada);
  • Acredito piamente na efemeridade, artística, amorosa e mística mas não confio em críticos, em críticas, em análises a espectáculos, em comentários a filmes, músicas, quadros, livros, objectos, em dissecações mais ou menos semiológicas de discursos artísticos vários, em alunos de Mestrado, em bolseiros de Doutoramento, em investigadores de sofá, em leitores compulsivos de Eduardo Lourenço, em citadores compulsivos de Gilles Deleuze, em aduladores compulsivos de [censurado], em escritores de blogs de todo o género e espécie (nomeadamente os que se servem da sua compulsão analítica para tornar pública a vontade de fazer parte do quadro de colunistas do jornal Público), em colunistas do jornal Público, em intelectuais de esquerda/de direita/do meio/de lado nenhum (riscar o que não interessa), em gurus do cepticismo teórico pós-moderno que organizam seminários sobre a decadência da cultura ocidental e consequente morte das artes, e também em... [censurado] Em suma, em toda a raça de mentes a-criativas, frustradas e inadaptadas, que ninguém quer ler/ver/conhecer. Se é sobre arte, que seja sobre nada;
  • Sou consideravelmente mais inteligente do que as pessoas consideravelmente inteligentes, e tendo em conta que acho o ego um acessório imprescindível nos dias que correm, manifesto-o descaradamente sempre que me apetece e que a saúde o permite;
  • Adoro manifestos;
  • Simpatizo com os freaks do djambé que ainda parasitam ali para os lados do Miradouro de Santa Catarina, pela perseverança porosa e pelos casacos de lã que insistem em manter como fashion statement;
  • Não diria que tenho ideias de esquerda. Diria que tenho ideias. A maior parte delas nada vagas;
  • Não tenho grande consciência política. Na verdade, pergunto-me se tenho consciência, ponto;
  • Confio plenamente nas capacidades regeneradoras do amor (em todos os seus sentidos filosóficos) e do sexo (idem) — sou vaidoso e tenho um problema com os 25. Admiti-o publicamente no passado mês de Novermbro de 2003, no Teatro Taborda, através do espectáculo Saudades Do Tempo Em Que Se Dizia Texto;
  • Comer dá-me tusa;
  • Escrever mails enfada-me;
  • Sou espalhafatoso por vocação e perdulário por vocação; sou muito poucas coisas por opção;
  • Tenho uma capacidade de concentração de 1 minuto mas consigo prestar a mesma atenção a dezenas de coisas ao mesmo tempo, o que dá uma margem de opção acima da média;
  • Não, não tenho a mania que sou engraçado, mas tenho muitas outras manias que têm dado performances curiosas; daquelas passíveis de serem analisadas com fulgor apocalíptico pelos tais cromos do cepticismo pós-moderno;
  • Chamo-me Rogério, 26 anos, solteiro, amigo de muito pouca gente, trabalhador que se cansa vezes sem conta, homem do circo, provocador activo, generoso e um bocadinho atrasado mental, amante de chocolate com sexo, saúde frágil e inquietação crónica.

[...]


terça-feira, fevereiro 05, 2008

projecto de documentação.

FRANZ ANTON CRAMER
Convidado #7



What do you expect in general from criticism?

Criticism in its ideal form would create discourse, translate the discourse created in and by dance into “the public”, and open a continuous dialogue between art and understanding. It would be less about taste and its hierarchies, and more about viewing and contextualizing. However, most dance criticism in Germany’s major national newspapers, is totally in contrast to this vision, and it is precisely this style, or practice, that newspapers want. So there seems to be a sort of negative public consensus about the kind of criticism needed. This is appalling, of course, but it tells a lot about the situation of the media, and of the public, the öffentlichkeit. Just think about what it means if other sections in the respective newspapers where held and directed by equally dishonest and self-centred authors. It’s a startling thing to imagine.

What is lacking, which measures are to be taken?

So, the measures to be taken for improvement would be to gain independence from this kind of hierarchical, totalitarian criticism and find new channels. A self-governed magazine, for instance, as I had told you was proposed for Berlin. In Vienna, they are claiming this as well. A proper discussion on dance, or at least on the issues I find interesting in dance, will not be possible in any public context currently existing. And I do not feel the urge nor the strength to start a donquixotesque battle against obscure enemies somewhere “in the media” or “in the administration”. Rather, my aim is now to work on a proper context for dealing with dance on other levels: archive, discourse, history, understanding...

[Participação de Franz Anton Cramer no livro Vou A Tua Casa a convite de Mónica Guerreiro. brevemente.]

quarta-feira, janeiro 23, 2008

o espectáculo continua.

Envie-se por escrito: são horas! Há correio. Mãos pela cara. Não quero não quero acordar. Não quero encarar, não querer acordar como um qualquer derrotismo de 'ter que' e outras obrigatoriedades: flash; ontem; flash; contra-luz; flash, a projecção dos pontinhos de sol filtrados pelos estores ainda a meia-parede. É certamente manhã, nem considero a alternativa. Sonhei outra vez no século XVII. O anti-barroco à socapa escapa-me pelo sonho que digo recorrente. Vergonha. Não divulgo isto, não divulgo o que quereria dizer, não divulgo a resistência em ouvir isto. Uns-e-outros. Esferas que não espero que se intersectem além da cordialidade. Ilustro: dá-me gozo vê-la a dialogar como grande sofrida pela vida. Claro claro claro. Eu quando concordo, abstenho. Digo-que-sim (código universal que me poupa), claro claro claro claro, sim sim pac pac pac woof peef paf; assim foi ontem. O Rogério... O tempo. Imaginas-te? (eu à bom psicopatológico desdobro-me noutro para que possa concordar comigo próprio ou outras repulsões, a coerência é abundante.) Imaginas-te? O tempo… Que passou nisto… E é tão bonito. É que é mesmo isto do eixo norte-sul, do ser transportado interveniente que se diz observador. Dizemo-nos observadores na comunhão com um Próximo que exala emotividade e lhes guardamos um registo. Não os quero totalmente extremados, confesso. Era-me fácil ir à porta das urgências vê-los de goela pela dignidade humana. Um piano lhes caia em cima. Há uma unha de voyeurismo que na documentação asséptica e pouco adjectivada se torna num qualquer registo do momento. Mas não quero mesmo divagar. Volto ao dia do correio matinal, do teu caderno pela manhã e a… consequente gaguez de expressar gratidão. A coreografia do ensaio da resposta, vês? Era escrever-te ponto por ponto. Era tornar um discurso fluido por tabela. Decido em substituição desse pressuposto narrar este preciso momento. Recolhi memórias desde que te recebi por escrito. De uma das gavetas de generalizações onde enfio invariavelmente as pessoas; lembro-me que nem pelo meu esforço consigo que, quer num meio laboral ou académico, se deixem dos universos imediatos e tangíveis. Ele é a frequência que 'bué grande e não dava para nada', o gerente que 'ele está como quer, vem às horas que quer e sai quando lhe apetece'. Dizer-te enfim, como isto me angustia. 'Seeing inside the box'. E eu, claro, ter que cair no queixume. Foi aqui que caíste na quinta-feira. Tanto obrigado pela ruptura. Tanto tanto quis dizer-to até

agora.

[ex-espectador, 2006]

quinta-feira, janeiro 17, 2008

o espectáculo continua.

M
S
N
2


[...] só uma frase, antes das férias: "Não partir das boas coisas velhas, mas das más coisas novas". [...] tenho andado a falar muito por citações, ultimamente. Começo a achar que não tenho personalidade própria: é tudo roubado de outras pessoas... [...] é como o António Pedro Vasconcelos. Está sempre a citar. E é muito culto, o que só piora. [...] eu não sou muito culto. Sou fundamentalista em relação ao pouco que sei. O que só piora. [...] ouvi dizer que se estivéssemos no século XV, serias inquisidor. [...] como quase toda a gente é herege, tal é a razão pela qual quase ninguém gosta de mim. [...] "toda a gente" diz que és um tiranete. Mas eu desconfio sempre de "toda a gente". [...] quem me dera ser um tiranete! Sou inofensivo, infelizmente... [...] ainda bem! [...] tenho o problema de ser demasiado apaixonado pelas coisas em que acredito. Sou um grande cromo, é o que eu sou. Um totó das artes. Um crominho das performances. [...] eu gosto disso! E isso não é problema, é virtude. [...] e fico furioso (faço birra, mesmo!) quando vejo coisas/pessoas que vão contra aquilo que eu defendo. [...] o que importa é que o teu trabalho faça prova do que dizes. Eu sou aberto a todas as perspectivas: desde que não me digas que és filósofo... [...] deus me livre! Não digo. Fica prometido... Mas e se dissesse? [...] arte e filosofia são coisas diferentes. E se não são, então teremos que meter a matemática ao barulho. [...] venha ela... [...] há que saber matemática avançada para se estar na vanguarda. [...] de acordo. [...] e se calhar isso demora mais tempo do que as décadas todas que o Cézanne levou a olhar a montanha Sainte Victoire. Eu, felizmente, como separo arte e filosofia, não tenho de me preocupar com a matemática. [...] o Cézanne é uma excelente arma de arremesso contra aqueles que me acusam de andar há 4 anos a trabalhar na mesmíssima coisa. [...] e fazes bem, mas sabes que há exemplos na história para defender todos os pontos de vista. A história é muito democrática... [...] felizmente para uns, infelizmente para outros. [...] vou estar atento aos podcasts do MIT. Porque deste ponto de vista, o Media Lab é onde se está a fazer a arte contemporânea. [...] inteiramente de acordo. [...] estás a ver quanta imbecilidade conseguimos nós desmascarar numa só conversa? [...] eu vou desistir, sabias? Só para chatear os meus amigos... Como fez o Duchamp. [...] não. Desistir é feio... [...] a Laurie Anderson é que dizia que os terroristas são os verdadeiros artistas, pois são as únicas pessoas no mundo capazes de mudar as coisas... Não desisto, portanto: dedico-me a matar pessoas feias, "que é uma arte de respeito". [...] a única "arte de respeito" é a "arte do futuro". Aliás, é a única que existe. [...] não podia estar mais de acordo. [...] e o futuro inventa-se. [..] olha, vamos fazer um coffee break neste nosso debate. Preciso de ir jantar. [...] e eu preciso de ir fazer as malas. A questão dos negros na arte portuguesa também me interessa, mas fica para depois. [...] até logo...

[2007]


quarta-feira, janeiro 09, 2008

objectos.

VIAGEM INAUGURAL
(ao contrário)

2006



Assim o Lado C. O táxi levou-me da Rua do Passadiço à Estação de Santa Apolónia. O Alfa levou-me de Lisboa a Braga. O autocarro da Empresa Hoteleira do Gerês levou-me de Braga a Amares. O meu pai chama-se António e apanhou-me no caminho para casa. A minha cadela chama-se Francisca, reconheceu-me. A minha mãe também, chama-se Custódia. As pernas levaram-me da porta de casa ao quarto arrumado. Foi em abril de 2006.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

o espectáculo continua.

M
S
N


[...] o amor é tão lindo; eu gosto tanto dele, do amor. E o amor também gosta muito de mim. [...] estás a mudar de casa? Depois de fazeres obras? You are crazy! Fico velho. [...] não concluí as obras... [...] um artista tem de ter sempre uma obra inacabada: obra embargada, vazio da história, obra inacabada... És belo! És um artista com A grande! [...] Love the concept! Hate the form! It's the same with Kosuth. [...] ninguém nos compreende... [...] Porquê? Porque somos muitos. Assim começa o Rizoma do Deleuze. [...] tudo é autobiográfico e nada é autobiográfico. [...] uma falsa questão. Eles não sabem nem sonham. Que nós comandamos a vida. Eles vão morrer. Sem saber um décimo. E eu odeio-os. E eles adoram-me. Porque eu uso gravata. E digo-lhes coisas belas. E sou simpático e agradável. E nada homofóbico nem racista. Mas eu desejo-lhes morte. Eu sou o Hitler. Eu sou a cadeira eléctrica. Eu sou o gás. [...] eu sei que não sei nada, mas eles sabem muito menos. Dá-me nervos. Põe-me franjas à anos 80. Assim a tocar nos olhitos e a provocar derrames. Principalmente no olho direito. Tu és completamente desprezado. E o teu trabalho é Goya. É Caspar David Friedrich. E eles não se apercebem disso. Eles destroem. Eles omitem. Eles fazem rasura histórica. Isto é gravíssimo. [...] é? [...] olha o teu apartamento inacabado. É puro Caspar. O declínio. O declive. O embargo. A ravina. A fuga bachiana. Está lá tudo. E eles a comprar sandálias de enfiar no dedo. À tua pala! Na Springfield... Filhos de uma ganda puta! Mas eles sabem quem eu sou? Mas eles acham que eu sou parvo? Como diria o Zé Mário: A., 28 anos, artista, com todos os dentes, filho da burguesia trabalhadora. Filhos da puta! Eu só quero é ser feliz... E que aqueles que me rodeiam no meu Zeitgeist, comigo sejam felizes! [...] vou gravar esta conversa e publicar quando for preciso. [...] não sei como se faz, mas tenho que o fazer. A história é assim. Querem atirar–me areia para os olhos... Eu não vivo ao pé da praia! Ainda não estou imune. [...] eu consegui, tu conseguirás. [...] mas eu não quero! [...] queres, queres! Vais e vens, como o César. Farto de tudo... [...] vou buscar Earl Grey. Aí já é 1 da manhã, certo? [...] 01:02. Depois envia-me esta conversa. [...] sim.



quarta-feira, dezembro 05, 2007

o espírito do tempo.

το πνεύμα του χρόνου

Quantos Homeros terão contribuído para a composição da Ilíada e da Odisseia? A pergunta não tem resposta. Mas se passarmos do primeiro para o segundo nome da história da literatura grega, podemos dizer com alguma confiança que só houve um Hesíodo. É o primeiro autor da tradição ocidental que fala de si, da sua terra, da sua família. E assim instaurou o inextricável problema crítico de, logo à partida, surgirem esbatidas as fronteiras entre criação literária e autobiografia. Porque se Hesíodo é o primeiro autor situável no tempo e no espaço que conhecemos, é também o primeiro a não ter dúvida de que a sua experiência pessoal é tão incrivelmente interessante que tem à força de ser transformada em literatura.

in Grécia Revisitada, Frederico Lourenço, Cotovia, pág. 31

segunda-feira, dezembro 03, 2007

parêntesis.












A pedido do Nuno Gomes Lopes e inspirado na ideia dele em diálogo com a cena poligloto-romântica do Vou A Tua Casa, quando ela, nos idos dias ensolarados de 2003, ainda era poliglota e romântica. Belos tempos... Também fiz um vídeo, para que se percebesse tudo muito bem. Manias. Quem quiser pode enviar também as suas acções e contra-acções egocentradas. De qualquer parte do mundo.

sexta-feira, novembro 16, 2007

happy birthday.

16.11.2005 - 16.11.2007


artwork: Diogo Machado

Vou comemorar sozinho, porque foi assim que o escrevi. Vou dedicá-lo aos 5 artistas Portugueses com quem falo, os únicos que interessam e com quem consigo dialogar. Vou tatuá-lo no braço direito, em jeito de suástica "street-artizada", forever and ever. E é claro que vou enjoar dele, mas à conta d'A Oportunidade do Espectador. E é claro que vou ser crucificado por causa dele. Para no fim o colocar num pedestal perene qualquer, ao bom gosto deslavado e burguês de Portugal (ou deveria dizer Europa?). Daqui a um ano, ao aniversário terceiro, vou-me esquecer que ele existe. E escrevo outro.


terça-feira, novembro 13, 2007

press.

THE VERY BEST OF GERMANY
Ou deveria dizer Europa?

(conversa entre Armgard Seegers e Klaus Witzeling)


A tradução, nada livre, é minha:


Vou A Tua Casa, diz o actor e performer Rogério Nuno Costa. A convite e por 100 euros, o convidado constrói uma performance na sua sala de estar. Tudo por causa do Dancekiosk. Após uma marcação prévia, a jornalista Elisabeth Burchardt convidou o Português de 29 anos para o seu apartamento, não sem antes se ter preparado e pensado: O que oferecer? O que vestir? Klaus Witzeling esteve lá e debate agora o acontecimento artístico com a editora Armgard Seegers.

©Rogério Nuno Costa [Hamburgo, 2007]


ARMGARD SEEGERS — Klaus, tu estiveste com o performer, e porque qualquer pessoa pode convidá-lo, diz-me: o que é que ele faz?

KLAUS WITZELING — Ele tocou à porta, ficou no hall por uns tempos e depois começou a falar connosco.

SEEGERS — Portanto, trata-se de um daqueles espectáculos em que não se dança, fala-se?

WITZELING — Exacto. Mas ele propõe-nos outra coisa. Tanto quanto percebi, ele prefere chamar "conferências" às suas performances.

SEEGERS — Isso parece-me estranho. Porque razão há-de alguém, em sua casa, convidar um performer para um conferência?

WITZELING — É mais ao contrário. Ele apresenta-se como mediador entre o espectador e um outro conceito de arte, recolocando toda a atenção em ti como espectadora. Tu decides se queres ou não experienciar um momento artístico.

SEEGERS — Para isso prefiro convidar os meus amigos. 

WITZELING — Mas há uma diferença: quando convidas alguém que não conheces e que te propõe uma experiência teatral, artística, crias expectativas e preparas-te para o encontro de uma maneira completamente diferente. São situações muito distintas.

SEEGERS — OK, OK. Então alguém aparece, diz-se artista, senta-se e começa a falar comigo. Isso parece um daqueles programas de televisão com confissões de teor psicológico…

WITZELING — Ele faz mais do que isso. Tem um laptop com o qual te apresenta um curso de línguas, despoletando discussões à volta da ideia de comunicação, depois mostra-te imagens de Lisboa…

SEEGERS — De Lisboa?? Um slide-show turístico?

WITZELING — Ele segue o conceito de arte avançado por Beuys, que diz que todos somos artistas. Toda e qualquer ideia de arte existe já na realidade, em jeito de readymade. Ele quer que seja o espectador, com as suas expectativas, a construir essa ideia, e não ele.

SEEGERS — Isso desagrada-me à partida. Ter que contribuir? Eu quero é receber qualquer coisa!

WITZELING — É essa a questão! Ele dá-te um "nada", mas que ainda assim é "qualquer coisa".

SEEGERS — E o que é que isso tem a ver com arte? Isso é a minha vida!

WITZELING — Exacto. Ele não quer separar a arte e a vida. Tudo o que acontece acaba por ter um valor.

SEEGERS — De acordo com a minha ideia de arte, vejo esse tipo de jogo amador como uma traição à própria arte. Se eu convido um artista a vir a minha casa por 100 euros, espero ver algo especial. E para além dos postais ilustrados de Lisboa, quero poder dizer no fim: aconteceu algo artístico em minha casa.

WITZELING — E é esse o objectivo. A questão é ele estar perfeitamente treinado para algo, mas recusar-se a fazê-lo. Prefere usar a sua condição de estrangeiro e brincar com as tuas expectativas.

SEEGERS — Desculpa, mas isso não é arte, é charlatanismo: alguém que se diz artista recusar a própria arte. Eu não vi, mas julgo que ter-me-ia sentido defraudada.

WITZELING — Eu vi e não me senti defraudado. Achei muito interessante.

SEEGERS — Mas tu disseste-me que dormiste mal nessa noite. 

WITZELING — Acordei por volta das 6 da manhã. O que aconteceu intrigou-me. Seja como for, ele até concordaria contigo: se dizes "isto não é arte", então se calhar estás com ele.

SEEGERS — O não-evento intrigou-te? Parece que contigo a arte funciona em pequenas doses homeopáticas. Quanto a mim, preciso de algo mais. Temos definitivamente opiniões diferentes.

in Hamburger Abendblatt, 10.08.2007