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terça-feira, outubro 18, 2011

projecto de documentação.

TEASER #05
TESTEMUNHOS EX-ESPECTADORES


A Oportunidade do Espectador

O título é o mesmo do projecto que se seguiu à conclusão da trilogia Vou A Tua Casa, cujo elemento mais importante de inflexão teórica e conceptual terá sido a figura do espectador enquanto catalizador de experiências performativas várias: performances, conferências, workshops, master classes, documentação de processos criativos, ensaios, acções terroristas, etc. O conjunto de textos que aqui se apresenta, na forma de testemunhos pessoais e transmissíveis, e na voz de quem assistiu a uma ou várias partes da trilogia "Vou A Tua Casa", foi, assim, o primeiríssimo tubo de ensaio que conduziu ao desenho estrutural do projecto A Oportunidade do Espectador; alguns destes "pensadores" foram posteriormente convidados a integrar o projecto na condição de observadores privilegiados ("Selecção de Esperanças"), com resultados textuais que serão publicados em catálogo online no início do próximo ano. Este bloco significa também, e por isso, uma abertura do Projecto de Documentação à linha de trabalho que se seguiu, mas também uma homenagem a todas as pessoas que por diversas razões aceitaram ser atravessadas por um projecto artístico que as pôs em causa, não só enquanto espectadores, mas também enquanto seres humanos.

Autores: Luísa Casella, Susana Chiocca, Joana Baptista Costa & Mariana Leão, Guilherme Ferreira, Dinis Machado, Marisa Teixeira, João Madeira, Filipe Coutinho, Laura Bañuelos, Beatriz Portugal, Vânia Teixeira, Carla Capeto, Marisa Salvador, Carina Costa, Nuno Quintas, Tiago Neves, Pedro Gomes e Maria de Assis, cujo texto seleccionámos para apresentar nesta pré-publicação online. Outros testemunhos podem ser lidos aqui.


©Luísa Casella, "Ne Me Quittes Pas", fotografia & desenho, Nova Iorque, 2007.



(sem título)
por Maria de Assis

Tudo isto que vou dizer é real hoje, mas não necessariamente aquilo que aconteceu. Divertida esta tentativa de reconstituir uma situação que o tempo diluiu deixando uns gorgulhos aqui e acolá, acções mais duras ou mais resistentes, que não se deixaram liquefazer, vá-se lá saber porquê… O momento do embate deu-se com a leitura de uma agenda cultural electrónica. Dava-se como responsável o autor/actor Rogério Nuno Costa. Não retive o nome, apenas a proposta. Tempo: vago, cerca de um ano antes do acontecimento. Na minha casa: há talvez três anos? Foi isso, o pensamento agarrou essa ideia estranha, que me engravidou o pensamento. Ficou lá latente, produzindo teimosamente cenários imaginados, a querer presentificar o futuro. Mas faltava-me o contexto... A coragem? De pegar no telefone e pôr a imaginação à prova. Aconteceu quando uma amiga me disse que já tinha experimentado, dissipando algumas possibilidades menos desejáveis que a imaginação também tinha forjado. E foi ela que pegou no telefone e marcou. Mais tarde perguntei-me sobre o que teria mudado se não fosse ela a telefonar, que já o conhecia. Desfez-se um pouco da surpresa que faz parte das premissas... Aliás, faz sentido falar nas premissas. Foram elas que me prenderam à proposta em primeiro lugar. Atraem-me as propostas que se movem em território “neutro”, sem fronteiras definidas sobre quem é quem, como se faz e o que se espera. O “Vou A Tua Casa” era uma promessa disto e muito mais. Quando o Rogério veio a minha casa apareceu com alguns objectos. Recordo alguns livros, não faço ideia de quais, um rádio, velas, fósforos, papéis para escrever [N.E. As velas não faziam, de facto, parte dos adereços da performance.]… Já não me lembro de quem cá estava para além de mim, da minha amiga e do meu marido. Ficou-se pela sala e cozinha. Liderou sempre a situação, ganhando confiança com o passar do tempo. Construiu-a à maneira de um ritual de iniciação ao encontro do outro, ou seja, procurou sentir a vibração da casa, dos objectos e das pessoas, devolvendo-nos, em contraponto poético, o seu entendimento de nós ali. Deixou-me as paredes marcadas de papéis colados com palavras-chave. Já não me lembro das palavras. Quando partiu ofereci-lhe um candelabro. Recordo que a segurança de estar em minha casa e a predilecção já confessada de testar as regras e os códigos de comportamento em situações novas me fez participar no jogo de forma um pouco mais activa que os outros, ou seja, a relação que estabelecemos ali, eu e o Rogério, tornou-se o espectáculo dos outros. Penso que, enquanto espectáculo, para os outros a proposta não teve metade da graça que teve para mim. Penso que a proposta do Rogério é para saborear vivendo, aproveitando esse território “neutro” para medir distâncias, gozar a capacidade de interferir no decorrer da acção, observar as reacções e continuar a decidir, passo a passo, se faço ou não faço, se estou a fazer demais ou de menos, se estou ou não a ultrapassar os limites da tolerância, da liberdade e do respeito mútuo num lugar esvaziado de referentes, lugar em que o autor se nega através do conceito que propõe, abolindo as categorias convencionadas de autor, actor e espectador. O meu fascínio por estas questões corresponde obviamente à consciência que elas se nos colocam permanentemente no dia-a-dia, ou melhor, que não as colocamos a nós próprios com a frequência e a intensidade que mereciam… Por isso temos tantas vezes a sensação de viver como espectadores da vida. Uma espécie de desafio às regras e aos códigos que conhecemos e que ali são testados e redefinidos em função das respostas a perguntas recorrentes: o que é isto? que estão a fazer? que querem dizer?

[Maria de Assis é gestora cultural. Foi espectadora do Vou A Tua Casa/Lado A em Lisboa, em 2004.]



Mais um teaser que antecede a pré-publicação online e parcial de Vou A Tua Casa/Projecto de Documentação [livro e vídeo-documentário] num website que será disponibilizado dia 21 de Outubro de 2011. A seguir!

quarta-feira, janeiro 23, 2008

o espectáculo continua.

Envie-se por escrito: são horas! Há correio. Mãos pela cara. Não quero não quero acordar. Não quero encarar, não querer acordar como um qualquer derrotismo de 'ter que' e outras obrigatoriedades: flash; ontem; flash; contra-luz; flash, a projecção dos pontinhos de sol filtrados pelos estores ainda a meia-parede. É certamente manhã, nem considero a alternativa. Sonhei outra vez no século XVII. O anti-barroco à socapa escapa-me pelo sonho que digo recorrente. Vergonha. Não divulgo isto, não divulgo o que quereria dizer, não divulgo a resistência em ouvir isto. Uns-e-outros. Esferas que não espero que se intersectem além da cordialidade. Ilustro: dá-me gozo vê-la a dialogar como grande sofrida pela vida. Claro claro claro. Eu quando concordo, abstenho. Digo-que-sim (código universal que me poupa), claro claro claro claro, sim sim pac pac pac woof peef paf; assim foi ontem. O Rogério... O tempo. Imaginas-te? (eu à bom psicopatológico desdobro-me noutro para que possa concordar comigo próprio ou outras repulsões, a coerência é abundante.) Imaginas-te? O tempo… Que passou nisto… E é tão bonito. É que é mesmo isto do eixo norte-sul, do ser transportado interveniente que se diz observador. Dizemo-nos observadores na comunhão com um Próximo que exala emotividade e lhes guardamos um registo. Não os quero totalmente extremados, confesso. Era-me fácil ir à porta das urgências vê-los de goela pela dignidade humana. Um piano lhes caia em cima. Há uma unha de voyeurismo que na documentação asséptica e pouco adjectivada se torna num qualquer registo do momento. Mas não quero mesmo divagar. Volto ao dia do correio matinal, do teu caderno pela manhã e a… consequente gaguez de expressar gratidão. A coreografia do ensaio da resposta, vês? Era escrever-te ponto por ponto. Era tornar um discurso fluido por tabela. Decido em substituição desse pressuposto narrar este preciso momento. Recolhi memórias desde que te recebi por escrito. De uma das gavetas de generalizações onde enfio invariavelmente as pessoas; lembro-me que nem pelo meu esforço consigo que, quer num meio laboral ou académico, se deixem dos universos imediatos e tangíveis. Ele é a frequência que 'bué grande e não dava para nada', o gerente que 'ele está como quer, vem às horas que quer e sai quando lhe apetece'. Dizer-te enfim, como isto me angustia. 'Seeing inside the box'. E eu, claro, ter que cair no queixume. Foi aqui que caíste na quinta-feira. Tanto obrigado pela ruptura. Tanto tanto quis dizer-to até

agora.

[ex-espectador, 2006]

quarta-feira, agosto 29, 2007

voxpop, #18.

EU NÃO VOU AO TEATRO...
por Luísa Casella


©Luísa Casella


…porque amo o teatro não vou. Porque não encontro o que já tive no teatro de forma única. Deixei de ir para não me angustiar: [não vêem que não é isto?]. Então o teatro veio a minha casa. Com o Rogério. Cinco anos de seca já haviam passado desde a minha última tentativa — um Hamlet que estrangulou a minha Ofélia com trejeitos de neurótica [não é nada disto, não vêem?]. O teatro veio a minha casa por causa da Ofélia, justamente, a minha Ofélia subaquática em infravermelho que o Rogério viu na exposição final do Ar.Co. Nessa altura estava ele [o Rogério] a fazer a sua Ophelia [é mesmo isto!]. Fizemos fotografias da Marina [tão linda a Marina!] debaixo de água, com flores de plástico que eu pintei de preto com tinta da China e que começaram a tingir a água das piscinas do Ateneu de roxo [ai, Luísa, ai ai]. Veio mais tarde a minha casa, ele, o Rogério, com o teatro que é ele mesmo: mais que teatro, mais que dança, mais que expressão — é a vida própria do Rogério [com 24 anos!, eu não podia acreditar…]. O Rogério gostou das minhas fotografias — fizemos o cartaz do Vou A Tua Casa, eu ainda não sabia o que era. Um dia foi a minha vez. Fui a tua casa, Rogério, ver. Ser o teu tu. E fotografar. No início pensei: "Não é nada disto, não percebo o teatro, é dança?, eu não sou deste grupo". Estava espectadora de fora — não sabia que nas tuas peças, Rogério, isso não se pode fazer. Não estamos de fora, somos o teu tu [que medo!, tens uma lata, Rogério!]. Foste-me puxando para dentro do teu mundo; na casa-de-banho deste-me uma chapada valente [eu a tentar trabalhar, fazer as fotografias, e tu a mandares-me bilhetinhos, a apontar-me os meus medos, os meus defeitos, a acusar-me de tudo o que fiz e não fiz para que o amor tivesse terminado — maldito sejas, Roger!]. Depois, no quarto, "Laisse-moi devenir, l’ombre de ton ombre, l’ombre de ta main, l’ombre de ton chien", já num pranto das vezes que quis ser a sombra do teu cão, enquanto ele queria ser a sombra da minha mão [maldito sejas, Rogério Nuno, eu só vim aqui para trabalhar, como posso fotografar através das lágrimas, homem?!]. Termina. Sais de casa. Pausa [o que é que eu tenho?, eu não estou bem de certeza!, deve ser algum esgotamento]. Voltaste com um sorriso. Eu disse que não estava à espera, que era muito forte. Tu disseste: "Não, tu é que estás muito sensível". Quando passaram quatro anos (que pena não serem 5, seria tão apropriado…) não voltei ao teatro.

terça-feira, julho 17, 2007

voxpop, #17.

O INÍCIO E O FIM
por Ruben Coelho

[via MSN]


©Linda Montano & Tehching Hsieh [screen shot from the DVD Art/Life, One Year Performance1983/84.


Rogério diz:
Mostra lá o que escreveste...

Ruben diz:
Uma viagem ao centro de Rogério Nuno Costa. Mas feita mais através de insinuações do que mediante indicações directas. (...) No que acaba por se tornar no aspecto mais desconcertante de todo o conceito: a exposição pessoal, o contacto pessoal, a entrega de si próprio a alguém, a um público, que pode optar por não retribuir. Rogério Nuno Costa torna-se público de e para um espectador privado.

Ruben diz:
...sendo que "(...)" corresponde a um texto que acabou por nunca ter sido escrito.

Rogério diz:
Posso publicar assim, sem "meio"?

Ruben diz:
Uhmm?... Está bem!


[Ruben Coelho foi espectador do Lado C.]

quinta-feira, maio 17, 2007

voxpop, #16.

PROLONGAMENTO
por Susana Chiocca


Tudo é de extrema importância, a pessoa, o autor, o inter-actor (1), o espaço envolvente, o lugar, o local, o macro e o ínfimo; o que se experiencia, o que se sente e atende e o que se pensa e sente depois do acontecimento (2). Tudo começa antes. Tudo começa no encontro com um anúncio num jornal, ou com um amigo que nos informa — a decisão de telefonar, a marcação, a recepção do autor em nossa casa (Lado A). Todas as questões de comportamento social, perante a recepção de um desconhecido em nossa casa, são pensadas: quais as condições ideais para a mesma, o que manter, o que mudar, de que forma actuar?; ou algo tão simples como o primeiro contacto: fará sentido convidá-lo para tomar alguma coisa, ou simplesmente esperar e observar o que nos traz? Trata-se de um desconhecido especial, alguém que se predispõe a deslocar-se a nossa casa e a viver um momento específico connosco, numa espécie de exclusividade e concomitância. Tudo se transfere quando somos recebidos em casa do autor (Lado C), pelo que surgem questões muito semelhantes no que se refere à actuação: como estar, como falar, como observar, como comer? No fundo, como ser? O facto de se telefonar a marcar um espectáculo em nossa casa, ou “a caminho” (Lado B) significa já um desafio. Ambos, actor e inter-actor, estão dispostos a saírem do seu lugar confortável, convencional e protegido, para conceberem algo em comum (3). Ambos desejam que o encontro ocorra num outro espaço à margem do palco distanciado e de barreiras impostas. Com o objectivo de criar um novo palco, um palco ideal como “espaço de troca que fica entre o meu corpo e o teu” (4). Afinal, o aqui e agora existe no encontro de possibilidades desconhecidas, na aproximação e transpiração das nossas peles. Estar, ver, observar, tocar, ampliar, significar um ínfimo, um momento; no meio da multidão, num jardim, numa praça, numa esplanada, sentados, ou pelo caminho (5). São aproximações que relembram as experiências de Lygia Clark e de Hélio Oiticica, que foram ao longo da sua actividade artística intensificando a tão requerida integração e participação do espectador. Clark passa particularmente de uma progressiva e quase anulação do objecto, através da participação dialogante entre dois corpos (por exemplo, o Diálogo de Mãos, de 1966), para uma criação e participação de um grupo, de um colectivo (6), como os trabalhos Arquitecturas Biológicas I e II e Estruturas Vivas (ambos de 1969) ou Baba Antropofágica (1973) — “(…) a participação é cada vez maior. Não existe mais o objecto para expressar qualquer conceito, mas sim para o espectador atingir cada vez mais profundamente o seu próprio eu” (7). O objecto passa a ser o próprio corpo, as próprias vivências, tal como Rogério Nuno Costa opera no seu trabalho. Um corpo que é diferente de outros corpos, o que implica sentidos diferentes, respostas também diversas, interacções e palpações próprias. Reflectidas na forma como se recebe, na especificidade do lugar que envolve os dois corpos, o som/ruído, a vestimenta que os encobre, o que se partilha; algo particular e irrepetível. Dois corpos em verdadeira inter-acção, os seus papéis podem inter-mutar-se, assim como a própria fruição: ambos podem guiar o encontro e o diálogo vai-se estabelecendo num certo equilíbrio. Tudo fica em aberto, tudo continua. O contacto perde-se no tempo, pelas ilimitadas possibilidades de abertura e desenvolvimento do encontro, prolongando-se até o nosso desejo cessar, se é que nos apercebemos desse fim.

Susana Chiocca, 32 anos
[artista e investigadora em arte contemporânea]


NOTAS:

(1) Pela necessidade de encontrar um conceito que melhor se adeque às proposições artísticas contemporâneas e, neste caso específico, das artes performativas, e numa relação directa com os pressupostos de Lygia Clark com a questão do espectador-actor (ou do participante de Hélio Oiticica), surge o conceito de inter-actor. Inter-actor porque inter-age; porque é um inter-mediário entre a performance e o performer; porque torna possível aquilo que vê acontecer e que faz acontecer; porque lê, absorve, filtra, reincorpora e age, move e faz mover esse fluxo, essa transferência concedida originalmente pelo autor.

(2) “Para mim, é muito mais importante o que o público experiencia antes de chegar, as expectativas que cria, a ansiedade que tem, e também aquilo que experiencia depois de existir, as coisas que vai pensar a seguir, a maneira como vai falar do espectáculo com outras pessoas”, em entrevista realizada a Rogério Nuno Costa (Julho de 2006).

(3) Como refere José A. Sanchez, “Para que el espectador entre en el juego, es preciso que, como los(as) propios(as) creadores(as), rompa su equilibrio”, em Pensando con el cuerpo, Desviaciones, p. 27.

(4) Em entrevista realizada a Rogério Nuno Costa (Julho de 2006).

(5) Novos lugares: o trabalho de Rogério Nuno Costa questiona o lugar de apresentação, acabando por sair à rua. Será então necessário repensar as características dos variados espaços de apresentação (salas, auditórios, galerias), sobretudo quando se tratam de trabalhos que fogem à tradicional relação com o público – a plateia à italiana. O seu carácter convencional consegue ou poderá ainda corresponder às exigências de criadores e da própria inter-relação com o seu público? Será apropriada uma arte relacional (como defende Nicolas Bourriaud) e de aproximação com o outro que possa ainda ser vivida dentro de estruturas convencionais? Haverá ou não a necessidade de um novo espaço para um novo espectador? Terão as salas convencionais a capacidade de continuar a permutarem-se de forma a corresponderem às novas exigências tanto de criadores como de inter-actores?

(6) Trata-se de “(…) uma arquitectura viva, na qual o homem, através de sua expressão gestual, constrói um sistema biológico que é um verdadeiro tecido celular”, Lygia Clark, O corpo é a casa: sexualidade, invasão do território individual, in VV.AA., Lygia Clark, 1998, p. 247.

(7) Ibidem, p. 236.

terça-feira, abril 24, 2007

voxpop, #15.

CLUBE DAS PESSOAS
que se juntam para comemorar


por Joana Costa & Mariana Leão


E-mail: Querido Rogério, faz já algum tempo desde que visitaste a nossa casa. Desde aí muita coisa mudou. Conhecemo-nos num período de mudanças e isso nunca se esquece. Nessa noite, escreveste em papel vermelho e colocaste numa das janelas onde jantávamos: "Clube das pessoas que se juntam para comemorar (jantar semanal)". Essa casa, esse local, essas pessoas, esse jantar, evocam memórias. E é à luz dessas lembranças que te escrevemos este texto. Sabemos que, se hoje ele é escrito desta forma, é porque muitas coisas entretanto se alteraram. Foi uma noite muito especial, porque estará sempre associada a momentos muito felizes.



Falar de públicos é falar de pessoas que de uma forma mais ou menos cómoda são também espectadores. Disseste, quando nos apareceste por casa, que não era essa a tua intenção. Um espectáculo repete-se invariavelmente, independentemente dos espectadores que a ele assistem. Tomaste as pessoas, nas suas variações e diferenças, como parte essencial daquilo que fizeste. E o que fizeste foi profundamente influenciado por elas. E que pessoas são essas? São pessoas que se conhecem e que combinam receber-te, a ti, desconhecido, num lugar privado e íntimo, e por isso diferentes do espectador que vai a um local assistir a um espectáculo, com outros estranhos, e que no final caminha para casa. Aqui invertem-se os papéis. Falar de pessoas é também falar de memórias e de afectos, e é isso que se explora aqui. Este encontro está invariavelmente preso a um local e a uma memória muito específicos. Está preso à luz de um tempo que passou, e que traz consigo esse rol infinito de memórias queridas a uma casa, a um lugar, a um grupo. Apesar das características imediatas desses momentos contigo — há um lado afectivo neste encontro combinado —, a tua matéria de trabalho (as pessoas) surge instantaneamente como essencial. Durante os primeiros momentos que passaste em nossa casa, lembro-me de ter pensado: "Mas ele não faz nada? Então mas onde está o espectáculo?". Era suposto fazeres alguma coisa, para que nós pudéssemos ver. Esta relação entre o que se faz e o que se vê não está retirada; na verdade, continua a existir. Tu és o centro de todas as nossas atenções, na medida em que não te conhecemos. Ao longo da noite, chega-se a uma conclusão: todos temos motivos para alguma comemoração, todos temos matéria para o espectáculo. E foi esse o motivo para os nossos brindes, que fizemos com o vinho que comprámos em conjunto no supermercado mais próximo. Estávamos entre amigos, e enquanto cozinhávamos, descobríamos pequenos nadas que nos ligavam. É algo que sempre fizemos: cozinhar e receber em casa aqueles de quem mais gostamos, e tu estavas connosco. Brevemente, foi assim. Não houve malabarismos, nem "espectáculo". Naturalmente esquecemo-nos que horas antes nos encontrávamos cheios de expectativas sobre o que iria conhecer. Tínhamos imaginado possíveis cenários, habituados que estávamos a situações semelhantes fora do nosso espaço. Há naturalmente representação, mas trata-se de meros efeitos momentâneos, que são desde logo apreendidos. A tua representação conheceu um momento exacto, uma situação muito particular, e foi nesse tempo, nessa representação única e que não se repete, que residiu toda a sua naturalidade. E isto foi um momento de festejo e de celebração: celebrámos a valorização da experiência e das distâncias entre as pessoas, num espaço e num tempo que se revelou muito importante para nós. Obrigada, Rogério.

Joana & Mariana, designers gráficas
[Caldas da Rainha, 2007]

domingo, abril 15, 2007

voxpop, #14.

NA 2.ª PESSOA DO SINGULAR
Ou: de um grande ego para um ego grande

por Guilherme Ferreira


Nunca sei como começar o que quer que seja… Dizem-me sempre que comece pelo princípio, e como tal será por ele que vou começar. Conhecemo-nos em Setembro de 2005, após um série de mails trocados. Descobrimos pelos respectivos blogs que frequentávamos a mesma faculdade: um mero (e para mim, feliz) acaso. Nesses mails falámos essencialmente do teu trabalho – eu sentia-me deveras curioso em conhecer de perto algo que entrava em conflito com uma série de preceitos antropológicos, com os quais tinha convivido nos últimos 3 anos, nomeadamente os que respeitavam à ética. Objectos artísticos eram coisa sobre a qual me debruçava parcamente nesse tempo, e parece que foi há tanto tempo. Lembro-me que andei num estado mental perto do bipolar durante uns tempos, mais ou menos até à primeira performance a que assisti e em que participei: a segunda parte do Vou A Tua Casa — No Caminho. Lia o teu blog insistentemente; lembro-me que retrocedi mais ou menos uns seis meses ou mais nos posts; tentava perceber como funcionava o projecto, perceber como era possível alguém viver dentro daquilo que eu achava ser uma imensa peça de teatro. Na altura, performance era um conceito estranho para mim, e era-me difícil concebê-la como tu a fazias. Foste tu quem decidiu quando e onde começava a performance, e eu limitei-me a seguir as instruções (por vezes, deveras contrariado!). Conhecemo-nos pessoalmente numa tarde de Setembro, no Centro de Informática, e uns dias depois combinaste irmos beber café, lugar onde decorreria a performance. A coisa correu... bem ou mal, não sabia dizer na altura. Ainda guardo o papel que me deixaste no final: “Mesmo sendo verdade, vais achar sempre que estou a representar”. Não me lembro bem como ou porquê, mas decidi que, não compreendendo o que era isso da performance, iria trabalhar sobre ela quando tivesse oportunidade. E a mesma surgiu no decorrer de semanas, quando me foi pedido um trabalho de tema livre em que fosse utilizado um qualquer tipo de "entrevista" de carácter antropológico. O ensaio chamou-se “Mesmo sendo verdade vais achar sempre que estou a representar”. Antes do final do ano, assisti a mais um espectáculo, desta feita da série FUI. Durante o ano seguinte (é-me difícil distingui-lo por fases, semestres, trimestres, o que seja...) tentei seguir-te, no teu percurso e no teu pensamento. Estive em Braga, no Museu dos Biscainhos, onde estava instalada uma outra performance da série FUI; assisti a mais dois espectáculos da mesma série (já em Lisboa) e, perto do Verão – se a memória não me falha –, fui convidado por 4 alunas do curso de Comunicação Social, que possuíam o mesmo interesse fervoroso pelo teu trabalho, a participar num documentário sobre o Vou A Tua Casa. Fiz mais dois trabalhos sobre performance, nesse ano. Um deles figurou, em parte, e com grande prazer meu, no teu blog. Era como uma espécie de reconhecimento para mim: eras (e ainda és) o meu professor. Antes do fim do ano, consegui ainda assistir à última parte do projecto: Lado C. Lembro-me que lá pelo meio havia uma referência a algo escrito por mim… Sempre tiveste o dom de me deixar... “coiso”. Lembro-me também que estava extremamente inquieto e aterrado. Havia qualquer coisa de muito familiar naquela sala, naquela casa, naquele lanche – era só uma sala de uma casa onde se lanchava – que nem eu percebi o que era. O desconfortável deu lugar ao confortável, o medo deu lugar à segurança: eram 6 ou 7 elementos de uma família, ou algo que muito se assemelhava a... Fomos ao teatro, almoçámos juntos, bebemos cafés, eu fumei muitos cigarros. Decidi que a produção artística seria a minha área de análise primordial: escolhi disciplinas da área, inscrevi-me no seminário de final de curso, do qual resultará (se a levar a bom porto) a tese que escolhi escrever. É a minha batalha… Outro dia, sentado no banco do metro, pensava que raio iria escrever para ti; subitamente, apercebi-me do que queria dizer, para mim: life-zone! Depois de ter “tropeçado” no teu trabalho enquanto artista, e de ter decidido escrever sobre ele (e invariavelmente sobre ti), vi-me obrigado a libertar-me de uma série de categorias conceptuais, pelo simples facto de que não eram operatórias; pior: não me deixavam ver aquilo que pretendia. Disse em cima que parecia ter passado muito tempo desde que te conheci (e sim, é-me difícil dissociar o que fazes de ti, porque vos conheci em simultâneo) – não sei se pode considerar-se uma imensidão de tempo, mas pode considerar-se uma quantidade considerável de pensamento, que me fez crescer, e que mudou a minha maneira de ver uma série de coisas e me despertou para uma outra série delas. A minha batalha é-o por tua causa, porque também tiveste a tua. Disseste-me na entrevista que a performance era algo exterior a ti… Não sou performer, nunca o vou ser (não me está no sangue!), mas sei de alguma maneira que é lá que estou também – essa é a minha life-zone, este lugar cá fora, o lugar para onde fui puxado e de onde não quis mais sair. Vou terminar de uma forma pouco original, mas que considero válida (ainda), e espero poder considerá-la assim durante muito tempo:

“O Rogério faz coisas que metem medo. O Rogério faz coisas que nos podem comover. O Rogério faz coisas muito bonitas. Já ouvi dizer que também faz porcaria. Ele faz muitas coisas com o esforço de quem não faz nada. Mas o que eu acho que ele faz mesmo... (pausa) ele vive.” [entrevista de Vera Moutinho, Catarina Santana, Rita Henriques & Marta Pais Lopes a Guilherme Ferreira, in "Vou A Tua Casa [documentário]", Escola Superior de Comunicação Social]



Guilherme Ferreira, antropólogo
22 de Março de 2007, 01:37

quinta-feira, março 22, 2007

voxpop, #13.

ARTE POBRE
Dinis Machado


foto ©Dinis Machado


Chegado recentemente a Lisboa, o primeiro contacto que tive com o Vou A Tua Casa foi através da primeira Agenda de Lisboa, volume mensal bastante gordo comparado com o seu equivalente trimestral portuense. Como dizia, nessa agenda vinha uma entrevista ao Rogério, cujo projecto, que penso ainda andava pelo Lado A, me pareceu curioso — sempre me agradou a capacidade de fazer arte pobre — ser capaz de criar sentidos com a caixa dos cereais, com o bibelot dos Chineses ou, neste caso, com um computador e um projector — e parece-me que este reciclar da casa dos outros, da rua (casa de todos), e da sua própria casa é um extremar desta intenção de não fazer a arte depender dos meios. Desenrascou-se e fez o seu desenrasque fazer sentido. Mas mais do que isto lembro-me que o Rogério falava nessa entrevista que era no Bairro Alto que costumava ver os cartazes das "coisas" que ia ver. Fui verificar, os cartazes estavam realmente por toda a parte, gostei, e desde aí fiquei por lá a viver. Nunca mais ouvi falar do Rogério até me cruzar com o Lado C (o único que conheço) no Festival Alkantara. Falar da performance em si parece-me uma tarefa complicada, senti-a como uma espécie de brainstorming gigante do qual, com o puré de batata-doce pelo meio, não apanhei metade, o que tem o seu lado positivo — o Rogério fala muito — há que filtrar. Mas o que mais me marcou foram os discursos sobre o caminho: havia algo de homérico no discurso; o Rogério falava-nos desta personagem que é ele próprio como alguém que deixou o “conforto das suas origens” para se construir, para construir uma nova morada, porque as moradas não se procuram, constroem-se. E este é um percurso trágico, porque se constrói com ilusões que não se encontram ao chegar, ou que quando se encontram vão-se desvanecendo. Como por essa altura também eu estava desiludido com a Lisboa que tinha encontrado, lembro-me particularmente de uma passagem em que o Rogério dizia (qualquer coisa como): “Deixei o campo pensando que iria viver numa grande cidade, mas o que encontrei foi um grande campo. Campo por campo, prefiro o original.” Assim, a grande questão deste trabalho, para mim, foi a construção, a construção de um caminho em que nos forçamos a andar e a construção paralela de uma casa/abrigo onde nos sentimos bem e podemos descansar.

Dinis Machado, 20 anos, actor.

terça-feira, março 06, 2007

voxpop, #12.

QUECORREMPORBAIXODOSPÉS
Marisa Teixeira


Mail:

Olá Rogério, quando pensei enviar-te um texto com a descrição da minha experiência do Vou A Tua Casa, logo de seguida surgiu-me a memória de uma experiência que já tinha transcrito para papel e foi inevitável a analogia, por isso, acho que é esta a minha descrição do momento que vivi e que vivo do Vou A Tua Casa. São estes encontros... Obrigada:

Deixei para trás e tropecei na pressa de querer o que não estava presente / Recordo a vergonha de retirar a cama escondida na poltrona do piso superior onde faz frio / E também corro por baixo dos pés / Não tropecei mas deslizei na neve que não deixava as botas assentar / E percebi que nesse limite da experimentação a palavra torna-se em demasia / E deixei-o a apanhar frio tremendo as pernas como uma tesoura desesperadamente cortando um tecido demasiadamente fino / Tens frio então vai para casa / Eu fico aqui / Na Bodyshop provei strawberry, mango, coconut, passion fruit, vanilla e uns que diziam fresh / Acabei por trazer um pack e sentei-me à espera do próximo voo.


Marisa Teixeira, estudante, Caldas da Rainha.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

voxpop, #11.

FIZ-ME AO CAMINHO
João Madeira


Foi-me colocado o desafio por um amigo. Não te conhecia, mas estava relativamente familiarizado com o teu trabalho. “Desafio”, entenda-se, para quem encara a realidade de forma irremediavelmente solipsista. Este foi um acto isolado, até à data. Muni-me de ânimo leve para ser conduzido (ou conduzir-me?) a quebrar os moldes de um quotidiano céptico e escrupulosamente controlado. Poderia, quando muito, entrar nalgum tipo de manipulação jovial... Em vez disso, deparei-me com um observador algo críptico mas muito determinado. Percebi que o percurso que nos propúnhamos não se iria pautar pela previsibilidade e que qualquer ideia feita cairia por terra. De repente ali estava eu, cavaleiro teutónico apeado, sem arma de recurso. Expus-me despropositadamente, investi na sinceridade (talvez contra ela, em determinados momentos), calibrei os meus gestos à medida do que achava ser conveniente, sem nunca encontrar o tom certo. Não porque os momentos fossem átonos. Pelo contrário, estava eu a falar alto demais, a pensar alto demais, a agir alto demais. Só tarde percebi que não se tratava de um passeio peripatético. Encontrava-me já demasiado encorreado para admitir que, no meu caso, se tratava de silêncio e de aceitação. Tratava-se de perceber que o auto-controlo é proporcional às expectativas que construímos. O domínio sobre a nossa percepção dos outros e dos espaços que nos rodeiam é um desígnio inútil. Foi uma experiência interessante e dolorosa de descentração. Até pelos locais escolhidos ou encontrados – pontos cardinais (mas até então afastados) da minha vivência feliz em Lisboa. Disso, porém, só me apercebi mais tarde. Na altura só via reflexos intransigentes das minhas inquietações, destacados dos cenários. Senti frio, mas agradeço teres puxado o edredon. O frio desperta.

João Madeira, 34 anos, publicitário




terça-feira, janeiro 30, 2007

voxpop, #10.

VOU A TUA CASA
Filipe Coutinho

O Vou A Tua Casa que aconteceu na primeira fase da trilogia, na minha casa e da Selma, foi um acontecimento que teve uma dimensão estranha. Difusa. Por um lado estava um amigo em minha casa a simular que era o meu amigo, ao mesmo tempo estava o actor a trabalhar com: (como uma espécie de material narrativo) o espaço da casa e a vida (presença) dos espectadores. Lembro-me do sentimento que tive quando acabou: valeu a pena; esta é uma ideia forte; funciona. Território mental: sem conceptualizações excessivas e inevitavelmente irreflectidas, imaginei as reflexões que o autor poderia ter sobre cada “ida a casa”, e que gostaria de saber quais seriam enquanto o Rogério se movimentava, de metro ou táxi, de uma para outra casa. Esse seria o momento de preparação da intuição?



[Filipe Coutinho é arquitecto e cenógrafo.]

segunda-feira, janeiro 22, 2007

voxpop, #9.

VOU A TUA CASA
Maria de Assis



Tudo isto que vou dizer é real hoje, mas não necessariamente aquilo que aconteceu. Divertida esta tentativa de reconstituir uma situação que o tempo diluiu deixando uns gorgulhos aqui e acolá, acções mais duras ou mais resistentes, que não se deixaram liquefazer, vá-se lá saber porquê… O momento do embate deu-se com a leitura de uma agenda cultural electrónica. Dava-se como responsável o autor/actor Rogério Nuno Costa. Não retive o nome, apenas a proposta. Tempo: vago, cerca de um ano antes do acontecimento. Na minha casa: há talvez três anos? Foi isso, o pensamento agarrou essa ideia estranha, que me engravidou o pensamento. Ficou lá latente, produzindo teimosamente cenários imaginados, a querer presentificar o futuro. Mas faltava-me o contexto... A coragem? De pegar no telefone e pôr a imaginação à prova. Aconteceu quando uma amiga me disse que já tinha experimentado, dissipando algumas possibilidades menos desejáveis que a imaginação também tinha forjado. E foi ela que pegou no telefone e marcou. Mais tarde perguntei-me sobre o que teria mudado se não fosse ela a telefonar, que já o conhecia. Desfez-se um pouco da surpresa que faz parte das premissas... Aliás, faz sentido falar nas premissas… Foram elas que me prenderam à proposta em primeiro lugar. Atraem-me as propostas que se movem em território “neutro”, sem fronteiras definidas sobre quem é quem, como se faz e o que se espera. O Vou A Tua Casa era uma promessa disto e muito mais. Quando o Rogério veio a minha casa apareceu com alguns objectos. Recordo alguns livros, não faço ideia de quais, um rádio, velas, fósforos, papéis para escrever… Já não me lembro de quem cá estava para além de mim, da minha amiga e do meu marido. Ficou-se pela sala e cozinha. Liderou sempre a situação, ganhando confiança com o passar do tempo. Construiu-a à maneira de um ritual de iniciação ao encontro do outro, ou seja, procurou sentir a vibração da casa, dos objectos e das pessoas, devolvendo-nos, em contraponto poético, o seu entendimento de nós ali. Deixou-me as paredes marcadas de papéis colados com palavras-chave. Já não me lembro das palavras. Quando partiu ofereci-lhe um candelabro. Recordo que a segurança de estar em minha casa e a predilecção já confessada de testar as regras e os códigos de comportamento em situações novas me fez participar no jogo de forma um pouco mais activa que os outros, ou seja, a relação que estabelecemos ali, eu e o Rogério, tornou-se o espectáculo dos outros. Penso que, enquanto espectáculo, para os outros a proposta não teve metade da graça que teve para mim. Penso que a proposta do Rogério é para saborear vivendo, aproveitando esse território “neutro” para medir distâncias, gozar a capacidade de interferir no decorrer da acção, observar as reacções e continuar a decidir, passo a passo, se faço ou não faço, se estou a fazer demais ou de menos, se estou ou não a ultrapassar os limites da tolerância, da liberdade e do respeito mútuo num lugar esvaziado de referentes, lugar em que o autor se nega através do conceito que propõe, abolindo as categorias convencionadas de autor, actor e espectador. O meu fascínio por estas questões corresponde obviamente à consciência que elas se nos colocam permanentemente no dia-a-dia, ou melhor, que não as colocamos a nós próprios com a frequência e a intensidade que mereciam… Por isso temos tantas vezes a sensação de viver como espectadores da vida. Uma espécie de desafio às regras e aos códigos que conhecemos e que ali são testados e redefinidos em função das respostas a perguntas recorrentes: O que é isto? Que estão a fazer? Que querem dizer?

[Maria de Assis, 50 anos, gestora cultural]

quarta-feira, janeiro 10, 2007

voxpop, #8.

FUI ESPECTADORA
Laura Bañuelos


Fui espectadora do Vou A Tua Casa (Lado A) e espectadora-cobaia do Lado B há já algum tempo. O Rogério pediu-me para passar 24 horas com ele, por causa de uma ideia para um outro projecto. Encontramo-nos cedinho, fomos para a casa dele, comprámos o almoço, cozinhámos juntos umas couves-roxas (que eu acabei por assumir como material para o meu trabalho, mas isso é outra história...) e depois tive o privilégio de receber uma prenda muito especial. O Vou A Tua Casa aconteceu para mim num espaço emprestado, a casa do Rogério. Fui uma dupla convidada: convidada naquela casa e convidada a sentir-me na minha própria casa. E ele um visitante na sua casa que agora era minha... Viajei durante quase uma hora pelos lugares secretos daquela casa e daquela personagem, que pouco a pouco se deixava entrever e descobrir. Lembro-me que dançámos um bocadinho também. Muita retórica e muita teoria se tem escrito sobre esta peça. A mim, o que me apetece dizer é que foi um pequenino acto de amor. Partilha, generosidade, sinceridade. Na altura, acho que até lhe dei um feedback mais “técnico” (qualquer coisa sobre a representação da personagem "Rogério"). Mas nada disso ficou... Em relação ao Lado B, fiquei com pena de ter assistido apenas aos primórdios da coisa. Vi tantas possibilidades... Infinitas possibilidades naquilo que o Rogério me sugeriu naquela tarde. Muitos caminhos se abriam à frente dele e dos potenciais espectadores. Mas não cheguei a ver o caminho, talvez um dia, num destes cruzamentos.

Laura Bañuelos, 30 anos, performer



quinta-feira, janeiro 04, 2007

voxpop, #7.

TERÇA-FEIRA, 1 DO 3 DE 2005
Cacém, Casa do Dany


::: memória descritiva :::


Partimos de carro, do Café no Chiado até ao Cacém. Talvez já tivesse começado… No lugar do morto, o performer ao vivo. A atenção redobrada do condutor, no morto vivo e na estrada, ao som da conversa dos músicos no banco de trás. Ligou o dono da casa para saber quando chegaríamos. Não podíamos precisar, era o tempo da viagem. Tocámos à campainha. De sorriso aberto, abriu o portão e conduziu-nos à casa. Afinal, éramos todos convidados. Cozinhámos, comemos, comentámos uns discos, partimos inadvertidamente um velho sofá, rimos. E o performer, procurando um momento para, harmoniosamente, começar. A voz de Natália de Andrade ocupa o espaço. O actor, de costas, conduz-nos o olhar infinito para lá da janela. Entre poesia sua e pouco movimento. Um toque absurdo nas paredes da casa: também produzem som! Em cada A4, um nome nosso. Todos juntos, colados a fita-cola na vidraça. O performer estuda uma meticulosa, quiçá aleatória, organização das folhas. Quantas ordens são possíveis? Que significam? Haverá tempo para pensar nisso? Tanto faz, mas é um pormenor. Agora veste o casaco, veste e despe como quem vai continuamente partir, numa obsessão de movimento. O mapa da Europa pendurado para que possamos ver. O performer pergunta a cada um pelos destinos de viagens passadas e sonhadas e também indica os seus. Aproveita para petiscar, enquanto improvisa com o vinho, que ora bebe "de penalty", ora deixa escorrer como sangue da boca. Agora a casa de banho. Uma avalanche de palavras, movimentos, emoções. Estamos concentrados nesse local diário. O performer lava a cara, mexe no bidé, abre a janela e atira uma escova, depois de se despentear sofregamente com ela. AMO-TE, deixa no espelho. Descemos à cave. Falamos das nossas profissões e o performer conta as suas e ainda partes de espectáculos que concretizou no passado. Está frio. Enquanto continua a dialogar, vai tapando a porta de saída com um manto de folhas de papel coladas a fita-cola. Por fim, um livro de poesia, dedicado ao filho de uma das gémeas presentes. Ao virar de cada página à vista, pode ler-se uma frase, uma palavra e por fim um poema sangrento. O performer cola agora as últimas folhas do pano que cai, deixando terminar a noite. Cá dentro ficámos nós e um CD, prenda do performer para os donos da casa.

[Beatriz Portugal é investigadora nas áreas da performance e arquitectura paisagista.]


terça-feira, dezembro 26, 2006

voxpop, #6.


VOU A TUA CASA


A primeira vez que o Rogério proferiu estas palavras como sendo o título do seu próximo "trabalho", confesso que não deixei de me sentir intrigada, mas ao mesmo tempo nada surpreendida, vindo dele. Não fui cobaia, não fui cúmplice activa, nem sequer fui corpo presente durante todo o macerar deste projecto até à fase em que se encontra actualmente. No entanto, sigo de forma atenta, na posição de espectadora distante e apenas como receptora de informação, o desenrolar dos acontecimentos desde a sua forma mais primária. Talvez por estar geograficamente distante, lembro-me do Rogério me ter dito que era uma das primeiras pessoas a quem ele falava deste projecto. Acho que na altura apenas o Lado A estava nos planos. Confesso que não sabia exactamente o que esperar, mas fiquei com a curiosidade bastante afiada. Infelizmente, era muito provável que nunca chegasse a ver o resultado, isto porque de há uns tempos a esta parte eu e o Rogério temos andado completamente desencontrados e com uns timings péssimos. Nós que sempre nos questionámos sobre o universo, parece que este esteve mesmo empenhado em fazer com que as nossas vidas seguissem muitas vezes linhas paralelas, mas sem nunca se tocarem. Hélas! Percebi mesmo assim, em grande parte através do blog, que este projecto representava uma ruptura com o convencionalismo do triângulo teatro/público/actor, se é que alguma vez aspirou a sê-lo. Vivo o projecto por procuração, leio, absorvo, saboreio... Acho que é uma das suas grandes virtudes. Não sou artista, não frequento círculos intelectuais ou pseudo-iluminados que lêem nas entrelinhas o sentido escondido e subliminar de tudo o que se faz, principalmente quando se trata de criações "marginais" (no bom sentido) como é o Vou A Tua Casa, e de resto tudo o que o Rogério cria. Por isso mesmo, não vou estar com rodeios nem meias medidas, deixo as críticas literárias (e muitas vezes incompreensíveis) e as apreciações eruditas e profundas, cheias de palavras difíceis, para quem tem de o fazer. Para mim, o Vou A Tua Casa começou há dez anos atrás... Conheci o Rogério numa fase de transição nas nossas vidas. Foi quando ambos chegámos a Lisboa, vindos da mesma cidade. Ele foi a primeira pessoa que lá conheci e o mesmo para ele em relação a mim. Cheios de sonhos próprios dos recentes dezoito aninhos. Muitas horas de divagação no Intercidades, muitas noites em branco em busca do sentido da vida, muitas aventuras, talvez na tentativa de nos encontrarmos a nós mesmos... Vivemos juntos durante quase 5 anos. Para mim, sempre foi uma pessoa muito especial, à qual comecei a estar particularmente atenta, desde o seu primeiro contacto com o teatro. Conhecia um Rogério divertido e com rasgos de genialidade, mas perturbado, inquieto, e, nessa altura, comecei a ver um feixe de luz na escuridão, uma pequena larva a começar a ter contornos de borboleta. Acabei por conseguir assistir à performance (Lado A), em Lisboa, numa das minhas passagens relâmpago. Passou-se em casa da Mónica. Também lá estavam a Catarina (ambas também viveram connosco) e o Serge, o meu namorado. Confesso que estava sentada no sofá e não fazia ideia do que esperar. Assim que o Rogério entrou na sala, foi como se me tivessem batido com um martelo na cabeça. Assisti à performance em estado de semi-transe, pois para mim foi como se uma montanha russa tivesse arrancado. Não estava fisicamente em minha casa, mas mais do que entrar em minha casa, ele entrou-me na alma. Percebi que não se tratava de invadir espaços pessoais, mas sim tocar as pessoas, sob forma de universos que se cruzam e que se tocam de alguma forma. Vi a minha vida passar-me à frente, tanto no sentido real (porque algumas daquelas coisas foram realmente vividas por mim), como no sentido figurado. Foi como abrir uma caixa de Pandora, um espelho que se desdobra. Foi uma sensação de enjoo tal, que senti as entranhas, as veias, o sangue... Todos acabámos por nos identificar (ainda que da forma mais inexplicável) com aquelas palavras, aqueles actos, aquelas melodias. Todos temos uma "Amares", todos buscamos algo, todos somos performers... Fez-se luz. Toda a minha observação de anos do Rogério/ser humano vs. Rogério/artista estava concluída, tudo o que procurei entender sobre aquele binómio estava diante dos meus olhos. Eles faziam um só! O Rogério sente, o Rogério vive, o Rogério não cria, ele é, apenas. Era tudo tão transparente, tão sincero, claro como água. Acho que a sensação na sala foi comum. Não que alguém o tivesse dito. O Rogério saiu sem se despedir e não voltou. Nós olhámos nos olhos uns dos outros em silêncio. Abrimos uma garrafa de champagne e, em segredo e sem uma palavra, brindámos ao Rogério. Ao nosso amigo que tinha acabado de se encontrar... E nós com ele.

Vânia Teixeira, 28 anos, chef d'entreprise
[amiga e fã, directamente de Ste. Maxime]








quinta-feira, dezembro 14, 2006

voxpop, #5.

FORAM A MINHA CASA


Abrir a porta. | Constrangimento por não saber o que dizer. | Sento-me. Silêncio. Risos nervosos. Esperava tudo. | Início. | Pensamento 1: A minha casa é tua! | Resposta ao pensamento 1: Não! Continua a ser minha! | Pensamento 2: Tem graça, não me sinto nada invadida! | Resposta ao pensamento 2: É essa a ideia! | Levantamo-nos. Percorremos divisões. | Pensamento 3: As minhas coisas estão todas aqui, vai tocar-lhes? | Resposta ao pensamento 3: Sim! É bom! | Tudo o que é meu é cenário, adereço. | Não sou público, sou parte do cenário. | Tantas sensações inéditas. Tantas emoções inexperimentadas. | Pensamento 4: Se calhar deveria intervir! | Reposta ao pensamento 4: Só se me apetecer. Sou livre e esta é a minha casa. | Observo. Movimento-me na minha casa de uma maneira diferente do habitual. | Sou conduzida dentro do meu espaço. | Pensamento 5: Se me deixar conduzir sinto-me numa posição inferior? | Resposta ao pensamento 5: Não!!!!!!! Gosto disto assim!!!!! | Fim. | Abrir a porta. Terminou????? | Assentar pensamentos e emoções. | Pensamento 6: Gostei? | Resposta ao pensamento 6: MUITOOOOOOO. | O tempo passou demasiado rápido. | Queria mais e mais e mais e mais. Agora olho para os meus objectos e para o meu espaço. Continuam a ser meus. Tudo inalterado. Foram outra coisa e agora repousam no que eram antes. Tiveram outra utilidade uma única vez. Eu tive outra utilidade uma única vez. Irrepetível!

Marisa Salvador, 30 anos, produtora de cinema



domingo, dezembro 10, 2006

lado c.

Rua Amadeo de Souza Cardoso, Lisboa
5 de Agosto de 2005
19:00 | 21:15



Por Carla Capeto
Por e-mail:


1.
Fui a tua casa. Cheguei dez minutos mais cedo e resolvi esperar mais 5 na rua, para fazer tempo. Detesto chegar antes do tempo. Mesmo assim, decidi não esperar esse tempo, a minha curiosidade era enorme, maior que a expectativa, e pensando nisso agora, acho que cultivei essa curiosidade deliberadamente. Para quê criar tanta expectativa? Para quê estar sempre à espera de algo novo? O sentimento de curiosidade em estado quase bruto era simplesmente fantástico. Tem tanto de fantástico como de raro, especialmente para quem, de um modo ou outro, também lida com o mundo do teatro. O que me trouxe até à tua casa? A quebra da minha rotina de espectadora. Mas que não se confunda com uma vontade do “esquisito”. No entanto, mentiria se afirmasse que não tinha qualquer expectativa em relação à performance. Influenciada, ou não, pelo que foi dito no Centro em Movimento — se é que era possível ficar indiferente — a verdade é que algumas ideias vieram à minha cabeça: uma pura e simples interacção entre performer e espectador, uma conversa entre os dois elementos, como que um reconhecimento do território (“Afinal, quem és tu?”), uma provocação lançada ao espectador, um convite, uma colaboração. Abri a porta silenciosamente e encontro o desconhecido performer estrategicamente sentado à janela, a ler.

2.
Mas era tempo de a casa se apresentar a ela própria, e de facto apresenta-se… Só que não foi a apresentação da casa, mas sim do próprio Rogério Nuno Costa. Cartazes, fotografias, livros, roteiro do metro de Londres, anúncios para um casting da MTV, o computador ligado mostrando uma linha enorme de músicas muito diferentes… Um gravador, que tem um outro nome, mas que por falha minha não consigo fixar na mente o nome sofisticado do pequeno aparelho.

3.
Antes de terminar a primeira fase deste pequeno parecer da performance Vou A Tua Casa – Lado C, não posso deixar de mencionar a loiça por lavar, os chinelos estendidos no estendal e a casa de banho com estilo masculino (terá sido pelo creme de barbear?, já não me lembro). Sem dúvida, aquela casa seria do Rogério. Decidi voltar à sala com a sensação dúbia de que seria num momento apropriado. Não sabia se deveria ter esperado mais ou se me tinha demorado demasiado. Era uma sensação muito estranha. Antes de chegar à sala, reparei numa porta fechada, imediatamente percebi que ali vivia uma outra pessoa, respirava um oxigénio diferente, como se de uma outra dimensão se tratasse. Exageros à parte, interessa dar conta do impacto que aquele breve acontecimento teve em mim, enquanto acontecia. Já mencionei o estranho que é entrar no espaço de alguém, pelo menos para mim é. Há algo que nos incomoda, não queria ser uma invasora, mas esse sentimento dissipou-se à medida que aquele espaço me englobava, se tornava meu ou eu me tornava dele. Começava a sentir um certo gozo de “bisbilhotar” a casa de uma pessoa que não conheço. Sabia que não estavas a ler. Aliás, assim que voltei a entrar na sala denunciaste isso mesmo: notei que me lançaste um rápido olhar de soslaio. “Estás a enganar-me”, pensei. Claro que sim, mas aqui o engano não é necessariamente mentir. Não podias ler, estavas sem lentes de contacto devido a uma infecção. Não me podias ver e essa foi a primeira premissa. Concordámos que manteríamos uma certa distância para guardares uma imagem enevoada de mim. Confesso que se trata de um detalhe que me incomodou, mas este incómodo foi também um desafio.

4.
Depois disto ouvi-te falar do teu percurso, da maneira como encaras a tua profissão, o teatro, a arte e falámos de um outro Rogério Costa, meu amigo. Deste-me também a oportunidade de ver uma gravação de um espectáculo teu, o ACTOR. Era difícil de acompanhar, talvez porque ache muito esquisito ver teatro em televisão. É como perceber a ausência de qualquer coisa. Há algo que as câmaras não captam. Vi, mas somente um pouco, e nesse pouco muitas coisas me chamaram a atenção. Coloco aqui as minhas notas, mas sem explicar o que são e ao que se referem:

  • Quadrado pequeno dentro de um quadrado grande.
  • Os sapatos parecem ser horríveis para os pés.
  • Equilíbrio ou desequilíbrio?
  • Até agora há uma certa fragilidade, mas também força.
  • Quadrado-círculo.
  • Qu’est-ce qu’il a dit? Ah oui, je comprends!
  • Mozart.
  • Muita luz, paragem e lentidão.
  • Um aparte: é duro ver teatro na televisão.
  • Desligo a televisão?
  • A presença do espelho é fantástica.
  • Porque é que o público tem um livro na mão?
  • Deve ser um libreto.
  • Ausência de fronteira.
  • Muita coisa acontece para além do quadrado branco.

5.
Nesta pequena dissertação acho que tenho que ser rápida, para que não se perca o essencial: passemos à parte que considero ser mais importante — a fase de construção. Aqui surge o meu segundo grande incómodo, embora seja apenas físico: o autocolante. Fazia-me transpirar e não conseguia mexer os músculos da testa. Passou-se então à fase seguinte: enquanto tudo seguia o seu ritmo quotidiano, deveria pôr a gravação e olhar nos teus olhos sempre que fizesse um recorte de algum momento que estivesse de acordo com algumas das minhas expectativas. Não sei porquê, mas parece que algo me escapou aquando do acordo das regras.

6.
Sentia-me como um espécie de fantasma, tudo corria normalmente, como se eu não estivesse ali. Eis as minhas notas:

  • Estou confusa. Não sei se compreendi, se não...
  • Água?! Sistema?!
  • Sou responsável ou não?
  • Sou ignorada.
  • Mas a minha presença é definitivamente estranha.
  • E a minha mensagem?
  • Não estou cá.
  • Azáfama.
  • E se eu contrariasse a regra da distância?
  • Vou provocar o acidente.
  • Sinto-me uma invasora, meio fantasma.
  • É esquisito.
  • Há muitos sons nesta casa.
  • Briga de casal.
  • Loiça suja.
  • Anúncio do casting da MTV:
  • Oiço deliberadamente as conversas.
  • Posso falar?
  • Não te rias!
  • Música intuitiva.

7.
Decidi, então, provocar um acidente, mas no fundo já sabia qual iria ser o resultado. Sabia que irias passar na sala do computador e eu coloquei-me lá para cruzar o teu caminho. Continuei a ser fantasma. Este foi o recorte feito. Seria a pequena performance. Repetiu-se, ajustou-se, filmou-se e concluiu-se. Poder-se-ia chamar uma pequena alegoria de um processo construtivo artístico/teatral. Foi como um pequeno apontamento do início de um projecto, a primeira linha da escrita de um texto.

8.
Como avaliar o que aconteceu? Fui-me embora com uma sensação de que fui responsável por aquele momento, tivesse ele corrido bem ou mal. E isso ocupou a minha consciência. Como saber se foi bom, interessante, uma merda, algo esquisito? Será que deverá ser pensado nesses termos? Não estarei a ser demasiado académica e a tentar colocar rótulos neste espectáculo? Como racionalizar o que aconteceu? Esta é a minha tendência. Talvez devesse fugir disso. Ainda penso na performance de 5 de Agosto e vou pensar mais durante algum tempo, pelo menos, e lembrar-me como tomei alguma consciência até de uma certa “ingenuidade” relativamente a mim, em diversos aspectos (que aqui não vale a pena nomear). Irá funcionar, durante algum tempo pelo menos, como um ponto de referência para as minhas reflexões sobre a arte, o teatro e as artes performativas em geral.

9.
A performance Vou A Tua Casa poderia até ser um desafio às leis da gravidade, permitindo que qualquer coisa fique suspensa. Não é uma referência ao que previamente se poderia esperar, mas ao que fica. É inevitável ficar sempre uma pergunta no ar, que se relaciona com a sua definição. Também é inevitável que a resposta a essa mesma pergunta tenha que ficar suspensa, por não ser possível apresentar o “concreto”. É uma vivência/experiência que não se transmite e esta é a sua principal característica. O que é que acontece em Vou A Tua Casa? Momentos, (talvez) estados de percepção, trocas de informações, demasiadas coisas para que possam simplesmente ser enumeradas, e no entanto, também há lugar para o vazio. Coisas que se captam, que se perdem, fundem ou confundem, que se absorvem e se compreendem. Nada fica ou acontece fora da nossa consciência. Tudo é transformado consoante as premissas e coordenadas pré-estabelecidas e aquelas que naturalmente surgem. O espaço é o corpo, o universo pessoal que Rogério Nuno Costa nos apresenta seria então a alma, o acidente (poderia ser o espectador?), a pulsação. A única definição que daria a Vou A Tua Casa – Lado C seria um acontecimento performático vivo, ou melhor, um organismo verdadeiramente vivo. É-me completamente impossível construir um raciocínio que assente numa análise de teor sócio-cultural, de ideologias artísticas, e nem sequer afirmar que existe uma vontade de recuperar as origens das práticas performativas. A performance respira para além da necessidade da atribuição de qualquer um destes sentidos. Digamos antes que se desenvolve através de uma decantação de um processo artístico, e ficam retidos todos os ornamentos usuais do teatro. Não encontrei um texto, uma personagem ou mesmo uma história que fundamentam a performance ou lhe sirvam de engrenagem. Talvez apenas um conjunto de expectativas. A ignição é: dois corpos, isto é, a presença de duas pessoas, o que cada um traz e dá. Põe-se de parte tudo e fica a essência: o fazer, o descobrir qualquer coisa que nos chama a atenção, o construir e o concluir. A fascinação ou a frustração é o que se guarda e o que o espectador leva para casa.

10.
Esta forma de espectáculo é retida pelo espectador/criador, que sem premeditar nada empenha nela matérias pessoais que lhe são caras. É possível que possa existir um choque e uma relação de curto-circuito entre Rogério Nuno Costa e o espectador que chega à sua casa, mas prefiro pensar nessa relação como uma relação de deslocação/acolhimento, de generosidade, quando ambos se envolvem em qualquer coisa com uma duração incerta. O que fica? O que se fez? Cada espectador, ao sair da casa de Rogério Nuno Costa dizendo “Até breve!”, levará consigo a unicidade e pessoalidade da performance. Esta é a sua principal característica. As inferências que se fazem depois de se assistir e participar na performance serão insuficientes para uma verbalização de tudo o que se vivenciou. Pensa-se muito sobre o acontecimento para o tentar definir de acordo com as lógicas a que estamos habituados. Foi um bom ou mau espectáculo? E junta-se ainda o peso de se ter um papel para que tudo pudesse acontecer. Assiste-se a um espectáculo no qual também entramos e temos a necessidade de perceber se desempenhamos bem o nosso papel ou não. O incómodo é inevitável. Saber o que aconteceu, sem se saber como explicar. A partilha desta performance com terceiros seria difícil. Mas na verdade não existe a mínima intenção de o fazer. É de quem esteve lá, não se transmite.

©Carla Capeto, 2005


terça-feira, dezembro 05, 2006

voxpop, #4.

A TUA CASA,
ou a ideia sem ideia do texto porque foste ou não foste a minha casa


Rogério Nuno Costa & Carina Costa, @Vou A Tua Casa [Lado A]Festival Sonda, Caldas da Rainha, Outubro 2006.


2005 ESAD, Correntes Teatrais Contemporâneas apresenta: para a próxima aula teremos um artista que apresentará o projecto Vou A Tua Casa. A hora é a mesma da aula! Projecto visualizado por imagem em vídeo. Cheguei sem atraso à mensagem da imagem gravada apresentada por esse intermédio actor. Falava de uma tal trilogia sem maneira por mim comunicada, odiei os vídeos. Porquê? Perguntava-me! Decidi sair sem querer assistir aos vídeos pirosos de aparência, julgava um registo. Casas pessoais em casas privadas sem casas não sei de onde, por casos públicos. Que tempo lhe dava na minha casa? Não quero saber, nem me interessa, no meu espaço eu é que sei. Inconsciente banho maria. 2006 ESAD, quem nos vai dar aulas em Seminário? Perguntava. Rogério Nuno Costa, aquele do Vou A Tua Casa! Agora é meu professor e eu não gostei minimamente da apresentação daquela história de projecto. Hum!... Vou A Tua Casa nas Caldas da Rainha e o apresentador até me dá aulas. "Pessoal, vamos telefonar amanhã! É o ultimo dia...". Quero ver esse espectáculo de interiorização urbana, humano que propaganda ecologia cómoda, no acto marca consultas, duas vozes, um telefone — acordo — casa desconhecida, rua pública, casa própria. Olhares exteriores. Perto da meia noite... Bar Charrua. "Vamos telefonar! Eu ligo, diz-me o número". Ih, ih... A possível secretária do Rogério atende, apresento-me como Francisca Brandão, pergunto se a marcação para o dia seguinte será possível. A presença telefónica não cumpre a ideia, a hora do telefonema foi pretexto, adiar a marcação, não são horas para bilhetes! Disponibilidade própria decide o princípio do fim do juízo interpretado. Dia seguinte... Aulas com o Rogério e mal ele sabe que vem a nossa casa! Qualquer partícula começa sem tocar em casa do átomo vazio. Gravações, espaços pessoais de interesse directo protegido em matéria enérgica de técnica transparente, limpa, compasso de cada partitura composta. Aquelas perguntas passadas ficaram sem resposta? Toca a campainha, espasmo, entra o Rogério, seis pessoas, jogos terminais, agarra-se o tempo sem tempo, descobre-se a luz sem calendário nem segredo oprimido, exposto o corpo, ficou nu na conversa, despidos em quebra no compromisso exposto. Que tempo é este? Participei na linha, o espectacular nasce quando a morte propõe a rota banal, trilogia sem tempo deste tempo de diferentes espaços com a igualdade descoberta, simples, composição de valor espectacular. Rituais, pactos, jogos, que relações públicas deixaste na corda, Rogério?

©Carina Costa, 2007

domingo, outubro 29, 2006

voxpop, #3.

O ESPECTÁCULO HÁ-DE SER
do que vai escrito nele.*


por Nuno Quintas


Conta-se a história de uma bailarina russa e da peça arrojada que, no início do século vinte, terá interpretado perante uma plateia pouco dada a devaneios modernos. No final, quando um jornalista a interpelou sobre o que queria dizer com aqueles movimentos tão abstractos e desprovidos de narrativa, a bailarina ter-lhe-á respondido, deveras incomodada:

"Se eu conseguisse dizer o seu significado, crê que teria perdido tantas horas a dançá-lo?"

Não estou certo da primeira vez que visitei os blogues do Rogério, mas eram paragens regulares na minha blogosfera há algum tempo. Em junho, quando o descobri no Alkantara Festival, não hesitei sequer em ir (vi)vê-lo. Parti convencido que, como leitor regular, estaria em situação de vantagem; ele não me conhecia, seria fácil desarmá-lo, representar o jornalista em frente ao Rogério-artista-da-modernidade. E, como precaução última, convidei mais três amigos para um lanche de quatro pessoas. Sabemos como esta história acaba, claro: de capacete na cabeça e scone na mão, numa visita guiada ao museu do Rogério. No silêncio (inquieto) de quem mantém por norma o seu próprio mundo resguardado dos outros (como eu). Não sei se o lanche foi um espectáculo, uma performance, um simulacro de realidade. Mas, se eu conseguisse dizer o seu significado, teria perdido aquela hora a vivê-lo? Pede-me o Rogério umas palavras sobre Vou A Tua Casa. Ofereço-lhe a minha visão desse instante absolutamente nítido em que pronunciou o nome de Amares, completo com fotos e bilhetes de autocarro — como se, de repente, todas as peças se encaixassem nessa terra conjugada na segunda pessoa do singular — tu vais (eu vou) — como se o Rogério andasse nisto desde que nasceu — como se a performance tivesse começado, não quando atravessei a soleira da porta daquela casa, em Junho — mas num dia de Abril há vinte e seis anos, quando nasci.


* adaptado de Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro (1554?)

Nuno Quintas, 26 anos, tradutor.