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terça-feira, outubro 18, 2011

projecto de documentação.

TEASER #05
TESTEMUNHOS EX-ESPECTADORES


A Oportunidade do Espectador

O título é o mesmo do projecto que se seguiu à conclusão da trilogia Vou A Tua Casa, cujo elemento mais importante de inflexão teórica e conceptual terá sido a figura do espectador enquanto catalizador de experiências performativas várias: performances, conferências, workshops, master classes, documentação de processos criativos, ensaios, acções terroristas, etc. O conjunto de textos que aqui se apresenta, na forma de testemunhos pessoais e transmissíveis, e na voz de quem assistiu a uma ou várias partes da trilogia "Vou A Tua Casa", foi, assim, o primeiríssimo tubo de ensaio que conduziu ao desenho estrutural do projecto A Oportunidade do Espectador; alguns destes "pensadores" foram posteriormente convidados a integrar o projecto na condição de observadores privilegiados ("Selecção de Esperanças"), com resultados textuais que serão publicados em catálogo online no início do próximo ano. Este bloco significa também, e por isso, uma abertura do Projecto de Documentação à linha de trabalho que se seguiu, mas também uma homenagem a todas as pessoas que por diversas razões aceitaram ser atravessadas por um projecto artístico que as pôs em causa, não só enquanto espectadores, mas também enquanto seres humanos.

Autores: Luísa Casella, Susana Chiocca, Joana Baptista Costa & Mariana Leão, Guilherme Ferreira, Dinis Machado, Marisa Teixeira, João Madeira, Filipe Coutinho, Laura Bañuelos, Beatriz Portugal, Vânia Teixeira, Carla Capeto, Marisa Salvador, Carina Costa, Nuno Quintas, Tiago Neves, Pedro Gomes e Maria de Assis, cujo texto seleccionámos para apresentar nesta pré-publicação online. Outros testemunhos podem ser lidos aqui.


©Luísa Casella, "Ne Me Quittes Pas", fotografia & desenho, Nova Iorque, 2007.



(sem título)
por Maria de Assis

Tudo isto que vou dizer é real hoje, mas não necessariamente aquilo que aconteceu. Divertida esta tentativa de reconstituir uma situação que o tempo diluiu deixando uns gorgulhos aqui e acolá, acções mais duras ou mais resistentes, que não se deixaram liquefazer, vá-se lá saber porquê… O momento do embate deu-se com a leitura de uma agenda cultural electrónica. Dava-se como responsável o autor/actor Rogério Nuno Costa. Não retive o nome, apenas a proposta. Tempo: vago, cerca de um ano antes do acontecimento. Na minha casa: há talvez três anos? Foi isso, o pensamento agarrou essa ideia estranha, que me engravidou o pensamento. Ficou lá latente, produzindo teimosamente cenários imaginados, a querer presentificar o futuro. Mas faltava-me o contexto... A coragem? De pegar no telefone e pôr a imaginação à prova. Aconteceu quando uma amiga me disse que já tinha experimentado, dissipando algumas possibilidades menos desejáveis que a imaginação também tinha forjado. E foi ela que pegou no telefone e marcou. Mais tarde perguntei-me sobre o que teria mudado se não fosse ela a telefonar, que já o conhecia. Desfez-se um pouco da surpresa que faz parte das premissas... Aliás, faz sentido falar nas premissas. Foram elas que me prenderam à proposta em primeiro lugar. Atraem-me as propostas que se movem em território “neutro”, sem fronteiras definidas sobre quem é quem, como se faz e o que se espera. O “Vou A Tua Casa” era uma promessa disto e muito mais. Quando o Rogério veio a minha casa apareceu com alguns objectos. Recordo alguns livros, não faço ideia de quais, um rádio, velas, fósforos, papéis para escrever [N.E. As velas não faziam, de facto, parte dos adereços da performance.]… Já não me lembro de quem cá estava para além de mim, da minha amiga e do meu marido. Ficou-se pela sala e cozinha. Liderou sempre a situação, ganhando confiança com o passar do tempo. Construiu-a à maneira de um ritual de iniciação ao encontro do outro, ou seja, procurou sentir a vibração da casa, dos objectos e das pessoas, devolvendo-nos, em contraponto poético, o seu entendimento de nós ali. Deixou-me as paredes marcadas de papéis colados com palavras-chave. Já não me lembro das palavras. Quando partiu ofereci-lhe um candelabro. Recordo que a segurança de estar em minha casa e a predilecção já confessada de testar as regras e os códigos de comportamento em situações novas me fez participar no jogo de forma um pouco mais activa que os outros, ou seja, a relação que estabelecemos ali, eu e o Rogério, tornou-se o espectáculo dos outros. Penso que, enquanto espectáculo, para os outros a proposta não teve metade da graça que teve para mim. Penso que a proposta do Rogério é para saborear vivendo, aproveitando esse território “neutro” para medir distâncias, gozar a capacidade de interferir no decorrer da acção, observar as reacções e continuar a decidir, passo a passo, se faço ou não faço, se estou a fazer demais ou de menos, se estou ou não a ultrapassar os limites da tolerância, da liberdade e do respeito mútuo num lugar esvaziado de referentes, lugar em que o autor se nega através do conceito que propõe, abolindo as categorias convencionadas de autor, actor e espectador. O meu fascínio por estas questões corresponde obviamente à consciência que elas se nos colocam permanentemente no dia-a-dia, ou melhor, que não as colocamos a nós próprios com a frequência e a intensidade que mereciam… Por isso temos tantas vezes a sensação de viver como espectadores da vida. Uma espécie de desafio às regras e aos códigos que conhecemos e que ali são testados e redefinidos em função das respostas a perguntas recorrentes: o que é isto? que estão a fazer? que querem dizer?

[Maria de Assis é gestora cultural. Foi espectadora do Vou A Tua Casa/Lado A em Lisboa, em 2004.]



Mais um teaser que antecede a pré-publicação online e parcial de Vou A Tua Casa/Projecto de Documentação [livro e vídeo-documentário] num website que será disponibilizado dia 21 de Outubro de 2011. A seguir!

quinta-feira, outubro 13, 2011

projecto de documentação.

VOU A TUA CASA
OFICINA DE TRABALHO 

Quase 4 anos depois desde a última edição do workshop Vou A Tua Casa, que passou por cidades como Lisboa, Porto, Torres Vedras, Braga, Caldas da Rainha, Almada, Hamburgo, Berlim e Arnhem, e a convite do Teatro Académico Gil Vicente (Coimbra), regressei este mês a um formato que sempre me pareceu o mais certeiro no que às dimensões teórico-conceptuais do projecto em questão diz respeito: um espaço de partilha e de experimentação em torno de um trabalho cuja premissa basilar é virar a construção teatral do avesso, para melhor lhe vermos não os mecanismos que a fazem funcionar, mas as entranhas que a podem matar. Esta edição especial do workshop, que terá resultados públicos no início do próximo ano, coincide também com a pré-publicação online de alguns dos conteúdos do livro e do documentário "Vou A Tua Casa", cuja edição física será lançada igualmente no início do próximo ano. Mais informações sobre as actividades terroristas levadas a cabo na cidade dos doutores serão disponibilizadas brevemente. Até lá, não esquecer que (e apesar de tudo)...




Mais sobre o workshop:

Uma trilogia teatral em forma de mapa-percurso: o ponto 'A' é a tua casa, o ponto 'C' é a minha, o ponto 'B' é aquele sítio impossível onde por ti sou apanhado no meio. Em Lisboa e noutros sítios. O projecto, conjunto de três performances, um ciclo de conferências, um livro e um vídeo-documentário, desenrolou-se em várias cidades portuguesas e estrangeiras entre 2003 e 2006, baseando-se num deslocamento geo-emocional dos lugares onde habitualmente vemos e participamos em projectos performativos: a primeira performance acontecia na casa dos espectadores, a segunda em espaços públicos à escolha do espectador, a terceira na casa do próprio criador. Para este workshop proponho um espaço de discussão/reflexão à volta das dimensões teóricas mais importantes que emergem do projecto, com vista à construção de um projecto pessoal de intervenção em espaços inusitados que será levado a cabo por cada participante. Mais do que uma prospecção sobre materiais residuais de uma performance circunscrita a um tempo e a um espaço específicos, o workshop alicerçar-se-á numa reflexão sobre a prática documental quando aplicada às artes performativas, operando criticamente em conceitos como os da efemeridade, memória, intimidade/privacidade e discurso autobiográfico. Aberto a todos aqueles que gostam de questionar a essência do gesto artístico, a teatralidade inerente às acções mais ou menos banais do quotidiano e os limites da privacidade.

sábado, outubro 03, 2009

o espectáculo continua.

FOREVERNESS


espectador: 
Uma amiga minha está assim a modos que em romantismos com um rapaz.
[02:33:12]
E há poucos dias descobriram que passaram o réveillon 2007-2008 na Praça do Comércio.
[02:33:21]
Onde, é claro, não se viram, porque não se conheciam.
[02:33:22]
Bonito.
[02:33:42]
É que nenhum dos dois é de Lisboa ou vive em Lisboa.
[02:33:57]
Ela é transmontana, ele é catalão, vivem actualmente na cidade do Porto.
[02:34:42]

artista: 
É fantástica a capacidade que as pessoas têm de inventar passados comuns.
[02:34:55]
Para dar mais sentido ao presente.
[02:35:09]
Isso não é necessariamente negativo.
[02:35:21]
Mas tenho a sensação que o fazemos por não acreditarmos que o presente se basta a si próprio. Não precisa de sucedâneos nem de suplementos nutricionais nem de operações estético-cosméticas à laia de extreme makeover...
[02:35:41]

espectador:
O Vou A Tua Casa é um reality show?
[02:36:32]

artista:
É.
[02:36:40]


©The Fabulous Life Of..., 2005

sábado, maio 02, 2009

press.

PONTO DE FUGA
o texto integral



1. Que projectos para breve?
Depois de um 2008 ocupado essencialmente com o projecto curatorial A Oportunidade do Espectador e a peça Espectáculo de Teatro, estou neste momento em fase de pesquisa e investigação para o projecto que se segue, a criação de um dispositivo virtual e interrelacional de educação trans-artística ao qual chamarei Universidade. Conto que o ano zero arranque lá para o fim de 2010. Até lá, tenho dois catálogos de projectos anteriores para editar, algumas reposições do Vou A Tua Casa (dentro e fora de portas) e ainda um filme sobre Amares, a minha terra natal.

2. O que interessa divulgar neste momento do seu trabalho?
A peça infantil que vou co-criar e interpretar a meias com a Sónia Baptista e o Miguel Bonneville, com base nas "Histórias em verso para meninos perversos", de Roald Dahl. Estreia no Teatro do Campo Alegre, no Porto, em Outubro.

3. Qual a banda sonora dos seus dias? Ou seja, que discos e temas anda a ouvir em casa, no carro, na rádio, no leitor mp3? E para que momentos?
Em loops infinitos, o novo dos Pet Shop Boys ("Yes"), que oiço em todo o lado enquanto sonho com férias de verão na Riviera Francesa. Em loops mais contidos, os novos da Peaches (na rua) e dos Grizzly Bear (na cama). Em loops normais, as 42 músicas do Festival Eurovisão da Canção 2009. E depois oiço sempre, e em todo o lado, dois dos meus mais insistentes guilty pleasures: Scooter e Jean-Michel Jarre (discografias completas, remisturas, b-sides, colaborações e raridades); uma aliança franco-germânica que é não só a banda sonora dos meus dias, mas também a cara chapada da minha persona criativa.

4. Qual o último filme a arrebatar-lhe os sentidos e porquê?
Não vou muito ao cinema. O último filme que me arrebatou os sentidos (entre outras coisas arrebatáveis) vi-o em casa e foi o "The 5 Obstructions", do Lars von Trier vs. Jørgen Leth. É de 2003, mas só o vi em 2007; desde então, a obsessão já me fez revê-lo umas boas 20 vezes.

5. A que político aconselharia? E porquê?
Honestamente, a nenhum. Os políticos (portugueses) já são exímios em desenvencilhar-se criativamente de obstáculos duros de roer. Mas aconselharia vivamente o filme a todos os soit disant "programadores culturais" (portugueses), que são mais "políticos" que os políticos todos juntos.

6. Que espectáculos de palco pensa ver? Porquê?
Sou daquelas pessoas velhas e execráveis que praticamente já só vê os espectáculos dos amigos e não tem paciência para os restantes. Estou em pulgas para me sentar na primeira fila do renovado S. Luiz para ver "Demo", o musical do Teatro Praga. Acho que é em Julho.

7. E quanto a literatura? Está a ler algum livro de momento? Se sim, qual e porquê? O que está a achar?
Deixei de ler poesia em 2002. Deixei de ler romances em 2005. E deixei de ler ensaios (sobretudo filosóficos) em 2008. Já só leio livros de cozinha, e leio-os como quem lê poesia, romance e ensaio. Basta-me. Recomendo o magnânime "A Day at elBulli", sobre e à volta do chef catalão Ferran Adrià, uma edição de luxo da Phaidon.

8. Qual o último livro que abandonou a meio? Porquê?
Que me lembre, nenhum. Sou um emo-conceptual insistente e de pendor assumidamente masoquista: vou até ao fim, mesmo quando não estou a gostar. Gostaria de ter a coragem de um dia poder abandonar a meio qualquer coisa que me estivesse a agradar imenso.

9. Qual a sua arte da fuga predilecta? (ou seja, quanto está de folga ou férias, disponível para ócio, o que prefere fazer na cidade?)
Prefiro a casa à cidade. Nesse sentido, a minha arte e a minha fuga encontram-se plasmadas aqui: www.vouatuamesa.blogspot.com. Sonho com o dia em que a cozinha será o meu ponto de fuga estruturante, e já não um mero amor das horas vagas.


[in "Actual", jornal EXPRESSO, por Bernardo Mendonça]


©Espectáculo do Teatro, 2008

sábado, abril 25, 2009

o espectáculo continua.

MISTICISMOS
a oportunidade de um espectador


EU — Tu és assim o exemplo típico do "amigo Vou A Tua Casa". Pertences ao clube. Eu queria fazer qualquer coisa com isto, mas não sei bem o quê. Só me ocorrem coisas visuais e totós da art contemporaine...
ELE — Hehehehe! Fui à tua casa, convidei-te para a minha... Isso é interessante. Vou desatar a despejar mochilas em cima das mesas das pessoas para fazer amigos como tu! Por acaso senti uma coisa estranhíssima quando os teus alunos do workshop comentaram o meu trabalho...
EU — Nem tudo são rosas, meu caro... Também fazes muitos inimigos. Na verdade, fazes mais inimigos que amigos...
ELE — Parece que por segundos estavam todos apaixonados por mim...
EU — Bem-vindo ao universo Vou A Tua Casa, no que ele tem de bom e de mau. O que fizeste potenciou isso.
ELE — Que estranho poder!... Por momentos pensei: "Podia fazer isto a vida toda"...
EU — Dizia isso a mim próprio de cada vez que terminava um espectáculo, mas acho que estava enganado... Não quero fazer isto a vida toda, porque isso implicaria que houvesse muitas pessoas disponíveis para isto, e não há. Ser-se "generoso" não é da moda.
ELE — Bem sei...
EU — Eu "apaixono-me" sempre. A sério ou a brincar. Não tenho outra hipótese. Se houver algum entendimento "técnico" em relação a este projecto, é esse. Faço os possíveis para me apaixonar. mesmo. A sério ou a brincar. Mas mesmo. Uma das relações "a sério" mais bonitas que tive foi com um espectador; apaixonamo-nos durante o No Caminho.
ELE — Ai sim!?
EU — Sim. Tenho a sensação (acho que ambos temos) que a "performance" só acabou no dia em que terminámos a relação, um ano e meio depois.
ELE — Que lindo!!!!

[...]

ELE — É... Às vezes baixam-me capacidades mediúnicas... Já jantei à borla muitas vezes por causa disso!
EU — Estás a falar a sério?
ELE — Bom... Não foram assim tantas vezes... Embora uma amiga me queira pôr a render no Chiado.
EU — Hahaha! Temos que falar melhor disso, do mediúnico... Lembras-te daquela conversa de abrir um livro ao calhas num espectáculo e o que leio bater certo em relação à situação em que estou ou em relação ao que acabei de dizer no instante imediatamente anterior?
ELE — Muito bem, sim.
EU — Bom, há pessoas que vêem naquilo algo mais que uma coincidência "performativa", ou então um trabalho de observação artística que por ser muito sensível (para ambas as partes: actor e espectador) faz provocar situações e associações entre situações que são de uma coincidência quase-mística... Seja como for, eu tenho uma grande dificuldade em assumir que possa ser possuidor de super-poderes, que não sou. LOL
ELE — Haahah! Eu com o que já vi, abstenho-me de comentar... LOL. Mas para mim, um pensar e o outro dizer não encerra qualquer tipo de mistério. Parece-me naturalíssimo 'adivinhar' pensamentos.
EU — A mim também me parece naturalíssimo. Por isso não sei falar destas coisas. Elas acontecem. Ponto final. Sabes, eu não te conheço bem, mas tenho a sensação que tu tens uma sensibilidade muito vou a tua cas'iana. E com esta me retiro.
ELE — Faz boa viagem e que tudo corra bem!



Lisboa
Agosto 2007

domingo, dezembro 14, 2008

.

MSN — A HISTÓRIA COMPLETA
em 97 segundos


1 — O que é a "responsabilidade máxima do espectador"?
2 — Uma coisa de 2005. Queres mesmo saber?
1 — Quero.
2 — Não é um sinal de cena. É um sinal dos tempos em que não se dizia texto.
1 — Agora diz-se?
2 — Não.
1 — Então qual é a diferença?
2 — Nenhuma. Simplesmente continuam a existir muitos actores interessantes, que fazem muitas coisas interessantes, em muitas peças interessantes, montadas em muitos sítios interessantes, e que versam muitos temas interessantes. E eu achava que 3 anos era tempo suficiente para acabar com isso tudo. Enganei-me...
1 — Então qual é a diferença?
2 — Em 2005 havia esperança.
1 — Continua a ser importante?
2 — Continuo farto. Estou farto desde 2005, desde 2003, desde 2001, desde 1999, desde 1996, desde 1994, desde 1990, desde 1984, desde 1978.
1 — Estás farto de mim?
2 — Tu fazes o trabalho de casa. És pontual. Estudas a lição do dia. Participas na aula. És uma aluna crítica, opinativa, dinâmica, bem educada, informada, culta, criativa. És uma boa aluna. Tu vês. Não "vês". E "fazes" espectáculo. Tu não "dás" espectáculo.
1 — Mas eu só quero é divertir-me!
2 — Então pede à Câmara Municipal de Lisboa que reabra a Feira Popular.
1 — Dá trabalho. E nem sempre me apetece fazê-lo. Muito menos em casa. O teatro é o sítio onde se vai, não é o sítio onde se fica.
2 — Temos pena. Temos muita pena. Muita muita pena. Temos muita pena mesmo!
1 — Eu não quero ser "responsável".
2 — Então tu não queres nada. Não queres ver. Não queres fazer. Não queres ir. Não queres estar. Não queres! Não queres, reabre a Feira Popular. Fica em casa a jogar Trivial Pursuit. Abana as mamas.
1 — Demito-me.
2 — Pois demites.
1 — É por deixares que isto aconteça que tu falhas. É por isso que tu estás velho. É por isso que tu não prestas para nada. É por isso que tu te suicidas em público.
2 — É por isso, é.
1 — Está tudo mal. Isso está tudo mal. Tu fazes tudo mal. Está tudo mal. Está tudo mal. Mal. Mal. Mal.
2 — Pois está.
1 — Então corrige.
2 — Não.
1 — Então desiste.
2 — Pois desisto. Nem on, nem off. Out! Gratidão. Terceira Via. Empate técnico.
1 — Porque fazes?
2 — Fizeste...
1 — Porque fizeste?
2 — Nostalgia. Folhas de papel escritas. Declarações de amor. Jogos sem fronteiras. Festivais da canção. Playbacks. Gincanas minhotas. Papas de sarrabulho. Material de escritório. Poemas conceptuais. Comunicação social. Fita-cola. Paredes. Objectos enferrujados. Pessoas de estimação. Casas. Portas. Transportes públicos. Comboios intercidades. Livros de cozinha. Muito amor. Cartas de tarot. Astro-psico-socio-filosofia. Meta-óptica. Semiótica. Se-me-amas...
1 — Porque nos chamas?
2 — Para vos conhecer melhor.
1 — Porquê?
2 — Para me lembrar da vossa cara em 2010, 2012, 2018, 2023, 2035...
1 — E se nós não quisermos?
2 — Ninguém quer, ninguém quis, desisto.
1 — E vais fazer o quê? O que vais fazer a seguir? Qual é o teu próximo espectáculo?
2 — Quero fazer um espectáculo cujo cenário é um tabuleiro de Trivial Pursuit, com luzes tecnotrónicas e muito electro-indie-pop-rock da modixa, várias cenas a acontecer ao mesmo tempo, caos, party people, actrizes a abanar as mamas e actores a abanar os caralhos, a história do teatro a passar em rodapé e a minha história a passar em rodacabeça, muitos confettis, máquinas de cena, coisas que sobem e descem, participações especiais, disc jockeys, artistas plásticos, antropólogos, cineastas, vozes off distorcidas, bombeiros voluntários, escuteiros, tunas académicas, ranchos folclóricos, inter-media, inter-actions, inter-galactic planetary planetary inter-galactic, beijos na boca, neve artificial, um prólogo, vários meios e um epílogo. Vai-se chamar "Bem-vindos ao mundo encantado dos brinquedos onde há reis, princesas, dragões, heróis de banda desenhada, muitos saltos e muitos trambolhões, o mundo dos brinquedos é no (nome do teatro onde o espectáculo será apresentado), onde tudo tem mais fantasia, brinquedos, brinquedos, eles são a nossa maior alegria!" e o cartaz são só os logotipos de todos os apoios, patrocínios, parcerias, co-produções, mecenas, residências e festivais, com o título, companhia e actores num rodapé pequenino, no fundo.
1 — Vais fazer audições?
2 — Claro. Quero um grupo coeso, mas heterogéneo, de intérpretes que dominem a arte de bem se digladiarem nos ensaios para conseguir boas cenas no fim.
1 — Eu não vou ao teu casting. Para competir, prefiro ficar em casa a jogar Trivial Pursuit.
2 — Pois. Acabou-se a Oportunidade do Espectador.
1 — Eu pensava que tu não querias pessoas que cantem, que dancem, que esperneiem, que estrebuchem, que façam rir, que sejam giras e bem-dispostas, com um forte sentido de improvisação, intuitivas e carismáticas, físicas, loucas, pessoas loucas, pessoas giras e loucas... Eu pensava que tu querias pessoas que... Eu gostava tanto de ser uma...
2 — Cala-te! Só dizes disparates. Odeio-te.
1 — Eu também te odeio. Não és um artista, és um arpista, um artolas, um artimanhoso, um artpobre, um cromo!
2 — E tu não és uma espectadora. És uma espectaburra, uma espectaculosa, uma expecturada, uma croma!
1 — É tudo mentira. Tu nunca te foste embora. Tu nunca vais embora. Tu só enuncias. Tu não fazes. E nós só queremos que nos façam. E por isso nos rimos agora. Porque é sempre o espectador que ri por último. E quem ri por último, ri melhor.
2 — O melhor não é necessariamente bom. O que fazes não interessa pra nada; interessa como fazes o que fazes. Energy: yes! Quality: no!
1 — 2005!
2 — 2005.

[...]



sexta-feira, julho 25, 2008

"lo-fi" - sophy.

APOCALYPSE NOW
Google Talk


00:41

ELE: Já decoraste A Voz Humana? EU: Já decorei, sim senhor. Tal como manda a tradição... Decoro o texto primeiro e faço depois. Este espectáculo tem que ser tudo como manda a tradição. Quero fazer um readymade da tradição. ELE: Eu sei, eu sei. Muito rogeriano, de resto... EU: Isso é que eu ainda não sei. A ver... ELE: Não paras! EU: Páro. Para mim acabou. Estou farto. Findo este ano, vou dedicar-me à minha carreira de cozinheiro. Vou "deixar tudo" para ser cozinheiro. Não é bonito? ELE: 'tás sempre a dizer que acabou, mas nunca mais acaba!!! [...] Quando se é artista, é sempre a acumular funções... EU: ...onde é que isso está escrito, que eu sou "artista"? Um "artista" que trabalha no McDonald's para ganhar dinheiro é "artista" quando está a trabalhar no McDonald's? Os hamburgers que vende são "arte"? "Artista" não é uma profissão... ELE: Depende. EU: "Artista" não é coisa que se seja. Não se é artista. Ninguém "é" artista. O artista não existe. Já o cozinheiro "existe". Cozinheiro é-se. ELE: Hummm... Tanto como artista, parece-me... EU: ...ando sempre a dizer que as coisas que faço são o que são, e que aquilo que são é o nome que têm... ELE: Pois, eu sei... EU: Pronto, a Universidade vai ser isso mesmo: uma universidade. Sem metáforas. ELE: A arte não tem que ser metafórica!!! EU: É sempre vista como tal. Eu tenho muita pena. Para mim, acabou-se a dialéctica do real/ficcional. Quero continuar a fazer coisas sem ter que estar dentro dessa dialéctica, e ao mesmo tempo sem ter que fazer de conta que ela não existe. Nem que para tal tenha que sair da construção artística. Vai ter que ser. Fazer o caminho inverso ao do Godard, que diz ter deixado de fazer cinema para passar a fazer arte. ELE: Hummm... Pois, já tinha percebido. EU: Não quero mais "fazer de conta" que sou curador, mesmo que o seja, de facto. É divertido, mas não passa disso... Quero ser mesmo. Mesmo que esse mesmo seja, ainda assim, "a brincar" (uma das minhas expressões preferidas...) ELE: Eu gostava mais quando eras artista, de facto, e sem metáforas nem ficções. EU: ...ou faço mesmo dentro da construção artística (como vai acontecer no Espectáculo de Teatro), ou faço mesmo fora dela, como vai acontecer na Universidade. (resumi grosseiramente, mas acho que bem...) Farto de ter um pé dentro, outro fora. ELE: ...ou pelo menos sem mais ficção do que aquela que a vida já tem, n'est-ce pas? EU: Isso foram os últimos 6 anos da minha vida, não quero mais... Que venham outros e façam por mim. EU: Compreendo, mas sou melancólico, o que é que queres? EU: Eu acho isso bem e até acho bonito, mas, honestamente, estou-me a cagar para o que já fiz. Não sinto qualquer nostalgia mais ou menos melancólica. Sinto que tenho que desrespeitar o meu trabalho na mesma medida em que desrespeito os dos outros antes de mim. Jamais me poderei levar a sério. Morro só de pensar nisso. ELE: Melancolia não tem a ver com isso... EU: A tua melancolia é a do espectador. É a mesma melancolia que eu sinto quando penso nas coisas que a Sigalho fazia em 1999, que eram maravilhosas e me influenciaram imenso. Mas é passado. ELE: ...mas agora não fiques igual a ela só porque fizeste 30, please! EU: Não. Porque eu recuso-me a fazer Vou A Tua Casa's para o resto dos meus dias. Ainda que, na verdade, seja isso que toda a gente espera de mim. Eu só quero ser cozinheiro. E dos bons! Abro um restaurante maravilhoso e as pessoas vão lá como se fossem ver um espectáculo melancólico do Rogério. Cada um vê o que quer. Isso já não é da minha responsabilidade. Acabou-se a Oportunidade do Espectador. Quero uma "oportunidade do criador". Preciso. ELE: ...uma melancolia niilista pós-espectacular rogeriana... Não gosto muito. Gosto mais do artista que faz comida verdadeira que se come mesmo e ainda assim é ficcional...

01:10

ELE: Eu gosto de poesia. EU: Eu abomino poesia. ELE: Pois, eu sei... EU: Eu já só leio livros de cozinha. São os melhores livros de filosofia do mundo. Estética pura. Estética no seu estado mais elevado. Físico-químico. Humano. ELE: Isso já não concordo. A metáfora culinária é uma metáfora para o artesanato e não para a arte. EU: Primeiras: ninguém falou em arte aqui. Segundas: eu disse "livros de cozinha", não disse "culinária". Estou a falar-te de estética, não te estou a falar de antropossociologia alimentar! ELE: Não... EU: ...e depois a Oprah é outra lição sublime de estética. A Oprah é a representante máxima do triunfo filosófico da estética. Mais importante que qualquer rizomada publicada em livro. Mais importante que a própria filosofia. Mais importante que a Madonna. Primeiro: porque é preta. Segundo: porque é americana. Três: porque jamais irá cometer suicídio. Ela é o futuro da filosofia na sua máxima expressão. Sem ela, não existiria Zizek. ELE: ...temos dúvidas. EU: Hahahaah. Acho maravilhoso que me continues a levar a sério. Isso é bonito. Acredito mesmo que a cultura popular é a mais sublime das culturas. Na verdade, só existe cultura popular. As outras não existem. A cultura popular é a única cultura físico-química. É a única cultura verdadeiramente "humana". ELE: ...tu afinal és o Stanislavski. Eu sempre disse isso! Vou guardar o catálogo do Vou A Tua Casa e ler o texto do Lado C todos os dias... EU: Porquê? ELE: Protesto melancólico...

sábado, julho 19, 2008

a oportunidade do espectador.

THE CURATOR'S HOUSE
[último diário]


Saiu tudo bem. Saiu tudo mal. Os tempos todos trocados. Um ritmo insuportável. Apaga. Acende. Retoma. Recomeça. Desiste. Muito calor. Pessoas cansadas. As luzes eram más. Os vídeos eram maus. A banda sonora era uma punheta (do curador). Tudo muito mal mastigado. Incoerente. Contraditório. Poucas ideias. Muitas ideias. Ideias a mais. Anos 90 mal resolvidos. Anos 80 em impasse. Anos de agora muito pouco fáceis de olhar. De frente. Ou então de pé. Muito tempo de pé. Se isto já fosse a Curator's School, 2/3 da plateia levava falta a vermelho. Farto de preparar aulas para alunos que não fazem os trabalhos de casa. Não sei se quero viver na era do empate técnico. Construí as minhas paredes, quero viver dentro delas, recuso-me a deitá-las abaixo. De resto, tudo bem. Disseram-me que o meu trabalho era sobre a crise da contemporaneidade — não se pode fazer mais; não há nada para fazer. Disseram-me que a A Oportunidade do Espectador devia ser o modelo de toda a ficção nacional — pode-se fazer? Disseram-me que havia quem quisesse fazer parte da "minha" comunidade; disseram-me que havia quem já estava a congeminar uma contra-corrente. Que fazer? A grande conquista da noite: nenhum crítico lá pôs os pés. Nada se perde, tudo se transformou: estavam lá os meus. No fim, aconteceu uma gay pride party. Juro que não fui eu que a encomendei. Nunca mais faço disto. Nada a fazer. Acabaram-se os conteúdos (diz-me o André); venham os formatos (digo eu). Isto foi o início do fim. Bem-vindos à realidade? Não, we'll be right back...



quinta-feira, janeiro 17, 2008

o espectáculo continua.

M
S
N
2


[...] só uma frase, antes das férias: "Não partir das boas coisas velhas, mas das más coisas novas". [...] tenho andado a falar muito por citações, ultimamente. Começo a achar que não tenho personalidade própria: é tudo roubado de outras pessoas... [...] é como o António Pedro Vasconcelos. Está sempre a citar. E é muito culto, o que só piora. [...] eu não sou muito culto. Sou fundamentalista em relação ao pouco que sei. O que só piora. [...] ouvi dizer que se estivéssemos no século XV, serias inquisidor. [...] como quase toda a gente é herege, tal é a razão pela qual quase ninguém gosta de mim. [...] "toda a gente" diz que és um tiranete. Mas eu desconfio sempre de "toda a gente". [...] quem me dera ser um tiranete! Sou inofensivo, infelizmente... [...] ainda bem! [...] tenho o problema de ser demasiado apaixonado pelas coisas em que acredito. Sou um grande cromo, é o que eu sou. Um totó das artes. Um crominho das performances. [...] eu gosto disso! E isso não é problema, é virtude. [...] e fico furioso (faço birra, mesmo!) quando vejo coisas/pessoas que vão contra aquilo que eu defendo. [...] o que importa é que o teu trabalho faça prova do que dizes. Eu sou aberto a todas as perspectivas: desde que não me digas que és filósofo... [...] deus me livre! Não digo. Fica prometido... Mas e se dissesse? [...] arte e filosofia são coisas diferentes. E se não são, então teremos que meter a matemática ao barulho. [...] venha ela... [...] há que saber matemática avançada para se estar na vanguarda. [...] de acordo. [...] e se calhar isso demora mais tempo do que as décadas todas que o Cézanne levou a olhar a montanha Sainte Victoire. Eu, felizmente, como separo arte e filosofia, não tenho de me preocupar com a matemática. [...] o Cézanne é uma excelente arma de arremesso contra aqueles que me acusam de andar há 4 anos a trabalhar na mesmíssima coisa. [...] e fazes bem, mas sabes que há exemplos na história para defender todos os pontos de vista. A história é muito democrática... [...] felizmente para uns, infelizmente para outros. [...] vou estar atento aos podcasts do MIT. Porque deste ponto de vista, o Media Lab é onde se está a fazer a arte contemporânea. [...] inteiramente de acordo. [...] estás a ver quanta imbecilidade conseguimos nós desmascarar numa só conversa? [...] eu vou desistir, sabias? Só para chatear os meus amigos... Como fez o Duchamp. [...] não. Desistir é feio... [...] a Laurie Anderson é que dizia que os terroristas são os verdadeiros artistas, pois são as únicas pessoas no mundo capazes de mudar as coisas... Não desisto, portanto: dedico-me a matar pessoas feias, "que é uma arte de respeito". [...] a única "arte de respeito" é a "arte do futuro". Aliás, é a única que existe. [...] não podia estar mais de acordo. [...] e o futuro inventa-se. [..] olha, vamos fazer um coffee break neste nosso debate. Preciso de ir jantar. [...] e eu preciso de ir fazer as malas. A questão dos negros na arte portuguesa também me interessa, mas fica para depois. [...] até logo...

[2007]


sexta-feira, novembro 16, 2007

happy birthday.

16.11.2005 - 16.11.2007


artwork: Diogo Machado

Vou comemorar sozinho, porque foi assim que o escrevi. Vou dedicá-lo aos 5 artistas Portugueses com quem falo, os únicos que interessam e com quem consigo dialogar. Vou tatuá-lo no braço direito, em jeito de suástica "street-artizada", forever and ever. E é claro que vou enjoar dele, mas à conta d'A Oportunidade do Espectador. E é claro que vou ser crucificado por causa dele. Para no fim o colocar num pedestal perene qualquer, ao bom gosto deslavado e burguês de Portugal (ou deveria dizer Europa?). Daqui a um ano, ao aniversário terceiro, vou-me esquecer que ele existe. E escrevo outro.


sábado, outubro 13, 2007

die Gelengenheit des Zuschauers.

WORKSHOP in BERLIN

Tanzfabrik, 15-21 Oktober, 2007



©João Costa Espinho


WORKSHOP — Created and directed by Portuguese performance artist Rogério Nuno Costa, with the accompaniment of many other Portuguese artists and thinkers, this workshop is essentially based in a theoretical methodology. It is intended to give the participants the opportunity to know the project Going To Your Place and all the questions risen by it, for that using a group of images, texts, critical analyses, artists' reflections and other materials, as well as the transdisciplinary information compiled in a catalogue and in a video-documentary. Taking this amount of information into account, each participant is invited to re-create his own artistic intervention, basing himself in the Going To Your Place theories that are expressed in the document Dogma 2005. A critical accompaniment will be supplied, as well as various discussed materials and debates, always to be followed up by each participant individually. The aim is to gather as many performative possibilities that contemplate the rules proposed by Dogma 2005 as possible. Nevertheless, the participants are not obliged to put their projects "into practice", in the same measure that we want to build up projects that can achieve an auto-sufficient praxis as long as the themes are being discussed. In other words, to make questions without expecting an answer, or else to put the answer already inside the question. Can a project be more important than its execution? Can I wait for the ideas to come, and not provoke their appearance? Can a question be more important than its answer? Can the process be more important that its result? Can the process be already the result? Can art be "only" a question? Can art never get an answer? Can we never know when it started? Can we never know when it ends?

CONFERENCE — Right in the middle point of the workshop Going To Your Place, the participants will be invited to join a public conference/demonstration about the main themes and questions being discussed in the workshop, for that using the actual situation of their personal projects as illustrative examples. All the documented materials produced until then will take part of this conference. The main purpose is to confront every personal project with different points of view from outsider artists and thinkers, improving the quality and the quantity of the questions risen by the works. Rogério Nuno Costa and a moderator will guide this conversation. 

FINAL PRESENTATION — By the end of the Going To Your Place workshop process, a public performance/installation will be held exactly in the same place where the workshop was developed. Inspired in the format of the movie The Five Obstructions, by Danish movie directors Lars von Trier and Jørgen Leth, this final presentation will be built upon the multidisciplinary materials and ideas produced by each participant during the workshop. Every work will be demonstrated by means of interviews, short documentaries/making of's, performance presentations, visual art exhibitions and critical analyses. Each participation will be judged in accordance to Dogma 2005 rules. Will the group of participants pass the test? 

Fabrikationen '07

Workshop_15-21 October
Conference_19 October
Final Presentation_21 October


[The workshop is open to everybody, artists and non-artists. The only requirements are an open minded spirit presence, some paper and a good pen. Rogério Nuno Costa will choose up to 3 participants to integrate the project "The Spectator's Opportunity", that will premiere in Lisbon in 2008, gathering many other participants from various Portuguese cities, as well as london Hamburg. The 'Going To Your Place' workshop and its subsequent project 'The Spectator's Opportunity' are supported by the Portuguese Arts Institute/Ministry of Culture.]

sábado, setembro 29, 2007

bracara.

SEPTEMBER MMVI
conversa final


Há um ano atrás, apresentei em Braga a primeira parte do Vou A Tua Casa, com produção da Censura Orévia AC. Fiz 5 espectáculos para um total de 14 espectadores. Houve ainda uma festa e uma conversa final. De regresso a Braga, desta feita para realizar a edição número 6 do workshop Vou A Tua Casa, sinto vontade de tornar ainda mais públicos os resultados da dita conversa. Basicamente porque me encheram as medidas, e as do projecto também.



(...) Abrem-se as portas do E S P A Ç O em modo ressaca para um último fôlego de Vou A Tua Casa: a conversa. No chão estão espalhadas almofadas em círculo; recordo-me de ter bebido chá. Numa tela projecta-se o "best of" Vou A Tua Casa na forma de um slide show fotográfico. Aparecem em número mais pessoas que não assistiram ao espectáculo (em suas casas ou em casa de outrem) do que as que assistiram, o que para mim é completamente irrelevante. Disponibilizo-me, portanto, para responder a todas as perguntas, dúvidas e questionamentos existenciais, rebater argumentações, desconstruir falsas questões, edificar as boas reflexões, o que vier... Foi um momento único, e cúmplice, de absoluta partilha de inteligência (e, claro, de curiosidade), perpetrado por oito pessoas com graus de conhecimento diversos em relação ao projecto. Da transcrição exaustiva que fiz do resultado captado pela máquina de filmar, sintetizo tudo no seguinte telegrama:

JOANA
Eu não vi o espectáculo, por isso tenho muita curiosidade em saber o seguinte: quando entras, qual é a primeira coisa que fazes?

ROGÉRIO
Faço exactamente aquilo que faço quando vou a casa de alguém que não conheço: pergunto o nome, peço permissão para deixar a minha mochila e o meu casaco num qualquer sítio estratégico, vou até onde sinto que socialmente posso ir, ou então peço que me mostrem a casa; às vezes pergunto pela casa-de-banho, se preciso de lá ir. Tudo isto são pormenores que normalmente os espectadores não assumem como parte integrante do espectáculo, vêem-nos como uma introdução, uma espécie de warming up. Às vezes nem isso. Só quando eu começo a fazer qualquer coisa que de certa forma se afasta do "quotidiano" (o que nem sempre acontece…) é que o espectador assume que começou, embora para mim seja evidente que começou muito antes. Não me preocupa que este momento inicial possa ser ambíguo ou confuso para o espectador. Na verdade, não me interessa fazer este espectáculo de outra maneira. Se eu vou a tua casa, é porque quero estar próximo de ti, quero conhecer-te. Se eu quisesse que tu permanecesses "anónima", não me dava ao trabalho de ir ter contigo, fazia o espectáculo num palco convencional.

JOÃO PEDRO
Então se calhar o espectáculo não começa quando tu entras pela porta, começa antes. Isso remete-me para a questão das origens do próprio espectáculo…

ROGÉRIO
E essa questão é ainda mais flagrante no que respeita à segunda versão, o No Caminho. Na primeira versão é comum, ainda assim, atribuir-se o início à minha entrada e o fim à minha saída da casa, embora eu saiba, por intuição própria e por conhecimento daquela que é a opinião da grande maioria dos espectadores, que essas duas balizas são muito pouco nítidas, logo, discutíveis. No contexto específico do No Caminho, há espectadores para quem o espectáculo começou muito antes do momento em que o encontro efectivamente se deu. Do outro lado da equação, tens os espectadores para quem o espectáculo nunca mais acabou. Matematicamente, isto podia ser representado por uma qualquer ideia de "menos infinito" e de "mais infinito". Ideia performativamente "perigosa", mas interessante. Às vezes encontro-me com pessoas que conheci no Vou A Tua Casa e é para nós evidente que ainda estamos a viver uma performance que começou há 3 anos...

JOÃO PEDRO
Eu gostava então de reformular a pergunta da Joana e dizer: levas conceitos formados para o espectáculo, coisas que intuitivamente sabes que funcionam e que vais querer repetir, ou trabalhas com uma qualquer ideia de abismo, de desconhecido, em que são as pessoas a definir o jogo entre esses teus conceitos e aquilo que acabas por fazer?

ROGÉRIO
Levo na cabeça uma "ideia de espectáculo", sim. E levo, sobretudo, um conjunto de "regras" presenciais, a maioria delas de carácter intuitivo ou até inconsciente, que me irão ajudar a tomar decisões básicas: como agir, o que dizer, etc. Essa adaptação de um conceito a uma realidade prática e concreta (ainda que com contornos "desconhecidos") é obviamente necessária, mas não posso assumi-la como o conceito deste espectáculo. A ideia não é ter um espectáculo para fazer e ter que o adaptar a circunstâncias diferentes todos os dias. Isto não é um trabalho de site-specificity ou de transferibilidade de uma qualquer ideia de site-specificity. O espaço e as suas contingências são um pretexto, não são a razão de ser deste espectáculo. O espaço não interessa para nada.

MARIANA
Então o que é que interessa?

ROGÉRIO
Na segunda parte da pergunta, o João Pedro refere-se ao trabalho de mediação conceptual que é realizado na óptica do observador. Era aí que eu gostava de poder reflectir. Penso que é o espectador que acaba por delinear esse set de regras presenciais que eu, como performer, me encontro a trabalhar, às vezes a um nível, como disse, inconsciente. É ele o produtor de todos os sentidos. Eu apenas respondo a estímulos, mais ou menos sensoriais, mais ou menos intelectuais, e devolvo depois qualquer coisa atravessada pela minha emocionalidade e inteligência. O espectador, mesmo sabendo que algo não está a ser trabalhado "conscientemente" por mim, obriga-se a uma produção de sentidos dentro da mecânica do próprio espectáculo. Ou seja, é ele que "cria" o espectáculo, e não eu. No espectáculo em casa do Hugo, o livro que eu abro e leio ao calhas ganha de repente uma dimensão transcendental: aquilo que digo bate certo com o que acabei de dizer no momento imediatamente anterior, não porque eu (ou o espectáculo) tenhamos poderes sobrenaturais, simplesmente porque estamos inseridos (eu e os espectadores) num território altamente sensível e atento. Trata-se de um espectáculo; como tal, até os objectos de uso diário daquele espectador passam a ser "significantes". É este poder criativo inerente ao olhar do espectador que me interessa trabalhar. E isto leva-me a perguntar: como é que vocês [Clara e Sandra], que viram o espectáculo, se revêem nisto que eu acabei de dizer?

SANDRA
Como eu te conheço muito bem, preferi ficar quieta e calada; não quis provocar nada, porque senti que tudo o que fizesse seria falso e artificial. E então preferi ser uma espectadora "passiva". Mas estou no espaço de todas as emoções. Não tenho pessoas desconhecidas ao meu lado como num teatro, que me impedem, por exemplo, de chorar, por vergonha… Fiz muitas coisas que jamais faria num teatro. Por isso, não sei muito bem até que ponto é que esta "passividade" de facto se efectivou.

ROGÉRIO
A proximidade é uma coisa muito especial. E não depende do espaço. Repito: o espaço é apenas um pretexto para que essa proximidade aconteça e se construa. Por isso eu rejeito a ideia de que o Vou A Tua Casa seja um trabalho sobre o espaço. Ele usa o espaço (e os seus objectos) em prol de uma outra coisa. Mas também sei que muitas vezes é o espectador o primeiro a criar esses novos sentidos "espaciais" e a olhar para a sua casa de uma forma diferente, não porque eu esteja a fazer esse trabalho, apenas porque estou presente. Fiz um espectáculo em casa de uma amiga há 3 anos para o qual levei vestida uma t-shirt com a palavra GENIUS. Passados uns dias, encontrámo-nos para falar sobre o espectáculo e ela diz-me que houve uma coisa que a incomodou: o "figurino". Achou-o demasiado "pretensioso". É interessante ver como a roupa que eu vesti nesse dia, sem qualquer intenção de com ela dizer fosse o que fosse (a não ser: "estou vestido"), se transforma de repente num "figurino". Assim como é interessante ver como a simples ideia de "espectáculo" (que não é nada simples…) fez com que aquela espectadora (que me conhece muito bem, assim como à t-shirt!) estabelecesse um sentido extra-quotidiano para um dos elementos em jogo. Se eu quisesse ser básico, diria, rematando: "A vida é um teatro, e todos somos actores; então vamos levar isso até às últimas consequências!". Sinto muitas vezes que o meu trabalho tem esta função quase-científica de funcionar como uma lupa, que eu coloco em cima desse chavão de bolso que diz que "todos somos actores", como forma de o ampliar e de o tornar discurso. O método que uso é o da observação participante e o objectivo que persigo é o de "dizer a verdade", sempre (ideia envolvida de documentalidade cujas origens eu consigo atribuir à minha formação em Jornalismo). E tal acontece mesmo que essa verdade seja uma verdade manipulada, ampliada, reduzida, exagerada, ou até mesmo "falsa" (porque existem "verdades falsas", ou "falsas verdades"). Mas tudo isto acontece, em espectáculo, de uma forma absolutamente democrática: eu sou cobaia desta experiência teatral na mesma medida que tu também o és. Não me interessa nada fazer um mero trabalho teórico de antropologia teatral, ou de construir experiências próximas de um qualquer "teatro invisível"; não quero surpreender as pessoas com uma ideia de espectáculo para o qual elas não foram convocadas. Ontem, quando fiz um "espectáculo-surpresa" para uma aniversariante, a primeira coisa que lhe disse mal entrei foi: "Olá, eu sou o Rogério, e vou fazer para ti um espectáculo chamado Vou A Tua Casa". Interessa-me que a pessoa saiba que há um compromisso e uma enunciação de espectáculo feita de antemão. Só assim ela poderá ser criadora efectiva do que vai ver a seguir. 

LUÍS
Tenho duas perguntas muito simples, que são também duas curiosidades minhas. A primeira diz respeito a todo o lado visual do teu projecto, as coisas às quais eu tenho acesso através dos e-mails que recebo e das fotografias que vejo. Por exemplo, a recorrência às folhas de papel e às mensagens escritas em papel…

ROGÉRIO
Tenho, desde que me conheço, um fetiche com papel, canetas, tesouras e fita-cola. São as coisas com que eu brincava todos os dias quando era criança. E são os objectos/ferramentas que hoje fazem parte de todos os meus processos criativos. Uso-os por uma razão assumidamente facilitista: gosto de trabalhar com o que já conheço. E claro, a tal documentalidade de que falei acaba sempre por me obrigar a levar essas coisas comigo para os espectáculos. Não é, portanto, uma questão "estética" que eu tenha trabalhado, ou uma decisão estilística do ponto de vista meramente formal. É, antes, uma resposta ao tal espírito científico que me diz para fazer prova de uma determinada realidade observável; neste caso, a própria realidade do processo que me trouxe até aqui. E depois são materiais muito práticos, fáceis de transportar, e servem para muita coisa: fixação de memórias, colar coisas que não devemos esquecer na parede, etc… São, por isso também, objectos-metáfora muito fortes.

LUÍS
A minha segunda curiosidade diz respeito aos tipos de público. Com este teu Projecto de Documentação, acredito que tenhas feito algum trabalho estatístico a esse nível. quais são as conclusões?

ROGÉRIO
Estou a fazer esse trabalho; uma das componentes do catálogo é uma espécie de cronologia exaustiva do projecto, que incluirá também alguns dados estatísticos. De momento, não tenho números certos para te dar, mas posso dizer-te que uma grande fatia do público do Vou A Tua Casa está de uma forma ou de outra ligada ao meio artístico, facto que não me chateia nada. Desde a estreia, em Agosto de 2003, até sensivelmente Junho de 2005, quando apresento a primeira versão processual do Lado C, a relação deste espectáculo com o público vai-se afunilando cada vez mais: os espectadores vão-se tornando mais especializados, e eu próprio vou aproveitando isso, adequando o projecto a uma dimensão sobremaneira mais teorizante. É aqui que começam a entrar em cena os chamados "observadores". Só este ano, com a apresentação da segunda versão do Lado C no Festival Alkantara, é que o projecto voltou a reconciliar-se com o público geral, não por eu o ter mudado, simplesmente porque foi apresentado num contexto específico, que o tornou mais visível. É interessante verificar que a grande maioria das pessoas que viram o Lado C no Alkantara nunca tinham visto um único espectáculo meu. Ou seja, entraram no universo Vou A Tua Casa pela porta de saída.

LUÍS
Devem ser experiências diferentes, as que acontecem com público conhecedor e as que não… Tens preferências?

ROGÉRIO
Três anos é muito tempo; dá para recolher todo o tipo de experiências e de combinações diferentes de público dentro do mesmo espectáculo. E não me refiro só ao grau de conhecimento em relação ao projecto; existem dezenas de outras variáveis. Cada espectáculo é único, por isso é tão difícil para mim seleccionar algo que possa ser representativo. Mas posso falar-te de uma "tipologia" rara no contexto específico do Lado A, que são os espectáculos feitos para um só espectador. Contam-se pelos dedos de uma mão os que fiz, e porque foram sempre momentos muito especiais, ficaram gravados na minha memória de uma maneira diferente. Tratam-se de exercícios que se aproximam da exigência conceptual do No Caminho, mas no espaço próprio do espectador. São muito poucas as pessoas que se permitem a uma experiência dessas: o grau de exposição pessoal e emocional pode ser muito violento para ambas as partes. Tiro-lhes o chapéu pela coragem! Foram momentos que acabaram sempre por inaugurar qualquer coisa nova para o projecto, como o espectáculo que fiz com o Paulo Bessa cá em Braga, que foi fantástico!

SANDRA
Quando dizes que foi "fantástico", que critérios assistem a essa tua avaliação?

ROGÉRIO
Não são obviamente critérios do foro "técnico" (texto bem dito, voz colocada, marcações cumpridas, etc.). Trata-se antes de uma eficácia ao nível do trabalho que é feito para se atingir a tal proximidade de que falávamos. Gostava de poder dizer que essa "proximidade", e ao contrário do que muitas pessoas pensam, não tem nada a ver com um qualquer trabalho de manipulação emotiva que eu decido engendrar para conseguir "tocar" as pessoas. Diz antes respeito à vontade (que começa por ser minha) de que algo verdadeiramente "humano" aconteça. E isso só se consegue pela evidência de uma proximidade bem trabalhada por ambas as partes. Eu não posso responsabilizar-me totalmente pelo maior ou menor sucesso de um espectáculo. Os espectadores têm que ser tão competentes quanto eu em relação à totalidade daquela experiência, não na condição de performers, mas na condição de pessoas. Por muito que seja duro ouvir isto, e estou a dirigir-me especificamente aos espectadores especializados (mais concretamente ainda àqueles que se dizem críticos), o público do Vou A Tua Casa tem uma responsabilidade acrescida perante essa coisa a que grosseiramente podemos apelidar de "eficácia do espectáculo". Se algo corre mal, pode muito bem acontecer por culpa deles! E não me venham com a história de que eu, como responsável artístico por um projecto, devo arranjar maneiras de contornar uma possível situação desequilibrante, que possa eventualmente pôr em causa a própria ética do observador. Quando tu aceitas que um estranho entre em tua casa e faça um espectáculo para ti, não podes demitir-te! Isso poria em causa a tua honestidade como espectadora, fosse qual fosse o grau de conhecimento em relação ao projecto. A ética do observador é uma questão carregadíssima de peso pós-moderno, mas infelizmente ainda continua a ser analisada de acordo com premissas classicistas: tu pagas para ver algo que alguém preparou para ti. O projecto, a partir de 2004 para a frente, começa também a sustentar isso e a auto-legitimar-se de várias maneiras: tu só pagas pela performance se achares que deves, por exemplo, podendo acontecer ser eu a pagar-te a ti, caso seja evidente para ambos que foste tu quem "criou" o espectáculo.

CLARA
Mas ainda assim as pessoas têm o direito de se sentir defraudadas…

ROGÉRIO
Como em qualquer espectáculo! A margem de subjectividade na forma como o mesmo é recebido é sempre um dado a considerar. E ou se gosta ou não se gosta; pouco mais há a acrescentar a isto. Mas posso responder positivamente à tua pergunta, sem ter que a desconstruir: tal como na vida, o excesso de informação ou o excesso de expectativas podem ser inimigos terríveis para a fruição deste espectáculo. As pessoas têm tendência para efabular coisas à volta do Vou A Tua Casa que o projecto não contempla: essa questão da interactividade, por exemplo, que eu pessoalmente abomino. E depois, segundo uma regra perigosa e assumidamente generalista, as pessoas nem sempre estão preparadas para serem confrontadas com a sua própria realidade; estamos todos programados para levar com mentiras em cima, ou com ilusões, com as tais "verdades falsas". E de repente chega um gajo a tua casa e oferece-te um livro, que tirou da tua estante, embrulhando-o em papel colorido que ele próprio trouxe na mochila, como que para te fazer lembrar que aquele gesto existe naquele objecto que já era teu, algo que muito possivelmente tu já havias recambiado para um qualquer sítio inutilizado do teu cérebro. O teatro é o contrário da nossa casa, diria o Gasset. É legítimo que tu, como espectadora, não te interesses por essa confrontação, mas então se calhar é um erro quereres entrar no Vou A Tua Casa. Eu não acho que o espectáculo seja para toda a gente. Nenhum espectáculo é para toda a gente, nem deve ser. Isso é demagogia bacoca. Nenhuma razão deve assistir à ideia de que tu deves ir ver um espectáculo, sabendo à partida que não estás com pachorra para. Se não estás com pachorra para, prefiro que fiques no tal sítio que não é o teatro; prefiro que fiques em casa.

SANDRA
Então o que é que fez do Paulo um espectador "competente", de acordo com o que acabaste de dizer? 

ROGÉRIO
O facto de ele ter sido o mais honesto possível com a sua condição de espectador e com as expectativas que tinha em relação ao espectáculo. E porque isto é um jogo duplo, também o facto de eu ter sido verdadeiro na forma como geri as minhas próprias emoções e sensações, durante o tempo em que lá estive. Ele começou por me contar histórias. Histórias de viagens. Eu senti curiosidade "verdadeira" em ouvir essas histórias e deixei-me levar por elas. A única questão performativa a retirar daqui é: até onde é que isto nos pode levar? E o espectáculo é construído em cima dessa questão, exclusivamente. Outra ilação de cariz antropo-sociológico: estamos todos programados para fazer e matar possibilidades ainda antes delas existirem em concreto, por acharmos que estamos a ser chatos, ou que a coisa já deu o que tinha a dar, etc, etc., etc. Já para não falar dessa absurda obrigação que qualquer performer tem de, por estar num espectáculo, ter que dar espectáculo. Eu tento contornar isso a favor de algo que não chega a ser nem mais próximo da vida, nem mais próximo da arte, antes uma espécie de nova "humanidade", uma zona inspirada em ambas as coisas, pela forma como tempo e espaço são trabalhados pelas duas pessoas em uníssono. Claro que esta é uma relação muito delicada, por serem justamente duas cabeças a pensar. Eu não posso fazer um exercício destes apenas de mim para comigo; daí a minha paranóia com a exposição informativa e com as declarações prévias de intenções. Ao fim de 15 minutos a contar histórias, o Paulo parou e disse: "Quando quiseres, podes começar." E eu respondi: "Já começou!" Ele aceitou, sorriu, e continuou a contar as suas histórias. 90% do espectáculo foi falado por ele, mas o espectáculo foi feito pelos dois. é isto o "vou a tua casa".

JOÃO PEDRO
Eu gostava de voltar à questão do espaço e discuti-la a partir da própria enunciação do título — Vou A Tua Casa. Porque a palavra "casa" está lá, remete-nos para um espaço concreto e definido, mas no entanto é o verbo "ir" que tem mais força. Ou seja, o título é quase todo ele só acção…

ROGÉRIO
Exactamente. É essa a mais simples construção conceptual deste projecto, que eu tentei que fosse clara logo desde o título: um actor que vai a tua casa. Não é uma ideia, não é uma sensação, não é um nome, não é um modo, é uma acção. O elemento "casa" é meramente paisagístico; é o tapete em cima do qual a relação entre os elementos observador e fazedor se constrói, sempre em direcção a um possível espectáculo. Esta minha recusa em assumir o espaço para além da sua condição de simples pretexto trouxe-me alguns dissabores. A maior parte dos desapontamentos de algumas pessoas em relação ao No Caminho, por exemplo, deveu-se ao facto de eu não ter trabalhado o espaço por elas escolhido de uma maneira "artística". De ter sido até displicente em relação a ele. Foram muitos os casos em que mudámos de sítio mais que uma vez durante o espectáculo. Se calhar eu confio demasiado na literalidade do título; pode ser uma ingenuidade minha. Mas também sei — e vou avançar com mais uma das minhas ilações antropológicas —, que nós, pessoas que vemos e que fazemos espectáculos, não estamos propriamente preparados para aceitar a literalidade de bom grado. Ou para a ver como uma coisa "artisticamente" interessante, para ser mais exacto. E eu acho uma pena… Um amigo da Clara e da Sandra, quando recebeu informação sobre o espectáculo, não acreditou que fosse mesmo suposto ele acontecer nas casas dos espectadores; pensou que o título era uma metáfora de outra coisa qualquer, e que o espectáculo acontecia num palco. Ou seja, pôs mais camadas significantes em cima do título por não lhe bastar a primeira e mais básica camada de todas. Isto explica tudo...

RUI

Portanto, o espectador deste espectáculo não é um espectador "passivo", mas também não é um espectador "interactivo". Que nome é que achas que podias dar para o classificar?

ROGÉRIO
"Participativo” seria talvez a palavra mais adequada. Mas eu prefiro "criativo", apesar de ter consciência que se trata de uma escolha falível. Digo "criativo" para poder imbuir a figura do espectador dessa capacidade, de que já falei, que é a produção de sentidos. Na minha condição de intérprete deste espectáculo, eu sou tão mais bem sucedido quanto mais for capaz de me demitir dessa tarefa de significar tudo aquilo que faço e tudo aquilo que acontece. Quanto mais eu recusar uma série de "merdas" que dizem respeito às coisas que eu já sei, ao facto de já ter feito uma série de espectáculos e de saber umas coisitas sobre teatro, ou quanto mais eu me surpreender comigo próprio e me deixar levar por um momento ou situação que me está constantemente a trair como actor (e até mesmo como criador), maior será o espaço dado ao espectador para que este seja efectivamente "criador" do espectáculo. Um amigo meu, actor, dizia-me que durante o espectáculo em casa dele, quando eu mexia num objecto, o objecto transformava-se, passava a ser outra coisa qualquer, mesmo que eu não fizesse absolutamente nada a não ser segurá-lo na mão. O compromisso "espectáculo" transforma uma simples chávena de café num elemento produtor de sentidos; e quanto mais eu for capaz de usar aquela chávena na sua função básica e essencial (beber café), em vez de tentar com ela fazer algo que não pertence a essa função (pô-la na cabeça a servir de chapéu), mais o exercício se torna desafiador e interessante para o espectador.

CLARA

Qual foi a melhor coisa que este projecto te deu, profissional ou pessoalmente?

ROGÉRIO
Este projecto tem-me dado muitos prémios. Quase todos vêm da relação que os espectadores estabelecem comigo e com o espectáculo, durante e após a sua concretização. Muitas vezes, eu só me apercebo dos efeitos causados pelos encontros algum tempo ou mesmo muito tempo depois. Este Projecto de Documentação tem provocado uma aceleração desse processo, por isso tenho hoje muitos exemplos que te posso dar. Um dos mais recentes tem a ver com um espectador do No Caminho, que levou para casa uma minúscula planta com raiz que eu arranquei de um canteiro para lhe oferecer durante o espectáculo, em 2005. Passado um ano e meio, volto a encontrar-me com ele, por causa do Projecto de Documentação, e ele diz-me que a planta entretanto cresceu e continua viva num vaso em casa dele. Isto pode parecer muito banal (são muitas as pessoas que guardam bilhetes de espectáculos como recordação, por exemplo), mas a verdade é que a maioria dos espectáculos valem por si, não se substituem a esse acto de partilha de memória. No caso do Vou A Tua Casa, quando um programador me pede o DVD do espectáculo, eu só me dá vontade de lhe enviar uma fotografia da planta que o Diogo cuidou durante um ano e meio. Porque é aí que está o espectáculo, indubitavelmente. E isto é, também para mim, um "prémio", um reconhecimento da forma como as coisas que faço podem de facto tocar as pessoas e isso ser de certa forma devolvido ao destinatário. Vou ser piroso e dizer que o meu mérito profissional e artístico tem sido galardoado pelos espectadores. E eu fico muito feliz com isso. Trata-se de um reconhecimento totalmente parcial, individual e particularizado, logo, muito mais autêntico e legítimo do que o reconhecimento da crítica ou de qualquer outra realidade mais ou menos instituída (que é tão parcial, individualizada e particularizada como a anterior, só que hipocritamente camuflada com a ideia oposta). Depois do Projecto de Documentação terminar, o meu lema vai passar a ser POWER TO THE PEOPLE!. A oportunidade dos espectadores invadirem literalmente uma coisa da qual eles já fazem parte, mas para tomarem conta dela. Em definitivo.

terça-feira, agosto 07, 2007

a oportunidade do espectador.

ICH KOMM ZU DIR NACH HAUS
Workshop + Performance

em Hamburgo




Das diesjährige DanceKiosk-Installation-Project Vou A Tua Casa (Ich komm zu dir nach Haus) von Rogério Nuno Costa verwandelt Hamburger Wohnungen in Bühnen. Der Titel ist hier dementsprechend wörtlich zu nehmen: Der Schauspieler Costa geht in private Häuser oder Wohnungen und präsentiert dort eine dramatische „Übung“. Nicht ein Geschenk bringt der Schauspieler mit, sondern sich selbst. Er beginnt den Raum zu „bewohnen“, zu „besetzen“ und somit das, was vertraut schien, allein durch sein Spiel zu verfremden. Mehr als die Frage nach den Grenzen des Theaters, die sich einem unwillkürlich stellt, interessieren Costa die Menschen und Räume, die sein Spiel prägen. Der städtische Raum ist der Erfindung „in loco“ unterworfen, die durch das Theater und im Theater existiert. Es geht um Täuschung, Lüge und (vermeintliche) Wahrheit. Ohne den Einsatz großer bühnenbildnerischer Effekte geht Costa zurück zu den Wurzeln des Theaters, zur Präsenz des Schauspielers, wo auch immer er sich befindet. Nach seinem Verschwinden aus der Wohnung ist vielleicht nichts mehr, wie es war.

...que é como quem diz: vou estar durante esta semana em Hamburgo, a apresentar as versões workshop e performance do Vou A Tua Casa. Tudo inserido no Festival Dancekiosk. O workshop acontece nos dias 8, 9 e 10 de Agosto, no espaço Kampnagel, e dele sairão 2 participantes para integrar o projecto A Oportunidade do Espectador, em curso. Nos dias 11 e 12 de Agosto, será apresentada a performance Vou A Tua Casa [Lado A], nas casas dos espectadores, em três sessões diárias: 15:00, 18:00 e 21:00.

quinta-feira, julho 12, 2007

a oportunidade do espectador.

WORKSHOP VOU A TUA CASA
No Centro em Movimento
FC Verão 2007


Estão abertas as inscrições para o workshop Vou A Tua Casa, que vou orientar no Centro em Movimento nos próximos dias 30 de Julho e 1, 2 e 3 de Agosto, todos os dias entre as 18:00 e as 21:00. O workshop está incluído no Curso Internacional de Artes Performativas (FC Verão 2007), organizado pelas estruturas Forum Dança e Centro em Movimento. O workshop seguirá a mesma metodologia e assentará nos mesmos pressupostos dos workshops já realizados nas cidades de Caldas da Rainha, Torres Vedras e Porto. Serão seleccionados entre um a quatro participantes para integrarem o projecto A Oportunidade do Espectador, apoiado pelo Instituto das Artes ao abrigo do programa de apoio a projectos pontuais, na área de Transdisciplinares. O projecto arranca durante este mês de Julho e estende-se até ao final do ano e juntará participantes das cidades mencionadas e ainda Hamburgo, Braga, Almada e Berlim.